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Tal como já tinha feito em Espanha, Javier entrevistou 3400 adolescentes e pais portugueses. O livro ‘O Que Ocultam os Filhos, o Que Escondem os Pais’ é o resultado desse inquérito.

O que escondem os filhos

Então comecemos logo por aí: basicamente, os filhos escondem aquilo que acham que vai preocupar os pais ou causar conflitos. Escondem de quem gostam, se têm namorado, onde vão e com quem, o que fazem quando saem, de que falam com os amigos, se bebem ou fumam ou fazem sexo, as más notas, as brigas, os castigos, as preocupações. Há coisas que os filhos não contam nem contarão nunca: sonhos e pesadelos, o primeiro amor, pensamentos de fuga ou morte, a avaliação do modo como os pais tratam os avós, o aspecto físico, o medo de ficarem sozinhos.

Então, mas… isto não é esconder tudo? De que falam afinal com os pais? “Das horas de chegada, da liberdade que não têm, do dinheiro que não lhes dão, de que ninguém os compreende”, esclarece Javier Urras. “Mas estão no seu papel. Os adolescentes têm de amadurecer, mas para isso têm que provar que os pais não os compreendem.” E se por acaso for um pai ou mãe-modelo? “Seria trágico… Porque geraria uma desvalorização do filho, um ‘enamoramento’ do pai que o impediria de cortar o cordão umbilical.”

O que escondem os pais

Não é surpresa: escondem os assuntos que acham que podem fazer sofrer os filhos: problemas laborais, económicos e afectivos. Escondem as finanças, a sua relação com o companheiro e o sexo, os erros, os vícios, as doenças, as infidelidades conjugais, os fracassos, os caprichos, as dúvidas. “Os pais escondem dos filhos aquilo que fizeram em jovens, porque têm medo de perder a autoridade”, explica Javier Urras. “Mas é exactamente ao contrário: se os filhos souberem o que fizemos, isso vai aproximá-los dos pais. Vão saber que os podemos entender e perceber por que não queremos que cometam os mesmos erros. E, afinal, é melhor que saibam por nós, porque geralmente eles acabam por descobrir tudo: ou perguntam à avó, ou ao tio, fazem a sua própria investigação e chegam lá mesmo sem a nossa ajuda.”

Que fazer com um tabu de família

Custa admitir os nossos erros e dúvidas, mas, mais do que isso, o que os pais mais calam são os problemas do casal: “‘Casei com a tua mãe, mas a verdade é que não sou feliz’, isso eles não vão admitir nunca”, diz Javier. Mas claro que os filhos o captam. Também se calam as relações sentimentais que se tiveram antes do pai ou da mãe. Ou como os trata o avô desse filho, muitas vezes mal. Ou alguma má relação que tenham com algum familiar. São aquelas coisas de que não se fala nos almoços de domingo, os tabus de família, que toda a gente tem. “Há muitos silêncios que permanecem cristalizados, ‘enquistados’”, nota o psicólogo. “Se um filho sabe que o pai anda com outras mulheres, pergunta a si próprio como é que a mãe não percebe, e, se percebe, como é que não faz nada? Mas não vai confrontar o pai nem a mãe. E à medida que o tempo vai passando sobre estes silêncios, às tantas falar sobre isso já não tem razão de ser. Há um tempo para dizer (ou não…) as coisas.”

Deve-se falar de tudo?

“Creio que não”, defende Javier. “Porque há coisas que fazem muito mal e não trazem nenhum bem. É absolutamente normal que todos nós tenhamos  pequenos segredos. Por exemplo, um miúdo de catorze anos tem um sonho com uma prima mais gira, acha que alguma vez vai confessá-lo ao pai? Nunca na vida! Se o pai sofreu abusos sexuais no colégio, tem de confessá-lo? Não sei se trará algum bem… Há que respeitar o silêncio e o pudor de cada um, seja pai ou filho.”

O que é preciso saber

Mas qual é a fronteira entre respeitar a intimidade e saber o que é preciso saber? Segundo o psicólogo, é muito fácil para um pai atento descobrir se o filho tem ou não comportamentos que não são habituais nele. “Claro que há os pais que não saem de cima dos filhos: é aquilo a que se chama os pais-helicóptero. Um pai tem de saber o básico, mas não pode ser um inspector, um fiscal, e ter uma câmara o dia todo apontada ao filho. Tem que lhe dar liberdade e confiança.” E esta confiança é mais fácil de conquistar do que se pensa: “A confiança conquista–se demonstrando-a. Falando com ele, mostrando-lhe quem são os seus amigos, querendo conhecer os amigos deles, não lhes falhar. Quando lhe confiam um segredo, deve guardá-lo.”

O que acha que o seu filho lhe esconde?

Então… Mas não é disso que temos estado a falar até aqui? Não exactamente: uma coisa é o que os filhos de facto escondem, outra o que os pais acham que eles escondem, o que não é a mesma coisa… “Sim, isso é muito interessante, temos imensos fantasmas”, confirma Javier. Relaxe: a maioria dos pais acha que os filhos têm imensos segredos escuros, mas que a esmagadora maioria dos segredos adolescentes são… inocentes. E quando não contam qualquer coisa, regra geral é porque estão a proteger a sua intimidade, não porque haja algum perigo real. “Por exemplo, quando um filho me diz, ‘vou encontrar-me com uns amigos, mas não quero que os meus pais saibam’, está a proteger o seu mundo. Se não leva os amigos lá a casa, é porque não quer passar por aquelas cenas em que a mãe ou o pai perguntam aos amigos, ‘então que tal é o meu filho com vocês’? Há que ter cuidado com a maneira como se fala quando o filho está com o grupo.  Por que é que alguns pais tratam bem o filho quando está com os amigos e se fartam de fazer críticas quando estão a sós com ele?”

Aprenda a conversar

É difícil conversar com um adolescente emburrado, a responder por monossílabos e de olhos no chão? Mesmo assim, é preciso tentar. “Há sempre ocasiões de conversa”, nota Javier. “Imagine que vai com o seu filho de carro até Setúbal: pois em vez de ir de mãos ferradas no volante em silêncio, pode perfeitamente conversar com ele. Claro que conversar não é ‘então, já tens namorada?’, ou ‘tens que subir a nota de matemática’. Pode abrir a janela e dizer: ‘Olha que bonito aquele campo’, coisas assim, banais, porque é daí que sai a conversa. Há tanto sobre que falar.. Pergunte-lhe a sua opinião sobre temas da actualidade, ‘que achas daquele incêndio, por que achas que as pessoas fazem coisas más’?” E se é natural que os pais perguntem, também é natural que os adolescentes escondam. Precisam de distância, silêncios, pequenos segredos. E as confidências forçadas levam ao ressentimento.

Não esconda o lado negro da vida

Mesmo esta época de crise tem aspectos positivos, lembra Urras. “As crianças vão aprender que as coisas não são sempre como elas querem, e que nada é fixo. Não se pode esconder o lado negro,  eles têm de saber o que é a dor e a morte.” Mas a grande maioria dos pais esconde isso das crianças. Se alguém morre, nunca os levam ao funeral. “Também nunca os levam a ver os avós ao lar, nunca os levam ao cemitério, e tudo isso faz parte de uma aprendizagem de vida. E depois querem que sejam maduros…”

Confidente precisa-se

Pais, tenham paciência, os filhos nunca lhes contarão tudo: precisam de outro adulto com quem desabafar: um tio, um avô, um professor. Estes devem guardar os segredos que lhes forem confiados, desde que, obviamente, não comprometam aspectos essenciais da vida dos jovens. Mas por que é que há coisas que dizemos a um tio e não dizemos a um pai? “Porque é pai…”, resume Javier Urras. “Se um rapaz de 15 anos disser ao tio, ‘olha, gosto de uma rapariga, precisava de 50 euros para ir passear com ela ’, o tio leva as mãos à cabeça e diz, ‘ai meu Deus, mas que situação, nunca mais me voltes a pedir nada’, e dá-lhe os 50 euros. Se fizer a mesma coisa com o pai, ele diz: ‘Vais mas é para a escola, grande malandro.’ Um pai não pode dizer que sim a estas coisas, mas um tio pode! Também há avós que têm segredos com os netos. Isto é óptimo, porque em geral os avós são muito respeitadores de segredos.”

A maior queixa

Nunca houve tanta comunicação entre pais e filhos, mas muitos pais falam com os filhos de maneira somente funcional. “A maior queixa das crianças portuguesas é que os pais só falam com elas da escola”, conta Javier Urras. “‘Nunca me perguntam o que eu sinto’, dizem elas. Também se queixam de que os pais se riem delas quando o assunto é amor ou sexo.”

O estudo fez-se em Espanha e em Portugal, mas as perguntas eram as mesmas. Diferenças? “Entre os pais, muito poucas.” [risos] “Tanto em Portugal como em Espanha, são superprotectores.” Quanto às crianças portuguesas, dizem muitas vezes: ‘Não falo de certas coisas para não entristecer os meus pais.’ Temos de estar atentos àquilo que não nos dizem, aos seus silêncios.

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