Inês Roque

Desafiamo-la a pensar em alguém que conheça que tenha uma tatuagem. Arriscamos a dizer que rapidamente lhe surgiu na mente um nome – ou até mais – e isso não é de surpreender: cada vez mais pessoas estão a aderir à arte de marcar o corpo. Não, não é apenas uma tendência da faixa etária jovem, ou não houvesse cada vez mais mulheres maduras a fazerem marcações em salões de tatuagens com ideias muito bem definidas do que querem. E o que querem estas mulheres na pele? Nada mais nada menos do que representar algo ou alguém que teve impacto nas suas vidas. “A tatuagem é a forma como marcamos no corpo as cicatrizes do que nos vai na alma. Falo de memória e de acontecimentos ultrapassados, mas também de coisas boas. A tatuagem é sem dúvida uma forma de preservar uma memória”, diz-nos a tatuadora Inês Roque.

Designer de formação, esta artista fez a primeira tatuagem em novembro de 2021, após o desafio de um amigo, e ficou apaixonada. “Foi a sensação mais louca que tive.” Uma mudança de localização da empresa da qual era funcionária levou-a a trocar o trabalho de escritório pela criação da sua marca, Pontto, que opera a partir de um estúdio privado em Oeiras. Desenvolveu um estilo minimalista focado nos detalhes e conta que nunca sentiu preconceito por ser mulher numa área que durante tantos anos pareceu pertencer a um mundo masculino. Aliás, até diz que muitas vezes recebe dicas e conselhos de colegas tatuadores “old school”. Expõe que o que mais gosta na concepção de uma tatuagem é “fazer o stencil, só linha, e depois saber para onde vão as sombras, perceber como a pele do cliente funciona – pois todas as peles são diferentes –, perceber que textura consigo fazer”. “Mas o que mais aprecio mesmo é no final, de estar a limpar e dizer para mim ‘fogo, grande trabalho, sou mesmo boa’”, admite entre risos.
Recebe clientes de ambos os géneros que desejam ter na pele um símbolo do que já foi vivido. “Acho engraçado que as pessoas estão cada vez mais a tatuar todas as memórias”, afirma, ou não fosse ela própria um exemplo disso: “Eu uso o meu corpo como diário gráfico e tenho vários símbolos referentes a várias fases da minha vida. As pessoas também estão a usar o corpo para isso.” Inês revela que os pedidos que recebe de forma mais frequente são datas “para lembrar o nascimento ou morte de alguém”, assinaturas, animais de estimação e reproduções de desenhos feitos por crianças. “Tenho feito imensos desenhos feitos por filhos de clientes. As pessoas estão cada vez a deixar mais essa memória eterna.”

Linhas com significado

Entre os símbolos mais escolhidos para representar algo do passado contam-se os “números, corações e estrelas, para as mais pequeninas”, enquanto nos trabalhos maiores Inês destaca os temas florais, devido à simbologia das flores e das plantas – sabia que a orquídea representa a sensualidade, a margarida, a sensibilidade e a flor de lótus a feminilidade?
Da análise que faz aos pedidos dos seus clientes, diz que a grande diferença nas escolhas de homens e mulheres está no local do corpo que se escolhe marcar – “eles braços e elas costelas, costelas, costelas” – e no tamanho. “Os homens querem sempre tatuagens bem maiores do que as mulheres. As mulheres querem sempre coisas piriris. A tatuagem mais pequena que já fiz tinha meio centímetro.” Mas uma tatuagem pequena pode ser o início de um caminho sem volta: “Essa rapariga já veio cá várias vezes e entretanto já vai na nona tatuagem e já passámos para os 7 centímetros.” Uma evolução comum para Inês Roque, que já teve várias clientes que chegaram a medo mas que acabaram por voltar. Aliás, a tatuadora refere mesmo que as mulheres estão “cada vez mais seguras de si” e que isso se evidencia não só no desenho que escolhem marcar na pele mas também no local onde querem ver essa marca. “Escolhem sítios ousados, mas eu também puxo um bocado por isso, porque quero que todas as mulheres saiam daqui a sentirem-se mais sexy. Acho que a tatuagem faz-nos isso.” É que, para Inês, estas marcas físicas da memória que escolhemos fazer também têm um forte sentido estético: “Para mim, a tatuagem não é só arte na pele, torna-se um acessório, torna-se uma maneira de te identificares e mostrares a tua personalidade. É incrível como a tatuagem muda uma pessoa. É incrível como, felizmente, a tatuagem mudou no mundo, pois antigamente era vista de uma forma mais negativa e hoje em dia já é vista como arte e apreciada por muitas pessoas.”

Ligações emocionantes

Com tantas tatuagens realizadas, Inês Roque tem oportunidade de conhecer histórias muito pessoais e que acabam por puxar também pelo seu lado mais emotivo. “O meu espaço é fechado, muito acolhedor, quando o criei foi com o objetivo de que a pessoa se sentisse em casa. Durante a sessão sou uma pessoa que adora falar e ouvir, e isso é superfixe porque falamos de tudo e mais alguma coisa. Falamos do assunto da tatuagem ou de tatuagens futuras que as pessoas começam a pensar, ‘ah, também gostava de representar isto’… Acho que virei psicóloga sem saber!”, conta, entre risos, mas ao mesmo tempo orgulhosa pela ligação que consegue estabelecer nessas sessões. “Já me comovi com a história das pessoas e das tatuagens e sinto-me muito bem com isso porque significa que confiam em mim”, diz, revelando ainda que esses encontros acabam por ser uma troca, pois acredita que os seus clientes “também deixam um bocadinho deles” consigo, algo que valoriza e que a deixa emocionada.
Inês tem muitas histórias felizes de clientes satisfeitos, mas lidar com pessoas também é passar por situações que podem representar um desafio e, em casos mais extremos, levar a recusa, como aconteceu uma única vez na sua carreira de tatuadora. “Houve um rapaz que me pediu um orçamento para fazer uma surpresa à noiva. Ele queria fazer em outline uma fotografia dela quando ele a pediu em casamento em Times Square. Queria tatuar nas costas, tinha-me pedido 25 ou 30cm e eu abusei no valor, dei um número absurdo para que ele não quisesse fazer. A verdade é que me apetecia dizer ‘olha, primeiro eu acho que se tu chegares a casa com essa tatuagem não vai haver casamento, e segundo, não faças isso, é um conselho que te dou’.” Já quando não se identifica com o estilo de um pedido, Inês não hesita em dar o contacto de um colega que se possa adequar mais às expectativas daquele cliente. “Todos os artistas têm a sua arte e há trabalho para todos. Não vou fazer tatuagens old school ou geométricas, por exemplo, porque não é o que gosto de fazer, portanto prefiro direcionar para um amigo, conhecido ou outro artista.”

Na pele para sempre

O momento em que termina uma tatuagem é aquele que mais entusiasma Inês Roque. “O que mais gosto é de pôr o papel e dizer ‘ok, podes levantar-te, mas levanta-te com cuidado porque estiveste muito tempo deitada e sentada’, e a pessoa vai ao espelho e diz ‘uau, é isto’, ou então começa a chorar, ou olha para a zona da tatuagem e depois vem abraçar-me. É mágico, porque aquela pessoa confiou em mim para marcar para sempre – apesar de agora já poder remover, mas pronto – o meu trabalho na pele.” Para sempre é um conceito que acarreta algum peso, e por isso é importante haver alguns cuidados para uma tatuagem passar no teste do tempo. “A pele é um órgão que está sempre em crescimento e aquilo que digo sempre é beber muita água, hidratar bem e quando apanhar sol usar protetor solar. O sol é o que estraga tudo e se tu não hidratares, a tatuagem ou vai desaparecer ou vai abrir, portanto, cuidar não só da tatuagem mas principalmente de toda a pele.”
Para o futuro, Inês Roque deseja continuar na profissão que tanto a faz feliz e a tatuar as memórias dos clientes. “Quero ver mais pessoas tatuadas e histórias nos corpos a andarem na rua. Porque isso é uma libertação. Quando marcas na pele é porque já estás segura sobre aquele assunto ou sobre aquela situação. Quero que as pessoas usem o corpo para tatuar e guardar as suas memórias para sempre.”

Texto de Cláudia Sérgio publicado na edição 404 revista ACTIVA, fotos divulgação

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