
Quem não se recorda de Sinhozinho Malta, a magnífica interpretação de Lima Duarte na novela ‘Roque Santeiro’ que há vários anos foi exibida na televisão Portuguesa? E de Porcina, a viúva alegre do desaparecido e supostamente milagreiro Roque? Esta telenovela deixou, sem dúvida, um legado de personagens pitorescas que ainda povoam o nosso imaginário, mas também deixou uma herança de expressões populares que, por vezes, ainda utilizamos. Uma delas foi a das ‘teúdas e manteúdas’, utilizada para descrever as amantes de alguns dos varões da vila de Asa Branca.
Ao contrário do que se possa pensar, ‘teúdas e manteúdas’ não é uma expressão brasileira, nem tão-pouco foi inventada pelos criadores desta história. Trata-se, na verdade, de uma antiga expressão portuguesa entretanto caída em desuso, e que, como muitas outras, foi exportada para o outro lado do Atlântico, mantendo o seu sentido original e, mais tarde, reexportada para Portugal por via da cultura popular.
A figura da amante, em particular da mulher mantida por um homem já casado, não é que esteja extinta por completo, mas já não é uma realidade quotidiana nem é actualmente tão recriminada como foi noutros tempos. De alguma forma, manter uma amante era uma forma do homem ter, por um lado, a estabilidade do lar e de uma família e, por outro, a excitação de uma mulher que, muitas vezes, era mais nova e com quem se podia satisfazer sexualmente sem grandes complexos.
Esta forma dupla de lidar com as mulheres é típica das culturas judaico-cristãs e tem mesmo um nome: Complexo da Madonna-Prostituta, cuja primeira metade do nome nada tem que ver com a famosa cantora, mas sim com Nossa Senhora, a mesma que engravidou e deu à luz sem ter tido relações sexuais… Pretende esta expressão caracterizar esse modo tradicionalmente cristão de olhar para a mulher como respeitável dona de casa e mãe de filhos ou como mulher vulgar, disposta a satisfazer todas as fantasias do homem na cama. De alguma forma, as mulheres teriam que optar entre assumirem um ou outro papel, nunca os dois!
Este complexo não tornou a vida fácil às mulheres, uma vez que as reduziu a um de dois estereótipos sem permitir fuga fácil dos mesmos. Uma mulher casada deveria servir o seu marido, também na cama, mas de forma conservadora (o sexo oral, por exemplo, não era bem visto porque, afinal, a mulher teria que utilizar a mesma boca com que beijava os filhos…) e sem prazer, enquanto a mulher ‘fácil’ dificilmente deixaria de ser apontada na rua pelo seu facilitismo sexual junto dos homens.
A sociedade machista que a telenovela ‘Roque Santeiro’ de um modo tão característico retratou não está extinta, mas muita coisa já mudou desde o tempo das teúdas e manteúdas. As mulheres já têm maior liberdade para, dentro de alguns limites considerados razoáveis, expressar a sua sexualidade. Porém, cabe-lhes ainda a elas parte importante da luta diária para ir ultrapassando os tais limites, na cama como na sociedade, e muito ainda está por fazer. Haverá algum dia uma vitória para esta batalha silenciosa?