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jacoblund

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA de abril de 2018

Só pelo título pomposo queremos fazer o mesmo que Maria Daniel Brás faz na Accenture. Mas o que é que faz de verdade uma Truly Human Innovation and Experiences Manager? O objetivo máximo é ter um impacto positivo na forma como trabalham e vivem os cerca de 450 mil trabalhadores da Accenture, multinacional especializada em consultoria de gestão. “O meu foco é incluir o que mais nos diferencia enquanto seres humanos nos nossos programas, processos, metodologias e resultados, de forma a que possamos melhorar a forma como os nossos colaboradores e o mundo à nossa volta vive e trabalha.”
Maria Daniel impressiona tanto pelo que faz quanto pela forma como o faz. É a partir da sua casa, em Lisboa, que coordena uma equipa internacional, o contexto ideal para uma mulher assumidamente introvertida. “É o meu estilo de trabalho ideal. Adoro poder contactar com pessoas de todo o mundo, mas como introvertida que sou também preciso do meu espaço isolado para recuperar energia.” É também o contexto ideal para uma millennial. “Privilegiamos a flexibilidade, a personalização e estamos bastante à vontade com a tecnologia. Isto faz com que estejamos preparados – e até desejosos – para esta forma de trabalhar (eu, pelo menos, estava!). O trabalho à distância dá-nos liberdade para realizar o nosso contributo para o mundo no sítio e horário que mais nos serve, com pessoas que não estão limitadas ao nosso escritório ou país. O mundo inteiro é o limite.”

Gere-se o tempo de forma mais eficaz, sem fronteiras rígidas entre vida pessoal e profissional

“Não acredito em fronteiras entre vida pessoal e profissional. Quem eu sou em casa, sou no trabalho, e quando estou a trabalhar não consigo desligar de quem eu sou. O trabalho faz parte da minha vida. Mas isso não quer dizer que esteja sempre a trabalhar. Da mesma forma que não fazemos exercício físico eternamente ou não dormimos eternamente, também o trabalho tem o seu tempo próprio. Trabalhar virtualmente dá-nos a vantagem de podermos gerir o tempo de forma ainda mais eficaz. Tenho liberdade para interromper o dia de trabalho para fazer exercício e posso trabalhar até mais tarde se assim for mais produtivo. Felizmente, estando na Europa, não tenho muitas videoconferências fora das horas de trabalho habituais no nosso país, embora já tenha havido exceções, em que adapto o meu dia para acordar mais cedo ou terminar mais tarde, para que possa falar com pessoas noutros países e diferentes fusos horários. Regra geral, tenho um dia normal como qualquer pessoa que trabalha num escritório, mas sem o stresse matinal para sair de casa e sem perder tempo no trânsito. Com esse tempo adicional, trato de mim, da casa, aproveito o tempo com as minhas gatas ou para ler ou aprender algo novo.”

O trabalho à distância aumenta a produtividade

“Mesmo que, por estar em casa, acabe por trabalhar mais horas, canso-me muito menos. Sou introvertida e os open spaces não são o espaço de trabalho ideal para mim. Em casa estou o dia todo em silêncio e sem interrupções, sou muito mais produtiva e com muito menos esforço. Além disso, posso fazer trabalho criativo nas horas em que o meu corpo está mais alerta. No escritório estamos limitados ao horário de trabalho, que nem sempre é o mais adequado para nós ou para a tarefa que temos de desenvolver.”

É possível criar laços, mesmo à distância

“Existem alguns mitos em relação ao trabalho à distância. Muita gente acredita que não se conseguem estabelecer relações profundas desta forma, ou que não se conseguem perceber bem as pessoas. Isso até pode ser verdade muito no início, mas ao fim de algum tempo é perfeitamente possível identificar pela voz se uma pessoa está triste, preocupada ou feliz. Também dedicamos tempo na agenda exclusivamente para celebrar eventos, como aniversários e falar de temas pessoais. Claro que cada um tem que fazer a sua parte e comunicar à equipa as suas necessidades pessoais, mas é perfeitamente possível manter o espírito de equipa à distância. Tenho muito bons amigos em vários países que nunca conheci pessoalmente.”

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Maria Daniel Brás tem 36 anos e é Truly Human Innovation and Experiences Manager na Accenture e o seu trabalho, ainda que virtual, tem um impacto direto e bem real na forma de trabalhar e viver dos cerca de 450 mil colaboradores da consultora.

D.R.

Nas videoconferências é importante reservar tempo para assuntos pessoais

“Em qualquer dos meus projetos faço questão de que haja sempre uma ou várias chamadas iniciais dedicadas apenas a conhecermos a equipa. No mundo virtual é muito fácil irmos diretos ao assunto porque o tempo em conjunto é limitado, mas é fundamental dedicarmos tempo para nos conhecermos. Nessas chamadas podemos partilhar fotos, factos sobre nós que os outros não conheçam, os nossos gostos e preferências. Depois, manter conversas regulares individuais com cada elemento da equipa e também ‘reuniões’ de equipa em que partilhamos informação, momentos de generosidade e gratidão, celebrações e reconhecimento, é fundamental para manter o espírito de equipa. Mas no início, um site ou base de dados com o perfil de cada pessoa a que toda a equipa tenha acesso é uma boa ajuda.”

Não é preciso conhecer as pessoas pessoalmente para gerir uma equipa

“Devido ao compromisso com o ambiente, a empresa está dedicada a utilizar as novas tecnologias para ligar pessoas. Isto pode traduzir-se em eu nunca vir a conhecer a minha equipa pessoalmente. Através de algumas formações comuns (ou até viagens pessoais), podemos vir a conhecer alguns membros da equipa, mas é difícil conhecer todos. Acho que nestes sete anos nunca conheci a totalidade das minhas equipas pessoalmente.”

Nada se faz sem tecnologia

“Para trabalhar à distância é fundamental uma ferramenta de gestão de calendário, software para conversas individuais e de grupo, gestão de tarefas e ficheiros e, claro, software de áudio e vídeo. Ter tudo isto disponível em versão para computador, mas também em aplicações para o telemóvel torna o dia-a-dia muito mais simples e permite-nos ser verdadeiramente móveis. Utilizo também bastantes aplicações de formação online como Edx, Udemy, podcasts, etc.”

Nem tudo é negociável

“A regra fundamental é ser realista na gestão do calendário. É muito fácil aceitarmos mais uma e outra conference call e quando vamos a ver temos um dia inteiro de chamadas e já não temos tempo para trabalho efetivo… Saber dizer não é fundamental. E bloquear tempo para renovar, para trabalho de foco e para o que é importante para nós, também. No início, foi-me difícil dizer não, e como consequência estava a trabalhar horas loucas e a prejudicar a minha saúde e bem-estar. E depois descobri que não há consequência nenhuma por dizer não ou bloquear o calendário para tarefas pessoais ou de foco – é normal e aceitável que haja agendas diferentes e por isso pode-se adiar uma chamada. Se nós estivermos bem, vamos conseguir ajudar os outros e contribuir para a equipa de uma forma muito mais positiva. Também é importante partilhar logo à partida com a equipa o que não é negociável, de maneira a se encontrar uma forma de trabalho que sirva a todos e respeite as necessidades pessoais. O meu non-negotiable, por exemplo, é que a partir de certa hora estou desconectada porque é tempo de estar com a família.”

O trabalho à distância não é para todos

“Conheço pessoas que não se habituaram a trabalhar virtualmente e que regressaram ao estilo de trabalho tradicional. Essas pessoas sentiam falta do contacto presencial com outras pessoas. E se há algumas funções que não podem ser feitas de forma virtual, na grande maioria das tarefas de trabalho intelectual, com alguma criatividade e disciplina, praticamente tudo se pode fazer à distância.”

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D.R.

O que ler sobre o assunto

“‘Healing Spaces’, de Esther M. Sternberg, que nos ensina a criar o ambiente de trabalho ideal em casa (por exemplo, ter plantas em quantidade abundante à nossa volta ajuda a reduzir os níveis de stresse, limpa o ar e a poluição gerada pelos ecrãs digitais e ainda pode aumentar a produtividade até 15%); e ‘The Year Without Pants’, de Scott Berkun, porque conta a história do que é trabalhar à distância, de uma forma divertida.”

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