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Yasemin Sumer

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA de abril de 2018

Numa manhã de fevereiro, alguns bairros de Lisboa acordaram com uns cartazes colados pela rua. A mensagem ia direta ao assunto, desde o título: ‘P### do bairro’ até à ameaça: “Esta rapariga tal e tal destruiu a minha vida. Teve um caso com o meu marido durante meses, sabendo que ele era casado, chegando até a engravidar. Mas Deus castigou-a e ela perdeu o bebé. Menina do papá que não passa de uma grande p%%%.”
A ameaça foi rapidamente retirada mas o caso ‘viralizou’ nas redes sociais e levantou uma pergunta: Por que é que as mulheres ainda fazem a vida negra às outras mulheres, em tantos contextos e de tantas maneiras? Afinal, não devíamos ser as nossas maiores apoiantes? A pergunta foi posta pela ACTIVA a algumas mulheres e a resposta veio rápida: todas elas tinham casos para contar daquilo a que já se chama ‘bullying feminino’, principalmente no local de trabalho.

cada uma por si


“Há uns anos, eu era directora de departamento de uma grande empresa familiar”, conta Luísa M. Um dia, numa reunião, aconteceu a situação básica: pôs em causa a autoridade da filha do patrão. Foi o princípio da queda. “Fui ostracizada de todas as maneiras, num ambiente só de mulheres. O meu gabinete foi extinto e passei para a alçada de outra pessoa porque, disseram, não tinha capacidade para fazer o meu trabalho.” Aceitou sem protestar. “Sentaram-me no meio da sala e como não faziam ideia de como nada funcionava pediram-me indicações: recusei. Se a Administração me tinha dito que trabalhava mal, que sentido fazia pedirem-me indicações?”
Esteve três anos a fazer o que lhe mandavam, sem falar com ninguém. “As outras estavam proibidas de me dirigir a palavra. Mais tarde, puseram a minha mesa de costas para a chefe e ela controlava-me todos os movimentos. Não contavam comigo para nada, nem bom dia me davam, e comecei a ter ataques de pânico.”Acabou por pedir a demissão, mas tirou algumas conclusões da experiência: “Já devíamos ter ultrapassado estas inseguranças e esta forma infantil e primária de lidar com o que nos incomoda. Elas faziam aquilo porque tinham medo de perder os seus postos de trabalho. Somos todas muito feministas, mas depois quando é preciso defendermo-nos umas às outras, acobardamo-nos.”

de pequenina é que…


Marta J. tem uma história de perseguição por uma… subordinada. “Eu fazia o backoffice de um conjunto de marcas, e o patrão pôs uma senhora em part-time para me ajudar. Basicamente, ela queria o meu lugar e boicotou-me o trabalho todo.”
Começou a haver falcatruas nos pagamentos, e Marta percebeu que as pessoas com quem lidava estavam de má vontade. A situação piorou quando a sua ‘desajudante’ foi viver com o dono da empresa. “Começou a boicotar-me também a partir de casa. Ligava-me às duas da manhã, mandava-me mensagens como se fosse mulher de um homem casado com quem eu supostamente andaria. Acabei por pedir ao meu marido que tratasse disso. Ele atendeu-lhe uma chamada e disse: ‘Ainda bem que me avisou, vou já dar-lhe uma sova.’ (risos)”
Como se defendeu: conseguiu desmascarar a perseguidora, que saiu da firma mas não da relação com o chefe. “Mas a minha relação profissional deteriorou-se de tal maneira que também eu acabei por sair.”
Conclusão: “Esta mulher fez-me a vida negra a mim, mas as outras mulheres embarcaram na história dela. Isto é sempre uma questão de poder. As mulheres têm pouco poder, e quanto menos têm, mais o usam.”
Curiosamente, nota o mesmo comportamento nas colegas do filho, de 12 anos: “Os rapazes jogam à bola, zangam-se, fazem as pazes, mas não há aquele requinte feminino, aqueles joguinhos de fazerem a vida negra por Whatsapp, de se unirem todas e deixarem de falar àquela, coisas terríveis! E fazem isto desde pequeninas! Quem é que lhes ensina isto? O meu filho tem uma amiga que gosta de jogar à bola e de brincar com os rapazes. Ela teve de mudar de escola: pois na escola nova foi totalmente posta de parte, boicotada e humilhada pelas outras raparigas. Certa vez, uma delas disse-lhe: ‘Tu é que és a Júlia? É para te dizer que vens com a mesma roupa de ontem.’ Veja a crueldade disto! Felizmente a mãe teve bom senso e tornou a pô-la na escola antiga.”

De rivais a parceiras


Nem sempre o bullying feminino acontece em situações de trabalho. Muitas vezes são coisas tão simples como dizer a uma recém-mãe: ‘que gorda que tu estás!’ A maternidade é um ‘alvo’ preferido de ataques por parte de muitas mulheres, que se sentem poderosas quando criticam.
Há dois anos, no seu livro ‘Coisas que uma mãe descobre (e de que ninguém fala)’, a blogger Filipa Fonseca Santos partilhou o lado menos cor-de-rosa da maternidade, mas houve muitas mulheres que não gostaram. “Fui à televisão e referiram uma das crónicas sobre amamentação, onde eu dizia que amamentar me tinha feito sentir uma vaca.” Caiu o Carmo e a Trindade num festival de insultos onde lhe chamaram de tudo e a levaram às lágrimas.
“E tudo por uma simples frase… As mulheres criticam sem dó: ou porque não se amamenta ou porque se amamenta até aos 3 anos, como se dissessem, ‘olha aquela acha que é melhor do que eu’. É como comparar os filhos, competimos muito através das crianças. Se eu disser ‘ai o meu filho não come nada’ há logo quem diga ‘ai o meu come lindamente’. E qualquer mulher bem-sucedida é sempre porque o marido é o melhor amigo do diretor.”
Os homens são diferentes? “Claro que são. Nunca lhes passaria pela cabeça criticarem-se uns aos outros, se o fazem é na brincadeira. Às vezes invejo-lhes isso. As mulheres levam mesmo a competição a peito. E o mais engraçado é que, ao mesmo tempo que criticam, também têm uma enorme vontade de ajudar quando é preciso. Eu sou muito feminista, e acho estranhíssimo como é que, se temos essa imensa capacidade solidária, não a usamos em vez de sermos competitivas.”
O pior de tudo: continuamos a afirmar-nos através da diminuição das outras. “Isso tem de parar. A partir do momento em que há mulheres que acham que já não é preciso lutar pela igualdade, está tudo dito. Aliás, quantas vezes, quando se discutem temas como salários iguais ou aborto, os ataques das mulheres são muito piores que os dos homens? Tenho esperança que as novas gerações sejam diferentes. Mas ainda temos um caminho longo a aprender a ver-nos como parceiras e não como rivais.”

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D.R.

crítica vs abuso


O anonimato da net torna os insultos e perseguições ‘em rede’ muito mais intensos. “Temos de ter a noção de que o cyberbullying é uma forma de violência emocional”, nota a psicóloga Cláudia Morais, autora de livros como ‘O amor e o Facebook’. “E o padrão tem sempre a ver com a insegurança, com a sensação de não ter recursos para dar forma às suas dificuldades, um mecanismo nem sempre consciente e maquiavélico.”
Ou seja: há mulheres que estão em busca de uma gratificação imediata que resulta de oprimir outras mulheres. “A pessoa faz isto para se sentir melhor consigo mesma, mas essa gratificação não dura, é como um ‘shot’ de cafeína quando se bebe um café, e não vai resolver as suas inseguranças. Pelo contrário: quanto mais energia se investe nos maus tratos a outras mulheres, menor a probabilidade de mudar de facto aquilo que é preciso mudar em relação a si mesma, portanto a opressão funciona como uma distração.”
Isto a um leigo parece estranho, mas é um mecanismo bem estudado em psicologia: “É um padrão que pode mesmo tornar-se viciante, porque a agressora precisa de cada vez mais exercícios deste tipo para obter gratificação. Muitas vezes, são pessoas que se sentem elas próprias abusadas e que são incapazes de enfrentar as próprias lutas.”
Não confundamos as coisas: o mal não é a crítica, porque toda a gente tem o direito de discordar e criticar, e é saudável ter a coragem de o fazer. “O que devemos condenar é este olhar de desprezo, de cima para baixo, de quem visa acima de tudo destruir e humilhar o outro. Isso não é crítica: é abuso. A diferença é enorme. Por exemplo, se alguém me perguntar as horas aos gritos, isso é um abuso…”

Não é inato nem biológico


“O facto de as mulheres se criticarem pode parecer surpreendente, mas se pensarmos bem sobre como funcionam as relações de poder em sociedades com desigualdades, rapidamente chegamos à conclusão de que não é tão estranho assim”, explica a socióloga Maria do Mar Pereira, Professora Associada de Sociologia e Vice-Presidente do Centro de Estudos sobre as Mulheres e Género da Universidade de Warwick. “A sociedade portuguesa ainda é machista, e as mulheres têm, em muitas esferas sociais, menos oportunidades do que os homens. Não espanta que muitas se relacionem entre si de forma pouco solidária, competitiva e até agressiva.”
E não, a culpa não é do homem das cavernas nem da genética: “Este comportamento não é natural, biológico ou inevitável, é resultado da desigualdade de género. As mulheres não têm estes comportamentos de forma inata, aprendem-nos nas famílias, na escola, nas telenovelas, no local de trabalho. A investigação demonstra que em contextos onde os homens têm menos poder, eles assumem os comportamentos competitivos e ‘intriguistas’ que associamos às mulheres.”
E há muita investigação, incluindo a sua própria pesquisa com jovens em Portugal, que demonstra que também os rapazes e homens têm este tipo de comportamentos no nosso país. “Só que nós não reparamos tão facilmente porque não o associamos aos homens, e porque esse comportamento raramente é representado em novelas, filmes, etc., apesar de acontecer diariamente.”

infantilizamos os homens…


Importa não esquecer que os homens não têm o monopólio do sexismo. “Todas as pessoas que nascem numa sociedade sexista internalizam esse sexismo, incluindo as próprias mulheres”, explica Maria do Mar Pereira. “Isto significa que também elas tendem a ter menos respeito pelas mulheres do que pelos homens, a julgar as mulheres mais negativamente do que os homens, etc. Em muitas situações, elas podem sentir necessidade de criticar publicamente outras mulheres precisamente para se tentarem distanciar do estigma e estereótipos associados às mulheres e para demonstrarem à sociedade que não são mulheres como as outras – por exemplo, ‘as outras mulheres são gordas ou galdérias, mas eu não’.”
Voltamos ao sítio onde começámos, à P### do bairro, lembram-se? Quando alguém trai, as mulheres penalizam… a mulher, e não o homem. “Por um lado, é mais fácil criticar uma mulher desconhecida do que um homem que nos é próximo – podemos assim continuar a acreditar que ele gostava realmente de nós mas que foi manipulado, coitado, pela sedução dela”, descodifica a socióloga.
Por outro lado, esta desresponsabilização dos homens ajuda as mulheres a lidar com uma sociedade sexista. “Os homens podem ter mais poder, estatuto e oportunidades, mas, diz a voz popular, não sabem controlar a sua sexualidade, são facilmente tentados, não sabem o que fazem, e portanto são as mulheres que têm de ‘ter mão neles’. Este discurso, que infantiliza os homens, retrata as mulheres como mais maduras e racionais e permite-lhes sentir algum poder e orgulho numa sociedade que as menoriza, e beneficia os homens, já que lhes permite ter comportamentos sexuais problemáticos, como o assédio denunciado no movimento #metoo.” Como lidar com isto: desativar as ‘abusadoras’, perceber os mecanismos por trás de tudo e fazer com que, no dia a dia, nos tornemos cada vez mais apoiantes das nossas ‘irmãs’, em vez de sustentadoras de comportamentos que nunca nos ajudaram a ser melhores.

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