Katherine Mansfield morreu há quase cem anos e ficou mais conhecida por uma única frase no diário de Virginia Woolf: “Eu tinha inveja da escrita dela – a única escrita de que tive inveja na vida”. Mas Katherine nunca pediu a opinião dos outros, nem, para dizer a verdade, parecia precisar muito dela.

Não foi uma pessoa comum: aventureira, exploradora – de si própria, dos seus amores, das suas paixões – instável e muito doente, nasceu na Nova Zelândia em 1888, estudou em Londres, procurou curas na Suíça e em França, teve relacionamentos com homens e mulheres, pereu um irmão na I Guerra, casou-se duas vezes (a primeira não contou, a segunda com um ‘fellow’ escritor de quem se separou várias vezes), tocou violoncelo, e escreveu alguns dos contos mais famosos de toda a literatura mundial: um deles é o que dá o nome a este volume, o outro é o que fecha.

Para não irem ao engano, ‘Festa no Jardim’ não é uma cena fútil mas precisamente o contrário. Laura prepara uma festa grandiosa, mas na casa ao lado um operário que trabalhava numas obras morre inesperadamente. A mãe de Laura recusa-se a cancelar a festa, achando mesmo a ideia absurda, mas Laura põe em palavras um, digamos assim, dilema que continua válido tanto tempo depois: é moral festejarmos quando os outros à nossa volta estão a sofrer? Hoje em dia, talvez este tema faça ainda mais sentido.

‘Felicidade’ é o outro lado da moeda: num dia igual aos outros, uma mulher vê uma pereira em flor, e a sua beleza comove-a tanto que se sente mais feliz do que alguma vez foi. Durante o dia, tudo lhe correm mal: a filha bebé prefere a ama, o jantar não corre como planeado, descobre que o marido a trai com outra pessoa. Não vos conto o fim para não estragar a coisa. Vão ler.

Entre a tragédia e a salvação, os contos passam-se em pequenos momentos do dia a dia, nas vidas das pessoas sem importância – crianças, donas de casa, famílias, irmãos – em revelações que parecem tão pouco e significam tanto e em momentos que passam de repente, sem aviso e com uma força que nos deixa semfôlego, do pessoal ao universal.

Sempre me pareceu trágico que estes dois contos absolutamente perfeitos tenham sido escritos em sanatórios, quando Katherine já sabia que ia morrer. Sempre me pareceram um bocado assombrados, como quem vê ao mesmo tempo de perto e de longe.

À data da sua morte (em 1923, de tuberculose, com apenas 34 anos) grande parte da sua obra continuava por publicar. Hoje, felizmente, temos livros como este que põem as nossas angústias em palavras mas que nos mostram, em árvores anónimas ao virar da esquina, os misteriosos caminhos da salvação.

‘Festa no jardim e outros contos’ – Katherine Mansfield, Penguin Classics, E11,93

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