Muita gente acha a História uma disciplina chata. Para provar o contrário, Maria João Lopo de Carvalho conta-nos, em ‘História de Portugal – de cor e salteada’ (Lua de Papel, E16,90) as aventuras dos nossos reis, rainhas, heróis e menos heróis de forma a pôr até mesmo o mais renitente a rir-se. Enfim, também há páginas literalmente negras… Agora que pais e filhos se preparam para mais um arranque escolar, aqui fica uma forma divertida de aprender.

1 – Antes deste livro, já tinha contado as aventurosas vidas da padeira de Aljubarrota e da Marquesa de Alorna. Porquê agora um livro de História geral e não outra personagem específica?

Este é um registo tolamente diferente: gosto de me aventurar para fora de pé. Gosto de correr riscos. A nossa História dá matéria para muitos calhamaços sejam eles chatos ou interessantes, mas eu resolvi fazer diferente: sentar-me a uma mesa de café e começar a desfiar histórias atrás de histórias como se estivesse simplesmente numa conversa de amigos; aquele tipo de conversa em que nos sentimos inspirados a rirmo-nos de nós mesmos, sem pretensões académicas, revendo heróis e vilões, glórias e derrotas, conquistas e cargas de tareia, ideias geniais e actos falhados. Para quem não me conhece de perto, talvez seja uma surpresa, mas certamente que esta converseta céptica, humorística, contestatária mas sem batotas históricas, não espante ninguém aqui em casa.

2 – Acha que a História, da maneira como é habitualmente contada, é chata? E no entanto, nós portugueses devemos ter a História mais aventurosa do mundo…

Para mim, no liceu, a História de Portugal era simplesmente a disciplina mais chata que se inventou e só servia para nos tramar. Não tenho uma única boa memória sobre as aulas de História. Foram precisos muitos anos para que eu enterrasse esse fantasma e descobrisse o surpreendente pano para mangas que dava o nosso passado, todo ele a abarrotar de malucos e de génios. Digo e repito, a arte de ensinar não é para todos.

3 – Este livro trouxe-lhe alguma surpresa pelo caminho? Algum episódio do nosso Portugal que a tivesse apanhado desprevenida?

Acho que a minha maior dificuldade foi apanhar a caricatura da coisa…Nunca me diverti tanto a escrever um livro, com excepção dos acontecimentos mais tenebrosos, em que não havia nenhuma forma leve ou risível de serem tratados.

4 – Qual foi o capítulo mais difícil de escrever? E o mais divertido?

O arranque é sempre difícil: iberos, celtas, visigodos, lusitanos, tudo se misturava na minha pagina de word; o mais divertido foi sem dúvida o capítulo intitulado “a longa noite do fascismo” : arrumei o assunto com uma página preta sem uma única palavra. Há casos em que menos é mais.

5 – Confesse lá: qual é o seu rei preferido?

O problema era esse: papaguear reis de cor e salteado, decorar dinastias e cognomes como quem aprende a contar pelos dedos, torna tudo num caldo pouco saboroso. Gosto muito do D. Pedro do Brasil, o “beto em negação”, o liberal dos liberais. Mas é claro que entre as muito poucas rainhas, D. Maria II era uma rainha e peras. Havia também grandes cabras na História, como a mãe do Afonso Henriques, a Matilde de Borgonha, a Leonor Telles, a própria Carlota Joaquina, essas, sim, uma inspiração!

6 – Quem acha que foi a mulher mais importante da nossa História?

Excluindo a marquesa de Alorna por quem tenho um fraquinho… e excluindo as muitas, da minha geração e seguintes, a darem cartas para a História, talvez escolha a Carlota Joaquina. Embora não morra de amores por ela, foi assaz importante, pelo menos nos lençóis (risos). Gosto da Carolina Beatriz Ângelo, gosto da Manuela Eanes também… e por bons motivos. A verdade é que há muitas mulheres portuguesas com M maiúsculo.

7 – Depois de tudo isto, o que acha que nos descreve como portugueses? Que tipo de povo somos?

Ui!!! Esta é difícil de responder. Não gosto nada de generalizações…somos todos diferentes. Os aventureiros partiram nas caravelas e nós somos descendentes dos que ficaram, não é o que se diz? Eu prefiro dizer que somos resilientes, não gostamos de andar à tareia e que temos o fado, o mar e a saudade inscritos nos genes. Mas, claro, tudo isto vem temperado por muita inveja, intriga e mau feitio.

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