Hoje não vos trago nenhuma novidade. Às vezes também é preciso ir lá atrás. Lá atrás mais precisamente 20 anos. E perguntam vocês: o que é que te deu? E eu explico: estava num alfarrabista e de repente vi este livro: ‘Portugal, hoje: O medo de existir’. Caso não saibam, é um clássico da, chamemos-lhe assim, filosofia portuguesa, e é inacreditável que eu nunca o tenha lido. É difícil de definir, mas basicamente é sobre isto: o que é que nos impede de andar para a frente, enquanto povo.

Como devem imaginar por este princípio, não é um livro fácil de engolir. Para começar, porque é tudo verdade. E a verdade é dura.

Filósofo e professor universitário, José Gil faz aqui o retrato do ‘país da não-inscrição’, ou seja, nada se fixa, nada acontece que marque o real, nada parece ter importância, em plano nenhum: na história, na vida social e na nossa própria vida de cada um. Vivemos num nevoeiro eterno. Esquecemos rapidamente os mortos, não fazemos lutos bem feitos, nada tem profundidade, saltamos de uma ideia para outra. Estamos sempre num estado crepuscular, num entre-dois, num mais-ou-menos.

Eu tenho um hábito péssimo que é, quando estou a ler um livro, dobrar as páginas com citações, para depois ser mais fácil chegar lá. Aqui é inútil: comecei a dobrar todas as páginas. Cada linha é interessante e brutalmente verdadeira.

Como povo superficial, somos burgessos, pouco interessados e pouco interessantes. O ‘sistema’ também não está interessado em que sejamos diferentes. A política não nos interessa, a arte não tem espaço público, a literatura não a transforma, os trabalhos científicos e académicos não entram na vida pública. Uma das conclusões que se vão tirando, a certa altura, é brutal: o Estado Novo acabou, sim. Mas ‘continua a haver um certo divórcio entre conhecimento e democracia, e mais especificamente, entre conhecimento da democracia e prática democrática’.

Ou seja: “O autismo dos governos e a sua visão medíocre do futuro, a falta de imaginação e a falta de coragem políticas contribuiram largamente para que os reflexos herdados da ditadura demorem a dissolver-se. Refiro-me ao medo, à passividade e à aceitação sem revolta do que o poder propõe ao povo.”

Temos medo, mas curiosamente nem sequer temos consciência desse medo, e portanto nem isso nos transforma. “O medo é uma estratégia para nada inscrever.” E temos medo de quê? De tudo: “Medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso português.”

O direito à cultura e ao conhecimento ainda não chegou as pessoas. Somos mais livres do que na ditadura, mas ainda vivemos numa sociedade sem espírito crítico. Somos o país das pequenas coisas, das pequenas ideias, dos pequenos sonhos. Durante o dia, saltamos de ninharia em ninharia, prisioneiros “no circuito empírito das pequenas coisas e dos pequenos prazeres.”

A coisa só vai ficando mais apurada e mais cruel: “Não vemos mais longe que a ponta do nariz, mais longe que as nossas fronteiras, a nossa região, a nossa cidade, a nossa família, e por fim, mais longe do que os limites do nosos corpo. Não vemos mais longe do que a vida imediata, colados a um falso presente sem passado nem futuro.”

Quase no fim, quando ainda estamos abananados da tareia, vem aquele que é o capítulo mais famoso do livro, a parte sobre a inveja. Aí não fica pedra sobre pedra: somos uma sociedade fechada onde o ressentimento e o ódio vingam, herdados de um regime de desvalorização e humilhação das pessoas e que explodiu depois do 25 de Abril numa panela de pressão de inveja paralisante que nos puxa para baixo e entrava o trabalho coletivo. Desejamos que tudo corra mal a quem invejamos, e não admiramos ninguém intensamente.

Dizem vocês: não somos todos assim. Pois não, é óbvio. À frente: e dizem vocês – mas já passaram 20 anos desde que isto foi escrito. Ainda somos assim? Em 20 anos, alguma coisa deve ter mudado, não? Resposta: não. Não mesmo. Mas respondam vocês. A internet, as redes sociais, a dependência de ecrans, vieram transformar radicalmente a nossa vida. Isto é um lugar comum. Mas olhem para o que leram atrás – aqueles de vocês que chegaram até aqui – e digam-me se tudo aquilo não continua absolutamente verdade. Posso estar a ver mal a coisa. Mas eu mesma fui reler o que tinha escrito: e tudo continua igual. Continuamos aluados, superficiais, cobardes, parolos, ressentidos e invejosos. Não é um retrato bonito. Não é uma imagem em que gostamos de nos rever. Mas continua verdade.

No final, José Gil faz a pergunta que interessa: de que tamanho somos, nestes tempos de mudança? A resposta vem logo a seguir: “O tamanho certo só se alcançará quando finalmente nos abrirmos a outros povos, a outros países.” Se isso vai acontecer ou não, se isso está a acontecer ou não, cabe-nos a nós decidir.

Pronto, e é isto. Podia ir lançada por aqui fora mas também não vos posso fazer a papinha toda, até porque, como vos disse, este é um livro em que cada linha importa. Curiosamente, o livro luta com todas as forças contra essa não-inscrição que relata. É um livro que nos agarra pelos colarinhos – enfim, quem os tiver – e diz ‘deixe-me mudar a sua vida!’ Tenhamos a coragem para, pelo menos, deixar que isto nos marque. E se não mudar a nossa vida, então estamos mais perdidos do que pensávamos.

Portugal, hoje – o medo de existir’ – José Gil, Relógio d’Água, E19,00

Palavras-chave

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Vídeo: A festa final de 'Miúdos a Votos'

Dizem por aí... Que o pastel de nata conquistou o mundo

Dizem por aí... Que o pastel de nata conquistou o mundo

Deus, intuição e Rock and Roll

Deus, intuição e Rock and Roll

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

Um novo estúdio em Lisboa para jantares, showcookings, apresentações de marcas, todo decorado em português

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e "resorts" de Portugal

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Resistir não é vencer: caso Jones Manoel e a política do pânico no lulismo

Resistir não é vencer: caso Jones Manoel e a política do pânico no lulismo

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

António Casalinho: ninguém o pára

António Casalinho: ninguém o pára

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Escapada de Alijó à foz do Tua: O Douro para lá do rio

Escapada de Alijó à foz do Tua: O Douro para lá do rio

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1745

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1745

Sara Matos como nunca a viu em cenas ousadas em “Sangue Oculto”

Sara Matos como nunca a viu em cenas ousadas em “Sangue Oculto”

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Reportagem na selva mágica da Amazónia

Reportagem na selva mágica da Amazónia

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Tesla entregou menos carros no segundo trimestre do ano

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Investigadores conseguem novas

Investigadores conseguem novas "receitas" para reprogramar células que podem ajudar a combater o cancro

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

O futuro da energia é agora

O futuro da energia é agora

E se os refugiados do clima formos nós?

E se os refugiados do clima formos nós?

Todas as imagens do final de “Amor Amor”

Todas as imagens do final de “Amor Amor”

Artesanato de Barcelos: A tradição que moldou a identidade de Portugal

Artesanato de Barcelos: A tradição que moldou a identidade de Portugal

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Não perca na CARAS: tudo sobre o casamento de Catarina, filha de António Costa, com João Rodrigues

Não perca na CARAS: tudo sobre o casamento de Catarina, filha de António Costa, com João Rodrigues

Tudo isto é cinema

Tudo isto é cinema

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de "Hell's Kitchen"

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem "acordar" células cancerígenas adormecidas nos pulmões

25 peças para receber a primavera em casa

25 peças para receber a primavera em casa

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Artesanato de Barcelos: A tradição que moldou a identidade de Portugal

Artesanato de Barcelos: A tradição que moldou a identidade de Portugal