Quando começa a cheirar a Carnaval, lembro-me sempre do tio Duarte. Lá em casa ninguém podia falar nele. A minha mãe tinha esse método asséptico e efi caz de matar quem a aborrecia. Não se pronunciava o nome e pronto. Há muitos anos que não vejo o tio Duarte, que sempre foi uma paz de alma. Mas no Carnaval lembro-me sempre dele.
– O meu irmão Duarte morreu.
Ainda oiço a minha mãe a anunciá-lo, depois de um sábado de Carnaval, exactamente no mesmo tom
com que em tempos anunciara
– A prima Henriqueta morreu
ou
– A vizinha Idalina morreu.
Embora miúdos, já distinguíamos que, para a minha mãe, havia mortos de primeira (com direito a fl ores nas jarras diante do retrato) e mortos de segunda (com direito apenas ao silêncio e a olímpicos olhares de desprezo se, por um acaso, se tropeçasse neles no meio da rua). A tia Vera, por exemplo. Depois de muitos anos de ‘morta’, começámos a poder nomeá-la à vontade a partir do momento em que a minha mãe viu o seu retrato na necrologia do jornal.
– Coitada, nem era má pessoa…
– murmurou.
Estando efectivamente morta, a tia Vera tinha ressuscitado para a minha mãe. E não havia gente que a minha mãe mais amasse do que os mortos que só ressuscitavam porque ela deixava. Mas naquele distante sábado de Carnaval, as coisas começaram logo a correr mal, quando o tio Duarte se atrasou a chegar ao assalto. Os ‘assaltos de Carnaval’ em casa de amigos, conhecidos, conhecidos-de-amigos-ou-nem-isso eram a única diversão da época.
As portas das casas ficavam abertas pela madrugada fora e entrava quem quisesse. Mas é claro que tinha de haver alguém a ter olho no pessoal, e esse era o trabalho do tio Duarte. Animava os mascarados, ordenava as pessoas em fi la como num comboio, e lá iam percorrendo as divisões da casa, bamboleando-se ao ritmo das marchas brasileiras ‘o que se leva desta vida/
é o que se come, o que se bebe/
e o que se brinca, ai,ai…’
Mas naquele sábado de Carnaval o tio Duarte não só chegara atrasado como levava a Aida a tiracolo.
‘Não havia gente que a minha mãe mais amasse do que os mortos que só ressuscitavam porque ela deixava.’
Crime sem perdão: com a falta de homens que já então havia, todas as casas que abriam as suas portas para um assalto tinham por dever garantir que nenhuma menina de boas famílias (cheias de dinheiro e de pêlos na cara) ficaria sem par.
Atrelado à namorada, o tio Duarte era uma baixa de peso. Mas o pior veio no fi m da festa. Com os vapores do álcool, os ritmos brasileiros, as voltinhas pelas salas, o tio Duarte baralhou-se e, em vez de sair com a Aida, saiu com a Vera, que estava prometida ao primo Ricardo, emigrado em França.
Nunca mais soubemos dele até ao dia em que recebemos um cartão a anunciar o casamento. Foi nesse dia que ele morreu para a minha mãe. E a tia Vera também. Só que essa teve a sorte de morrer mesmo, o que equivalia a ressuscitar e a ganhar direito ao nome. Acho que há dias vi o tio Duarte a sair de um café. Velho e a arrastar os pés, mas sobrevivente da minha mãe e da tia Vera, e quase jurava que o tinha ouvido cantar ‘o que se leva desta vida, é o que se come, é o que se bebe, é o que se brinca, ai,ai!’
Ai, ai.