
Até ler este livro, eu nunca tinha ouvido falar de Marty Makary. Fui ver quem era. Médico, professor da Universidade Johns Hopkins e membro da Academia Nacional de Medicina, é de origem egípcia mas nasceu em Liverpool e cresceu na Pensilvânia, onde o pai também exercia medicina. Especializado em saúde pública, Makary tornou-se famoso muito cedo graças ao pioneiro ‘The surgery checklist’, uma lista de passos simples que os cirurgiões tinham de cumprir antes de cada operação, um hábito que, por incível que pareça, ainda não era posto em prática e que salvou milhares de vidas desde que se tornou um procedimento habitual nos hospitais.
Makary cedo se interessou pelos interesses económicos em luta na área da saúde. Quanto se paga, a quem, quem mais lucra, quem está a fazer com que se pratiquem preços astronómicos e o que acontece a quem não pode pagar. Em 2019 publicou um artigo que mudou a vida de muitos americanos, quando descobriu milhares de processos judiciais instaurados pelos hospitais da Virginia a pacientes que não conseguiam pagar as suas contas.
Claro que, dirão vocês, os hospitais têm o direito de cobrar pelos seus serviços. Mas o que Makary e a sua equipa descobriram foi que muitos hospitais cobravam preços muitíssimo mais elevados do que o valor real dos procedimentos, e muitas vezes sem pedirem permissão aos doentes. Pormenor: na Virginia, se não se pagar uma conta pode-se perder a casa onde se vive.
O escândalo provocado por este artigo foi tão grande que levou os dois maiores hospitais da Virgnia a suspenderem a prática de processar quem não conseguia pagar as suas contas.
Entretanto, Makary publicou dois livros igualmente corajosos e demolidores: ‘ Unaccountable’, sobre a falta de transparência na medicina, e ‘The Price We Pay’, vencedor do prémio 2020 Business Book of the Year, sobre os preços que se praticam na área da saúde e aquilo que os inflaciona. Graças a Marty Makary, a frase ‘A toxicidade financeira é um problema médico’ ficou famosa.
Pronto, tudo isto para já saberem ao que vão e não estranharem quando eu vos disser que este livro que hoje vos trago devia ser de leitura obrigatória mesmo para quem não está doente. O título português é ‘Cegueira clínica’, tradução do original ‘Blind Spots’, e estes ‘ângulos cegos da medicina’ são muitos e muito graves, com consequências que duram até hoje.
O livro é apaixonante por isto mesmo: porque nos mostra os bastidores dos procedimentos médicos, de como um estudo é aprovado, de como um tratamento é implementado (ou não), de como falsas premissas duram até hoje, de como novos estudos são ignorados precisamente por porem em causa as crenças anteriores.
Muitas destas questões são-nos familiares. Durante décadas, muitos de nós ouvimos coisas como, a terapia de substituição hormonal causa cancro, os alimentos naturalmente gordos provocam colesterol, uma dieta à base de alimentos magros é saudável e adequada a quem quer perder peso, e na dúvida, toma-se um antibiótico (eu por exemplo sabia que não é saudável tomar muitos antibióticos mas só aqui fiquei a perceber porquê).
Aqui se contam episódios da história da medicina recente que a grande parte das pessoas não conhece. Por exemplo, vocês sabiam que muitas apendicites se curam com um simples antibiótico em vez de uma operação? Problema: fizeram-se três estudos enormes sobre isto, e mesmo assim muitos médicos se recusavam a aceitar os resultados.
Este livro é também sobre isso: a forma como se fazem os estudos e a forma como, milhares de vezes, os médicos se recusam a aceitar evidências e a prescrever o tratamento adequado, só porque vai contra a forma convencional como sempre trataram aquela doença. Como resume Makary, “Não gostamos de crenças contraditórias e por isso esforçamo-nos por resolvê-las tentando justificar as diferenças”.
Há outro resumo que vale a pena ler:
“O sistema médico estabelecido errou ao identificar a causa principal das doenças cardíacas durante 60 anos.
Errou sobre a terapia de reposição hormonal durante 22 anos.
Errou sobre a adequação dos antibióticos durante 60 anos.
Errou sobre a prevenção de alergias ao amendoim durante 15 anos.
Errou sobre as propriedades viciantes dos opioides durante 20 anos.
Esta é uma lista parcial de grandes erros do sistema médico em questões de saúde importantes. Os erros não são falhas de uma época antiga. São erros evitáveis na medicina moderna. As questões poderiam ter sido resolvidas com uma investigação sólida realizada antes que as recomendações fossem feitas com tal absolutismo. Vale a pena descrevê-las porque as correções baseadas em evidências desses erros ainda não são amplamente conhecidas.”
Objetivo do livro: mostrar como o pensamento coletivo pode dominar até a counidade médica.
(Gostei especialmente da parte sobre implantes mamários de silicone, que nos EUA foram desaconselhados durante muito tempo. Segundo Makary: “Substâncias como o álcool e o tabaco – que causam a morte a mais de cem mil norte-americanos todos os anos – continuam amplamente disponíveis, enquanto dispositivos usados para melhorar a saúde mental de uma mulher foram retirados sem evidências suficientes.”)
Pronto, como veem têm aqui muito com que se entreterem. Aliás, este é mesmo um dos livros com que mais aprendi este ano: aprendemos qualquer coisa nova e importante em qualquer uma das suas quase 300 páginas. Digam-me lá se não é um bom investimento.
‘Cegueira clínica: quando a medicina falha e o que significa para a nossa saúde’ – Dr. Marty Makary, Ed. Casa das Letras, E19,90