Anos a dar consultas e no Control Talk* – um projeto que existe desde 2016 e procura tirar dúvidas e dar conselhos sobre sexualidade e contraceção de forma anónima e gratuita através da app Whatsapp – deram a Vânia Beliz (sexóloga e autora do livro ‘Chamar as Coisas Pelos Nomes’) uma ampla visão do que vai na cabeça dos portugueses no que ao sexo diz respeito.

Top das preocupações femininas 
falta de desejo sexual
“Esta continua a ser a queixa mais frequente das mulheres. Depois, quando se tenta explorar essa falta de desejo, vemos que as questões de autoestima, exigências profissionais e stresse estão no topo das causas que o podem potenciar. Ou seja, as mulheres não estarem satisfeitas com o seu corpo, com a sua imagem – porque há muita pressão para estarem sempre elegantes e bonitas –, vai fazer com que se sintam inibidas e impedir que tenham uma vida sexual gratificante, porque se não estamos bem connosco, não estamos bem com as pessoas com quem nos relacionamos.
Depois há as questões relacionadas com a insatisfação profissional, com o stresse, a rotina, o cansaço provocado pela sobrecarga de trabalho fora e dentro de casa… tudo isso vai desinteressá-las da sexualidade.
Não podemos também esquecer a medicação – como os antidepressivos e ansiolíticos que são bastante inibidores do desejo – e a própria pílula contracetiva, que nos libertou do medo de engravidar mas que em alguns casos leva à diminuição da libido.”

Top das queixas masculinas desempenho
“Eles procuram ajuda sobretudo porque acham que têm ejaculações muito rápidas, que não têm rigidez suficiente para dar prazer às suas parceiras. Muitos passaram por consultas de urologia, nas quais lhes dizem que está tudo bem, e vêm às de sexologia a pensar que não estão bem porque são influenciados pela pornografia, sem terem noção de que muitos daqueles filmes levam um dia inteiro a gravar, sobretudo os mais jovens, que partem para as relações sexuais cheios de expectativas e depois pensam ‘é só isto?’.
Não faz ideia da quantidade de homens que compra os mais diversos produtos para melhorar o desempenho sexual, sem saberem o que contêm, que efeitos realmente poderão ter, só porque viram um anúncio qualquer na net que prometia mundos e fundos. Há também quem recorra a operações plásticas para aumentar 1-2cm, e muitas correm mal…”

Expectativas fantasiosas
“Homens e mulheres têm a cabeça cheia de expectativas que não correspondem à realidade. Elas com os orgasmos múltiplos, eles com muitas ideias-feitas que têm origem na pornografia, mas também na educação que tiveram. Acham que têm de estar sempre prontos para o sexo, o que não é verdade, eles também sofrem flutuações na sua libido se têm problemas no trabalho, stresse, se estão cansados… Mas também há mulheres que acham o mesmo, que se tocarem num homem e ele não tiver logo um ereção há ali problema, umas acharão que ele não a acha atraente, outras pensarão que é gay. Apesar de haver muito mais informação em relação à nossa sexualidade, continua a haver muitas ideias erradas.”

Quantas vezes por semana?
“Não se pode dar uma resposta taxativa, cada caso é um caso. Há casais que se sentem bem a ter sexo 5-6 vezes por semana, outros uma vez, outros só uma vez por mês. A frequência sexual ideal é a que satisfaz ambos, se os dois se sentem bem com a periodicidade que têm isso é que interessa. Agora, se há um que não está satisfeito, aí começam os problemas e é melhor procurarem ajuda profissional, porque geralmente há resolução.”

Quando os
filhos chegam
“É um momento maravilhoso para a família, mas pode ser terrível para a intimidade do casal. Já fiz aconselhamento pré e pós-parto e há mulheres que desde o momento que sabem que estão grávidas até ao primeiro aniversário do bebé nunca mais têm sexo. Porque alguns homens não gostam de ter relações sexuais quando as mulheres estão grávidas mas também porque elas se afastam, sobretudo na altura da amamentação, em que existe, a nível hormonal, uma alteração do desejo e na capacidade de se lubrificarem e excitarem. Depois há toda a nova rotina com o bebé, os sonos trocados, o cansaço, e quando se estão a refazer do primeiro, engravida do segundo…”

Meu quarto, meu espaço
“A espontaneidade de um casal com filhos e de um sem filhos não é igual. Alguém que não tenha filhos pode fazer sexo em qualquer divisão da casa e a qualquer hora sem correr o risco de ser apanhado em flagrante. Isso já não acontece com quem tem filhos, mas agora há uma permissividade que no tempo dos nossos pais não existia. Não nos passava pela cabeça entrar no quarto dos nossos pais sem bater à porta e pedir autorização para entrar! Agora deixa-se os filhos dormir na cama do casal! Uma coisa é se estão indispostos, outra é se acontece por sistema. A educação para a privacidade é muito importante, tanto para os pais como para os filhos. Nada de entrarem no quarto uns dos outros sem bater à porta primeiro.”

As borboletas não duram para sempre
“Há mulheres e homens que partem para um casamento a pensar que vão fazer sexo todos os dias, como acontece quando namoram! Esqueça! À medida que os anos passam por uma relação é normal que a frequência sexual diminua. E isso não quer dizer que a relação seja menos satisfatória. Está mais que estudado cientificamente que a paixão sôfrega é uma coisa limitada no tempo, é uma altura em que as hormonas estão alteradas. Se for ao cinema e o seu companheiro de 15 anos lhe põe a mão na perna já não sente as borboletas pelo corpo todo, dá um prazer diferente. Mas há pessoas iludidas e que andam constantemente à procura disso!”

Encontros virtuais e reais
“As aplicações de encontros estão a mudar a forma como as pessoas se relacionam e a tornar os encontros fortuitos muito mais fáceis. Há muita gente que recorre as essas apps por ser um escape às suas vidas controladas, para se sentirem bem, e questões como a fidelidade estão a ser repensadas neste momento. Há quem não se importe que não haja exclusividade, desde que o outro não traga doenças para casa e use preservativo. O impacto que isto terá nos relacionamentos é que ainda não sabemos. E o sexo pode ser viciante, sobretudo para quem procura só a excitação inicial, que só terá se estiver sempre naquele registo.
As novas tecnologias trouxeram coisas ótimas, mas há casais que quase não se falam porque agarram-se ao telemóvel em vez de comunicarem um com o outro. Trouxeram também maior pressão ao desempenho, já houve homens que se queixaram de que mal despiam as boxers já elas estavam porta fora porque o tamanho não lhes agradou. As mulheres emanciparam-se e há homens que não estão preparados para isso.”

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Vasyl Dolmatov

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