Foto Unsplash/Annie Spratt

O livro tornou-se um clássico assim que foi publicado: ‘Todos devemos ser feministas’ é um desafio lançado a homens e mulheres pela nigeriana Chimamanda Adichie, já nessa altura um modelo do ‘novo feminismo’. Recentemente, por ocasião do nascimento da filha de uma amiga, Adichie reuniu no Facebook uma espécie de lista de ‘mandamentos’ para pais que gostavam de educar um filho ou filha feminista.

Entre os 25 mandamentos estão coisas como “ensina-lhe o perigo de ‘feminismo light’: ou se é feminista ou não se é. Não se é um bocadinho feminista’, ‘Ensina-a a ler e a amar os livros’, ‘Ensina-a a questionar a linguagem, que é o repositório dos nossos preconceitos e crenças. Mas para fazer isso, vais ter tu própria de questionar a tua linguagem.”

Outras sugestões úteis para a mãe da nova bebé foram: “Ensina-a a rejeitar a ideia de que tem de agradar a toda a gente”, “torna a diferença uma ideia normal”, “fala-lhe de opressão, mas cuidado para não transformar todos os oprimidos em santos”, “ensina-a a questionar o uso da biologia para explicar diferenças culturais.” Vale a pena ler todo o ‘manifesto’, até como um ponto de partida para quem queira educar os filhos para um mundo mais justo.  

Educar para a igualdade

‘Duas mulheres ao comando da GNR em Moncorvo causam estranheza na população’: foi esta notícia que inspirou Joana Frias Costa a pensar que tinha mesmo de fazer alguma coisa. “Achei aquilo tão absurdo!”, conta. “Duas mulheres causam estranheza por serem GNR? E é este país que queremos deixar aos nossos filhos?” Daí partiu para criar a Inspiring Girls, uma associação sem fins lucrativos que luta para mudar estereótipos e incentivar as raparigas a serem tudo o que quiserem, levando às escolas de todo o país mulheres de várias áreas que falam do seu trabalho. Mas a família, diz Joana, tem um papel fundamental nesta mudança.

Como é que pomos isto em prática no dia a dia? Como é que eu educo o meu filho a respeitar os outros? Há mesmo muito a fazer. Em primeiro lugar, o exemplo é fundamental. “Não conseguimos educar para a igualdade se é sempre a mãe a levar os miúdos ao médico e a fazer tudo em casa.” Com uma filha de 4 anos e um filho de 2, Joana ainda está a iniciar o desafio da parentalidade, mas já se confrontou com situações inadmissíveis. “Por exemplo: o meu filho foi duas vezes seguidas ao médico com o pai, e quando eu marquei a terceira consulta a recepcionista chamou-me a atenção: “Já é a terceira vez que a mãe não vem…” E nunca ouviríamos isto ao contrário: se uma criança fosse duas vezes ao médico com a mãe, nunca ligariam ao pai a dizer ‘Olhe, veja lá…’ No trabalho, quando é preciso faltar e é o pai que fica com a criança, toda a gente pergunta: ‘Então e a mãe?’ Mas ninguém pergunta à mãe que falta para ficar com o filho: ‘Então a criança não tem pai?’”

Azul e cor de rosa

Quando se tenta educar para a igualdade, nem os brinquedos são inocentes, como Joana Costa comprovou. “Quando tive um rapaz, disse à família: ‘A irmã já tem um Nenuco, quem pode oferecer um ao irmão?’ e toda a gente ficou chocada. Ora eu quero que ele no futuro seja um bom pai. Se a irmã tem uma bola e uma boneca, porque é que ele não há-de ter as mesmas coisas?”

A cor preferida da filha é o azul, mas já começou a vir para casa a dizer ‘azul é cor de menino’. “Isto é o que ouvem na escola e noutros contextos fora da família, é um caminho que nós todos temos que percorrer.” Aceitamos já que as raparigas joguem futebol, mas quantos pais portugueses põem os filhos no ballet? “Tal qual. E por exemplo, no infantário dos meus filhos eu nunca lá vi um homem, e quantos homens gostam de crianças? Mas nunca imaginamos um rapaz a chegar a casa e dizer ‘quero ser educador’.”

Os estereótipos afetam quer os rapazes quer as raparigas. No seu futuro profissional, as mulheres são mais mal pagas e sub-representadas, mas na área emocional os rapazes podem sair muito lesionados. “Esta pressão para não poderem explorar as suas emoções é dramática”, nota Joana Costa. “Por isso é que às vezes há tanta violência nos adolescentes: não sabem modular as suas emoções, dar nomes às coisas, saber o que estão a sentir, trabalhar a sua raiva, tudo isto é complexo. E a pressão dos pares é muito dura. Algumas famílias já estão a esforçar-se neste sentido, mas nem todas o fazem. A masculinidade tóxica vai afetar tanto rapazes como raparigas e criar rapazes feministas passa muito por esta questão de educar para as emoções, verbalizar os sentimentos, valorizar a inteligência emocional, ser gentil para todos, conhecer os seus limites.”

Com o esforço de tantas famílias, as coisas vão começar a mudar? “Acho que sim”, defende Joana Costa. “O último relatório da ONU sobre o tempo que levaríamos a atingir a igualdade é assustador – quase 300 anos – por isso é urgente debater estes temas e forçar este número indigno a baixar. Para o conseguir, é fundamental o esforçode todos, homens e mulheres, rapazes e raparigas.”

Contra os estereótipos

Problema: continuamos a remar contra a maré. “O que nós continuamos a ver, inclusivamente na televisão, são exemplos da ideia de que tudo se resolve com confrontos, pancada, violência.”

No caso das raparigas, ser feminista também passa por encorajá-las a sonhar fora da caixa cultural. “O que nós reparámos é que para as raparigas há muita falta de referências em muitas áreas profissionais”, conta Joana Costa. “Por exemplo, saberem que já há submarinistas mulheres, comentadoras de futebol… Há raparigas que gostariam de ter estas profissões mas sempre acharam que eram ‘de homens’…”

O foco da Inspiring Girls é portanto quebrar estereótipos sexistas e contribuir para aumentar a ambição profissional das jovens raparigas, colocando-as em contacto com mulheres que funcionam como exemplos daquilo que elas podem ser, e que lhes dão uma diversidade de percursos pessoais e profissionais. “Hoje, as profissões mais bem pagas continuam sub-representadas por mulheres. Tecnologias, informáticas, engenharias, só para dar alguns exemplos, são áreas abertas às mulheres mas as raparigas não estão nada interessadas, na maioria das vezes simplesmente porque nunca pensaram sobre isso nem têm modelos familiares nessas áreas.”

Também é fundamental para os rapazes perceberem como os estereótipos funcionam: “Numa das nossas sessões em escolas, uma nossa voluntária contou que tinha saído de um trabalho porque os homens ganhavam mais que ela e ela achava isso inaceitável”, lembra Joana. “E um dos rapazes comentou que concordava com a diferença salarial, porque as mulheres eram menos produtivas devido ao período e às licenças de maternidade. As raparigas explicaram-lhe rapidamente que não eram menos por terem menstruação. Portanto, é importante discutir estes assuntos com eles, e é superimportante os rapazes verem CEOs femininas.” Pois – para depois não acharem estranho ver mulheres GNR em Moncorvo… (risos)

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