Pedro Almodóvar (foto: Nico Bustos)

A coleção Cromática, que desenhou para a Roche Bobois, destaca-se pelo uso expressivo da cor. De onde vem a sua paixão pela cor?

Desde que comecei a trabalhar como realizador. Quando era criança, os filmes que mais me interessavam eram os dos anos 50, especialmente os do final da década, a era do Technicolor. De certa forma, tentei recriar as cores do Technicolor – muito vibrantes, contrastantes, explosivas. Devido ao avanço da tecnologia, atualmente já não é possível alcançar essas cores, pois estavam ligadas à química dos líquidos usados no processo de revelação do negativo. Mas essas cores não eram realistas. De todo. Hoje em dia, a tendência é alcançar uma fotografia o mais realista possível.

Coleção Cromática, de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

O que torna esta colaboração única?

Peças com as quais se pode realmente viver. Há um sentimento muito positivo, uma espécie de alegria de viver, nas cores e nos padrões que usámos. Caminhar sobre um destes tapetes ou sentar-se num destes sofás [da coleção Cromática] transmite uma certa sensação de optimismo. Ou, pelo menos, é isso que eu sinto.

Mesas, da coleção Cromática, com fotografia (de Almodóvar) impressa no tampo

As cores têm impacto nas personagens dos seus filmes?

Procuro a explosão de cores do Technicolor, que remete para a minha infância. Essas tonalidades refletem o meu próprio estado de espírito, bem como o das personagens que crio e, por vezes, coloco em situações extremas. Essa paleta é a que melhor lhes assenta. Além disso, atrevi-me a usar cores diferentes consoante a época retratada.

Móvel Rondo, reinterpretado por Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

Tem uma cor de eleição?

O vermelho, por exemplo, sempre esteve presente nos meus filmes. Mas também me vem à cabeça o verde, que atualmente uso bastante. Lembro-me que o usei, pela primeira vez, em Ata-me!, num sofá onde aparece a Victoria Abril. O verde é uma cor complexa, devido às suas variações – é preciso encontrar o tom certo. Há ainda outra cor que uso bastante, especialmente nas paredes: mostarda ou albero [um tipo de cor amarelada]. Usei-a em A Lei do Desejo e voltei a usá-la em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. É um tom que combina muito bem com todo o tipo de mobiliário e os rostos dos atores.

Almofada Mirada, da coleção Cromática, de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

Qual a tonalidade capaz de trazer mais alegria ao nosso dia a dia?

Os vermelhos – usados com moderação. Amarelos, verdes, certos tons de azul… E também o preto! O couro preto, por exemplo, com capitoné, é um clássico. Gostava muito de encontrar uma fórmula mágica, uma cor que, só de olhar para ela, nos fizesse sentir melhor. Tenho em casa uma pintura enorme de uma floresta muito realista e, como tenho de a ‘atravessar’ todos os dias, isso anima-me. Embora use muitas cores, não rejeito o preto ou o branco – sempre brancos sujos ou tons neutros.

Coleção Cromática, de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

Como trabalha na composição de um cenário?

Quando defino uma imagem, que inclui a parede, o chão, o mobiliário e o ator, trabalho como um pintor. Por exemplo, nunca peço apenas um sofá – mas dois ou três, para poder escolher. A primeira decisão que tomo é a cor da parede e do chão, uma vez que são superfícies amplas e dominam a composição visual. Depois de escolhidos esses elementos, faço imensos testes nas paredes. A seguir, trago as peças de mobiliário, com tecidos diferentes, para ver qual a combinação de cores que mais me convence. Depois disso, coloco o ator ou a atriz no sofá e experimento diferentes figurinos. É um processo tridimensional: trabalho como um pintor, mas, em vez de tinta, pinto com objetos.

Tapete Tacones, da coleção Cromática, de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

Há algum estilo de mobiliário pelo qual se sinta especialmente atraído? Um estilo, uma época ou um design em particular?

Depende do contexto. No caso dos meus filmes, do período em que decorrem. Em Abraços Desfeitos, por exemplo, quando me senti atraído pelo universo da Pop Art, usei uma peça vermelha da Cassina, as cadeiras, porque era muito representativa desse estilo. Já em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, o mobiliário era italiano. No geral, sou bastante eclético. Gosto de muitos estilos.

Almofada Talons Aiguilles (Saltos Altos), de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

Qual a ligação entre decoração e cenografia?

A minha casa, por exemplo, aparece em Dor e Glória – é onde vive Salvador Mallo (personagem interpretada por António Banderas). Há muitos quadros e muitas cores, tonalidades que aparecem nos meus filmes. Acontece-me, com frequência, comprar um móvel, candeeiro ou objeto de que não preciso naquele momento, simplesmente porque gosto dele, e sei que acabará por aparecer num dos meus filmes. Estou constantemente a colecionar elementos e detalhes que depois ganham vida no ecrã.

Coleção Cromática, de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

A sua casa assemelha-se ao seu universo cinematográfico?

Se olharmos para Dor e Glória é a minha casa, está lá tudo. Ou seja, vivo rodeado de quadros, móveis e candeeiros, todos escolhidos com muito cuidado. Ao início, pensei que ia optar pela serenidade de uma casa que se constrói aos poucos. Mas percebi, assim que comecei a comprar móveis, que não havia espaço para o minimalismo. A minha casa é muito eclética, tem imensas coisas. Quando compro algo, quero colocá-lo ali, porque gosto de o ver. É como com os quadros: por que razão haveria de os guardar? Não, quero vê-los. Tenho uma casa nova e acho que a comprei mais para a decorar do que propriamente para viver nela – para poder expor todos os quadros que fui coleccionando ao longo dos anos.

Almofada Lola, da coleção Cromática, de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

É o seu próprio designer de interiores?

Em casa decoro menos. Tenho uma seleção de móveis usados em filmes que fiz. Por exemplo, logo à entrada, uma mesa do Jonathan Adler, designer que gosto muito. Entramos e lá está a mesa. Porém, não está no lugar ideal. Na curta-metragem A Voz Humana estava perfeitamente colocada. O que quero dizer é que, às vezes, em minha casa, os móveis que já usei em filmes acabam por lá estar porque os comprei, mas não têm a mesma harmonia que tinham nos cenários e nem sempre estão colocados no melhor lugar. Por isso, por vezes, a casa acaba por parecer uma loja de mobiliário. Viver rodeado de tantas peças, talvez demasiadas, não me incomoda. E não sinto que seja um caos. Para outra pessoa, imagino que sim!

Tapete Flores, da coleção Cromática, de Pedro Almodóvar para a Roche Bobois

O que gostaria de fazer e ainda não fez?

Centenas de coisas… A questão é que, com o passar dos anos, o tempo parece encolher. Adoraria fazer, por exemplo, uma ópera. Já me ofereceram essa oportunidade várias vezes, mas nunca aconteceu porque estava profissionalmente ocupado. Quero muito criar uma espécie de coreografia para uma ópera. A coreógrafa Pina Bausch (1940-2009), com quem trabalhei, seria a minha principal referência. Colocar os corpos dos atores em movimento sincronizado com um determinado tipo de música é algo que ainda não fiz e talvez, no futuro, venha a ser algo que me motive.

Palavras-chave

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

25 peças para receber a primavera em casa

25 peças para receber a primavera em casa

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Técnico e Vinci Energies Portugal apresentam novo Formula Student para 2025/2026

Técnico e Vinci Energies Portugal apresentam novo Formula Student para 2025/2026

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

Bárbara Branco e José Condessa em cenas eróticas em

Bárbara Branco e José Condessa em cenas eróticas em "O Crime do Padre Amaro"

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e "resorts" de Portugal

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

E se os refugiados do clima formos nós?

E se os refugiados do clima formos nós?

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

A violência que o sistema resiste em ver. Opinião, a quatro mãos, de um advogado e um psicólogo

A violência que o sistema resiste em ver. Opinião, a quatro mãos, de um advogado e um psicólogo

“O Sol se escurecerá, e a Lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu”. Eclipse: ecos antigos de medos apocalípticos

“O Sol se escurecerá, e a Lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu”. Eclipse: ecos antigos de medos apocalípticos

Ideia para uma escapada: Do Alqueva à Ria Formosa, guiados pela água

Ideia para uma escapada: Do Alqueva à Ria Formosa, guiados pela água

Sara Matos como nunca a viu em cenas ousadas em “Sangue Oculto”

Sara Matos como nunca a viu em cenas ousadas em “Sangue Oculto”

Um século de propaganda na VISÃO História

Um século de propaganda na VISÃO História

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Tudo isto é cinema

Tudo isto é cinema

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

O

O "look" de Letizia no reencontro com a filha em Marín

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

CARAS Decoração: 10 ideias para transformar o velho em novo

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como "superalimento"

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1744

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1744

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

CARAS Decoração: Cromática, uma coleção desenhada por Pedro Almodóvar

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

As imagens das cenas de sexo lésbico de Margarida Corceiro na TVI

As imagens das cenas de sexo lésbico de Margarida Corceiro na TVI

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

Em noite de glamour, saiba quem foram os casais que marcaram presença nesta edição dos Globos de Ouro

Em noite de glamour, saiba quem foram os casais que marcaram presença nesta edição dos Globos de Ouro

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

"Creio que, daqui a 30 anos, os robots vão operar sozinhos"

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil

Microsoft revela poupanças de 500 milhões com Inteligência Artificial, depois de despedir nove mil