Magda Ferro

Idade: 30 anos.
Antes: Assessora de imprensa e produção.
Agora: Decoradora e animadora.

ERA UMA VEZ UMA FADA
Quantas pessoas la rgariam o trabalho para ser em ‘fadas’ em part-time? A profissão não vem nos classificados, mas Magda Ferro não hesitou em trocar o emprego certo por uma carreira com … magia .

Sempre foi versátil.
Relações públicas, empregada de bar, porteira… até aos 26 anos fez de tudo no mundo nocturno. Quando substituiu a noite pelo dia, foi trabalhar em produção. Experimentou a moda, o teatro e a música e nos últimos três anos dedicou-se ao cinema.
Na produtora Filmes do Tejo a progressão foi rápida. ‘Comecei por fazer um documentário da Inês de Medeiros, mas, como a empresa era pequena, também fazia assessoria de imprensa. Gostava imenso do que fazia e tive oportunidade de crescer profissionalmente’. O reverso da medalha era a falta de tempo: ‘Quem trabalha em cinema não tem vida própria, o ritmo é alucinante. Comecei a sentir que faltava qualquer coisa, e das duas uma, ou apostava tudo ali ou mudava completamente de vida.’ Mudou.

Trinchas e fantasia
Talvez não tenha sido por acaso que os sete anos dedicados à produção tenham estado sempre ligados a actividades artísticas. ‘Passei muito tempo a ajudar as pessoas a concretizarem os seus sonhos criativos, mas, apesar de gostar do que fazia, o resultado final nunca era meu, era a criação de outra pessoa.’ Na altura, os hóbis pós-laborais já eram um escape criativo: ‘Pintar paredes e renovar casas de amigos era comigo! Era capaz de sair do escritório tardíssimo e ir para casa de alguém pintar paredes ou desenhar flores e riscas no quarto de uma amiga que ia ter um bebé.’
Um curso de Decoração e outro em Artes Gráficas permitiram-lhe desenvolver capacidades e contactos, mas ainda estava longe de pensar em seguir uma carreira ‘a solo’. ‘Fazer essa escolha implicava abandonar uma estabilidade que para mim era fundamental. Estive um ano a ponderar, não dormia e dizia para mim própria que estava doida. Por outro lado, não tinha empréstimos, nem filhos e na minha casa havia espaço para um ateliê.’
Saiu há três anos do emprego na produtora. ‘Todos os dias me passa pela cabeça que pode não correr bem.’ Mas tem corrido, e o universo reservou-lhe outras surpresas, como a descoberta da vocação de ‘fada’. ‘Uma amiga tinha um grupo de teatro de marionetas e precisava de uma contadora de histórias e convidou-me’, recorda.
Agora, conjuga as trinchas e os pincéis com as asas e a varinha nos espectáculos que as Fadas e Fios dão nas escolas. ‘Somos nós que fazemos tudo, desde as roupas aos cenário, passando pelas histórias.’ O ritmo de vida abrandou e os dias têm outro brilho. ‘Posso gerir o meu tempo e até tive disponibilidade para encomendar uma criança’, diz, apontando para a barriga de sete meses.

Inês Sampayo

Idade: 40 anos.
Antes: Empregada do sector bancário.
Agora: Pintora.

PALETAS DE SONHOS
Da banca para as telas, Inês Sampayo arriscou mudar de vida e pintar os dias com as suas próprias cores.
Não custa acreditar que fosse viciada em trabalho. Oito anos depois de ter abandonado o velho emprego no Citibank e partido para Espanha, o ritmo acelerado continua bem visível. Inês Sampayo não trabalhava 12 horas por dia por obrigação: ‘Adorava o que fazia. Entrava cedíssimo, saía tardíssimo, fazia tudo a 300%.’ A falta de horários e a adrenalina não a demoviam. ‘Sou eléctrica por natureza, só percebi que tinha de alterar algo quando deixei de ter tempo para os filhos. Não assistia à evolução deles, e às tantas era alguém que me dizia: ‘Olha, ele já tem um dente’.’
A necessidade de mudar conjugou-se com a vontade de pintar; o resto foi coragem para começar de novo. ‘O meu marido teve de ir trabalhar para Madrid e não hesitei. Já tinha 33 anos e sabia que se queria dedicar-me à pintura tinha de ser a tempo inteiro, e se não fosse na altura não seria nunca.’
Resultado: abandonou a carreira na banca e mergulhou de cabeça nos baldes de tinta.

A receita do sucesso
‘A pintura está-me no sangue. Lembro-me de, em miúda, achar o máximo ver o meu avô fazer retratos, como conseguia com um lápis dar vida às pessoas no papel. Foi ele que me deu as primeiras caixas de aguarelas’, recorda.
Mas ainda não era tempo de se render à paleta e aos pincéis. Inês Sampayo tinha bicho-carpinteiro, vontade de experimentar outras coisas. ‘Quis começar a trabalhar e acabei por me inscrever em Marketing e Publicidade no IADE, à noite.’ Os empregos sucederam-se: de secretária a assistente de professores, passando por hospedeira de eventos, fez de tudo até acabar o curso. Fixou-se na banca, onde permaneceria nove anos.
O gosto pela pintura tinha ficado de parte, aguardando melhores dias para despontar, mas a insatisfação levou-a a inscrever-se nas aulas de Desenho da Sociedade Nacional de Belas-Artes. ‘Tinha de ir a casa, dar banho e jantar aos filhos e voltar a sair para as aulas, mas valia a pena’, assegura.
A opção cedo se tornou mais do que um passatempo. ‘Sou perfeccionista, vivo com a obsessão de fazer bem as coisas. Comecei ingenuamente e sem técnica nenhuma. Julgava que, conhecendo gente no meio, iria ter ajuda, que diriam ‘venha cá ao meu estúdio ver como eu pinto’. Qual quê! Senti as portas totalmente fechadas’, desabafa Inês Sampayo.
No país vizinho, garante, as coisas são bem diferentes: ‘Todos os bons pintores têm estúdio aberto com discípulos.’ E foi lá que se dedicou de corpo e alma às tintas. ‘Era a primeira a entrar e a última a sair. Aprendi tudo sofregamente.’

A parte dura?
‘Sem dúvida deixar de ter um emprego. Trabalhava desde os 17 anos e custou-me estar dependente. Mas nos últimos três anos tenho tido imensas encomendas de retratos. Comecei com os amigos, e tem sido uma bola de neve. Sei que tenho algum talento, mas o meu maior mérito foi ter tirado partido da oportunidade que tive. Agora que regressámos a Portugal, estou desejosa de montar o estúdio e começar a trabalhar’, diz, com um brilho nos olhos.

Manuela Carabina

Idade: 38 anos.
Antes: Relações públicas.
Agora: Proprietária de uma loja de gelados.

Foi tudo por causa do maracujá. Quando convidou os amigos para jantar naquela noite, Manuela Carabina não esperava que o gelado caseiro lhe rendesse tantos elogios, mas, sobretudo, estava longe de imaginar que, um ano e meio depois, fosse ter aquele mesmo sabor exposto numa vitrina e à venda.
Acabados de chegar de Itália, a ‘Meca dos Gelados’, os amigos convenceram-na de que o seu talento tinha um potencial maior do que o tamanho do congelador lá de casa. Era o incentivo que faltava. Um mês depois estava em Itália a aprender tudo sobre o fabrico artesanal de gelados.

ARTESÃ DE SABORES
Sonhava ser pintora, mas acabou por se render à alquimia dos sabores. Depois de 14 anos a trabalhar na área da comunicação empresarial, Manuela Carabina largou tudo para abrir uma loja de gelados. ‘Não sabia italiano nem estava à espera de passar 80 por cento do tempo a fazer contas!’, confessa. ‘As pessoas não imaginam a complexidade envolvida no fabrico: a química dos alimentos, os cálculos das percentagens de glucose, o tempo de duração em vitrina.’ A sua figura delgada pode induzir em erro.
Nas suas próprias palavras: ‘Ser empreendedora em Portugal exige grande resistência e determinação. Abandonar um emprego estável para ir para o estrangeiro é a parte mais fácil desta equação. O pior vem depois, os meses a elaborar planos de negócios, as noites a fazer contas, as burocracias, os imprevistos.’

Campos de morangos
Um ano e meio foi o tempo que levou até abrir a sua loja na Rua da Prata, em Lisboa. Hoje passa os dias a criar sabores ‘Uso produtos frescos, fruta verdadeira, sem corantes nem conservantes’ e a gerir o negócio: ‘Não dependo de ninguém’, diz com satisfação. ‘O que eu queria era seguir Belas-Artes, mas acabei na área da comunicação por ter mais saídas profissionais.’
No início dos anos 90, a construção das auto-estradas e o aparecimento da Via Verde faziam do trabalho no Departamento de Comunicação da Brisa um emprego aliciante. ‘Tinha 23 anos e oportunidade de crescer. Mas, passados alguns anos, achei que estava a estagnar. Não me queria acomodar e fui trabalhar noutra empresa, mas percebi que o que precisava era de mudar de actividade.’

Ponderados os riscos
‘Tinha 38 anos e não seria nada fácil voltar a arranjar emprego’ , avançou. ‘Arrisquei, mas qualquer empreendedor tem uma dose de loucura, e se o meu rendimento é variável, tenho outras compensações.’ Como poder criar livremente os sabores que crescem no seu ‘campo de morangos’ a loja Fragoleto, na Baixa Lisboeta.

Margarida Fonseca Santos

Idade: 45 anos.
Antes: Professora de Formação Musical.
Depois: Escritora e hipnoterapeuta.

Às vezes, as mudanças vêm de mansinho numa sequência de pequenas decisões, cada uma preparando a seguinte, como um puzzle que é montado sem se ter ideia do desenho final. Foi o que aconteceu a Margarida Fonseca Santos, que depois de 20 anos a ensinar Música acabou a escrever livros infantis.
A sua paixão pela música começou com um piano de cartão. ‘Era inexplicável. Nem sequer tinha pessoas ligadas à música na família. Aprendi a tocar num cartão com teclas desenhadas’, recorda. O piano foi o passaporte para o conservatório e acabou a dar aulas de Formação Musical: ‘Os miúdos acham o solfejo chato e era aliciante torná-lo divertido.’ O sucesso foi tal que rapidamente foi solicitada para ensinar

ESCREVER PARA CONTAR
O que faz uma professora de Música deixar as salas de aula, onde passou mais de 20 anos, para se dedicar à escrita? A resposta há-de estar algures entre as notas de música e as letras do alfabeto que formam o universo de Margarida Fonseca Santos.

Outros professores.
‘Comecei a dar uma cadeira, depois duas, e de repente estava completamente ligada às pedagogias.’ Pelo caminho ficou uma carreira na Engenharia ‘Nem cheguei a concluir o 1.º ano no Técnico’, abandonada em favor do conservatório. ‘Os meus pais não acharam graça, mas eu estava motivada, ainda nem tinha terminado o curso e já estava a dar aulas.’

Das pautas às letras
Nada parecia indiciar a mudança de rumo num percurso feito de muito ritmo e poucas pausas. Não fossem os filhos, hoje com 18 e 16 anos, talvez não tivesse começado a escrever. Dos livros infantis lidos ao adormecer aos enredos inventados foi um passo. ‘Quando decidi passá-los ao papel, descobri o prazer da escrita. Vinha das aulas e sentava-me a escrever histórias para lhes contar à noite.’
Por mão amiga, as narrativas acabaram nas mãos dos alunos de uma escola do 1.º ciclo. ‘Passadas umas semanas, ligaram-me a dizer que tinha de lá ir. Tinham feito peças de teatro, havia gafanhotos e bruxas por tudo quanto era sítio… As histórias estavam pela escola toda.’ O passo seguinte era óbvio: publicar.
A partir daí foi uma bola de neve. Em 1996 foi galardoada com o Prémio Revelação da APE/IPLB e o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca e começou a orientar workshops de escrita criativa com crianças e a escrever para teatro.
Entretanto, um problema nas costas ‘apresentou-a’ à hipnose clínica, uma terapia que usou para resolver o seu problema e que aprendeu para ajudar outros. ‘Já era tanta a actividade que tinha de abdicar de alguma coisa.’
Acabou por ser a música. ‘Tudo se conjugou naturalmente: ter ensinado crianças tantos anos ajudou-me a escrever para elas, e, hoje, a linguagem dos contos ajuda-me nas consultas de Hipnoterapia, porque tem uma linguagem simbólica que é útil nas sessões.’
O mais complicado por estes dias é mesmo definir-se. Professora? Escritora? Terapeuta? ‘Ainda não resolvi isso na minha cabeça. Hoje em dia, se me perguntam o que faço, ou bem que dou uma resposta lacónica ou fico meia-hora a explicar! ‘

Por Bárbara Bettencourt

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