Há uma grande comunidade de admiradores de Murakami em Portugal, mas curiosamente, quando pergunto quem já leu este livro, ainda ninguém. Resultado: está a acontecer-me o mesmo que aconteceu com o ‘Misericórdia’ da Lídia Jorge, não tenho ninguém com quem partilhar a minha admiração e a minha descoberta.

Confesso que até agora não fazia parte da ‘corte’. De admiradores. Li o ‘Norwegian Wood’ e achei que ele não sabia acabar. Tentei ler o ‘Kafka à beira mar’ e achei que ele não sabia começar (resultado, só consegui avançar até à página 30, que eu tenho pouca resistência a princípios chochos).

Achei que me ia acontecer o mesmo com este, mas como sou a favor de segundas (ou terceiras) oportunidades, avancei.

Aceito quem me diga que não é para todos os gostos (mas que tipo de livro é para todos os gostos? Nem os de culinária). Mas é tão raro, nos tempos que correm, encontrar alguma coisa verdadeiramente original… Resultado: não consegui parar de ler durante o tempo que tive para ler. E o mais estranho é que nem sabia porque é que não conseguia parar de ler.

Este foi seguramente um dos livros mais estranhos que li em toda a minha vida, e só não foi o mais estranho porque haverá sempre o ‘Gravity’s Rainbow’ à frente de todos os livros estranhos. Com a diferença que este é quase banal na sua estranheza, ou seja, é um livro imensamente complexo escrito de uma maneira imensamente simples (vão ler e logo percebem o que eu quero dizer com isto).

Parece que é a recriação de um conto que o Murakami já tinha escrito nos anos 80, mas preferi não ler muito acerca disso porque, 1, também não li o dito conto, 2, preferi partir para isto de coração limpo, e 3, na verdade não interessa a quem está a ler.

História: um rapaz conhece uma rapariga que a certa altura baza para um sítio estranhíssimo, uma cidade dentro de uma muralha que está sempre a mudar. O rapaz decide segui-la e cumpre todos os requisitos da entrada, até lhe pedirem para se libertar da sua sombra. De regresso à ‘realidade’, muitos anos depois, numa crise de meia idade decide largar o emprego seguro e arranjar um lugar como bibliotecário numa pequena biblioteca numa perdida cidade da província onde não se passa nada mas onde a outra cidade – a irreal – e o passado o perseguem até que a história se completa através de um outro rapaz.

Ao longo do livro a cidade irreal é descrita de várias maneiras. Aqui fica:

“O grande obstáculo é que, uma vez lá dentro, se torna inviável sair. As altas muralhas rodeiam o perímetro inteiro e existe um Guardião que controla zelosamente as entradas e saídas. Não me parece, por outro lado, que os habitantes levem uma vida plena. Devido aos invernos longos e rigorosos, a que acresce a escassez de alimentos, os unicórnios morrem às dezenas de fome e de frio. Em suma, a cidade dificilmente pode ser considerada um paraíso.”

Pronto, pelos unicórnios já repararam que não estamos a falar numa cidade tipo Paris ou Londres.

Isso ao Murakami interessa imenso, a diferença entre mundos reais e irreais:

“O que é real e o que não é? Existirão neste mundo muros que separem o real do irreal? No meu modesto parecer, esses mundos dissociativos poderão existir. Melhor dizendo, estou convencido de que existem, que são, definitivamente, muralhas incertas. Tanto a solidez como a forma dependem do lugar e da pessoa. Consequentemente, as muralhas alteram-se e modificam-se como se de seres vivos se tratassem.”

Ao leitor, principalmente se for como eu, isto não lhe interessa nada. Então porque é que continuamos a ler as 550 páginas até à última? Não sei. Talvez porque a tal irrealidade misturada com a banal realidade – o frio, os copos de chá, a vida demasiado pacata para ser verdade, o chefe que é um fantasma (é mesmo um fantasma, não é uma metáfora), a nostalgia pelo passado, a ideia de que falta ainda cumprir alguma coisa na vida – nos mantém agarrados de uma forma quase hipnótica (há muito de hipnótico aqui). Depois, é um livro muito bem feito, que se orienta muito bem – lá está – entre realidade e irrealidade, entre pessoas e fantasmas, entre passado e presente – um livro que nos encoraja a explorarmos os limites da nossa cidade (a exterior e a interior), a reconhecer a natureza das nossas muralhas e a não estarmos demasiado presos a definições, prisões e convenções.

Tive uma vez uma professora extraordinária, a Maria Lúcia Lepecki, que às vezes nos recomendava qualquer coisa para ler e dizia (ela era brasileira) “Leia, porque este livro vai abrir sua cuca”. Lembrei-me imenso dela enquanto lia isto. Acho que, de uma maneira estranha, também este livro vai abrir imenso as nossas ‘cucas’ e ensinar-nos uma outra maneira de ler, de pensar, de observar, e talvez mesmo uma outra maneira de viver.

‘A cidade e as suas muralhas incertas’ – Haruki Murakami, Ed. Casa das Letras, E34,90

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