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Respondemos à pergunta com outra: o que é para si o sucesso? Só depois de responder conseguirá começar a traçar a melhor rota para lá chegar. Aviso à navegação: dá trabalho… mas compensa!

Em primeiro lugar, o que é uma pessoa bem-sucedida? Há quem pense num bom emprego, casa e carro. Há quem queira ser famoso. E há quem não pense em nada disto…
“Hoje em dia, recebemos por todo o lado a mensagem de que o ser humano bem-sucedido é rico, bem-parecido e prestigiado”, nota o psicólogo Vítor Rodrigues. “É valorizado por roubar e corromper. Basicamente, hoje um ser humano bem-sucedido é um psicopata bem-sucedido.” Ui… Começamos bem… Então não posso ser bem-sucedida sem ser psicopata?

“Educar uma criança para o sucesso depende daquilo que achamos que é o sucesso e daquilo que achamos que é uma criança”, explica Vítor. “O que é que distingue um ser humano? A consciência. Ele sabe que existe e que é ele. E isto implica arbítrio: posso escolher existir para um lado ou existir para o outro, ter esta ou aquela experiência.” Mas a sociedade não valoriza isso…
“Pois não, porque aquilo que interessa à sociedade de consumo é que sejamos carneiros previsíveis e controlados. O que a sociedade valoriza é o processamento de informação a que chamamos inteligência, e onde não entra a consciência. Em grande medida, o nosso mundo está controlado pelos grandes grupos económicos. Por isso não estamos interessados nas artes, que promovem consciência, beleza e bem-estar. Estamos interessados no pensamento normalizado.” Por isso é que os adolescentes andam desorientados? “Claro. Estamos a transmitir-lhes que a vida não tem finalidade nenhuma, e que há tanto desemprego e tanta instabilidade que não vale a pena lutar por nada.” O ideal deles é serem parecidos com as influencers do momento? “Alguns sim. Mas há muitas pessoas em contracorrente que lutam por um ensino diferente, mais criativo, mais humano, e que estão a mostrar às crianças que é possível serem felizes com muito pouco. E quando se pergunta aos alunos o que é que querem, muitos não querem ser influencers: querem que os ensinem a ser felizes, a gerirem emoções e a conseguirem bons relacionamentos, e também a tornarem-se criativos e respeitados.”

Um gato e um pôr do sol
Mas como é que se ensina a felicidade a uma criança soterrada em imagens violentas? “É simples: pego na criança e deixo-a ver desenhos animados daqueles destruidores. Depois levo-a para o campo, deixo-a ver o pôr do sol e ponho-lhe um gatinho manso ao colo.
Ela tirará as suas conclusões sobre a atividade que prefere.” O problema é que os pais não querem filhos com bom coração, querem filhos com boas notas. Ainda somos pais demasiado críticos? “Muito. Sem dúvida com boas intenções.”

Mas os pais críticos não criam crianças combativas? “Sem dúvida. Mas é isso que eu quero para a sociedade e para os meus filhos, criar bestas de combate? Pelo contrário, a investigação mostra que as crianças que receberam amor e carinho dão adultos mais saudáveis mentalmente e mais capazes de amar. Mas nenhum político valoriza o amor.”

Ok, então vou criar uma criança para o amor e a consciência. Mas se a tiver numa escola normalíssima? “Tenha tempo e disponibilidade para ela. A grande maioria dos psicopatas nunca foi ‘vista’ pelos pais. Isso tem a ver com o conceito de identidade. Quando construímos uma identidade, mesmo torta, temos tendência a achar que aquilo é o que nós somos. Na verdade, nós somos muito mais expandíveis e não-fixos do que pensamos. Temos uma infinita capacidade para nos tornarmos felizes.”

Então se eu quiser ensinar o meu filho a ser uma pessoa lúcida e consciente, capaz de ser feliz, capaz de apreciar a cultura e os afetos, capaz de ser um bom cientista? “Está a ser horrendamente subversiva. O bom ensino é das coisas mais subversivas. Mas há um monte de alternativas educativas por aí, basta que as pessoas se informem.”

Como se muda o mundo
Ponto da situação: quero uma criança que seja capaz de chegar onde ela própria quiser, e que tome a responsabilidade da sua vida. Não quero um autómato agarrado ao smartphone.
De repente, lembro-me de uma frase do Steve Jobs: “As pessoas suficientemente loucas para pensar que podem mudar o mundo são aquelas que o mudam.” Como é que educo um filho capaz de pensar por si próprio e mudar o mundo?

Vou procurar mais sobre isto e encontro uma citação da sua famosa palestra, explicando como chegou onde chegou: “A maioria das pessoas nunca pede ajuda. Nunca conheci ninguém que não me ajudasse quando eu pedi. Atirem-se, tentem e vão à luta. Nunca conheci ninguém que me desligasse o telefone, mesmo quando eu tinha 12 anos.
Isto é o que separa as pessoas que fazem coisas e as que se limitam a sonhá-las. Temos de atuar, sem medo do que possa correr mal. Se temos medo de falhar, nunca fazemos nada na vida.” É possível ensinar o meu filho a ir à luta e fazer qualquer coisa da vida, mantendo a criatividade, a consciência e a originalidade? Decido ir diretamente às pessoas que escolhem pessoas: os headhunters.
Então expliquem-me lá: o que é que procuram num adulto? E como se cria uma criança para lá chegar? Pode parecer uma versão radicalmente diferente da de Vítor Rodrigues: afinal, estas são as pessoas que trabalham em parceria com as companhias capitalistas.
Surpresa afinal, querem mais ou menos as mesmas coisas, e a principal delas continua a ser um ensino mais ‘pro-ativo’. Segundo os headhunters e especialistas empresariais, as empresas são cada vez mais cirúrgicas na seleção de um candidato, e já perceberam que um dos fatores críticos são as chamadas ‘soft skills’, necessárias para que o profissional possa integrar-se sem que exista um choque que muitas vezes dita o fim da relação com a empresa. Estas competências são transversais a qualquer função e é importante que os pais consigam desenvolver algumas delas nos seus filhos. Dentro destas competências, as mais valorizadas pelas empresas são: trabalho em equipa, capacidade de adaptação e aprendizagem, escuta ativa, comunicação, empatia, automotivação e resiliência.

É essencial ensinar a um filho como lidar com a frustração desde cedo, porque é o mundo real dos ‘nãos’ que a espera. Outras capacidades essenciais são a automotivação e a capacidade de trabalho.Por exemplo, 39 por cento dos jovens entrevistados pela Univ. de San Diego dão muita importância ao dinheiro e à liderança, mas não estão dispostos a trabalhar no duro para lá chegar… Assim pouca coisa se consegue.

Como se treina isto desde pequeninos? A participarem nas tarefas domésticas em vez de terem a papinha toda literalmente feita, por exemplo. Estamos muito habituados a ser ‘escravos’ das crianças sem pensarmos que elas também fazem parte da família. E fazer parte inclui direitos mastambém deveres.

Outra competência que na maioria das vezes fica para trás: a solidariedade. Este mundo é uma selva? Se nós deixarmos sim. Mas cada pai ou mãe deve fazer a sua parte para não deixar a criança moralmente abandonada.

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