A relação difícil com a comida surgiu na adolescência e manteve-se nos anos seguintes, em que Benedita Stüve Figueiredo se tentou libertar dos quilos a mais, sem sucesso. Juntou-se aos 40% da população adulta portuguesa que, segundo dados do Sistema Nacional de Saúde, tem excesso de peso, e aos 30% que sofre de obesidade. Benedita tornou-se refém de dietas e tratamentos que não redundavam em efeitos a longo prazo. Não cruzou os braços e fez a sua jornada contra dietas pouco saudáveis e mitos associados ao desporto. Pesquisou, estudou, questionou. Os resultados começaram a chegar – e a ficar. Em 2021, decidiu que queria ajudar outras pessoas que lutavam com o problema da obesidade. Começou por uma página no Instagram – a b.healthypt. – que foi somando seguidores. Em janeiro deste ano, publicou um livro – ‘Obesidade Nunca Mais’ – em que nos fala da sua vida e de como perdeu mais de 30 quilos. Um livro onde não faltam dicas a nível de exercício, alimentação e motivação. Porque não temos de ficar reféns de opções que não nos fazem bem.

– Porque sentiu necessidade de escrever este livro?

Este livro surgiu, primeiramente, com o objetivo de ser apenas um livro de receitas. Criei uma página no Instagram em janeiro de 2021 para incentivar as pessoas a lutarem pela saúde e para mostrar que comer saudável não tem de ser, obrigatoriamente, aborrecido. A página cresceu bastante rápido após uma ida à televisão que me trouxe algumas seguidoras com mais idade. Nessa altura, recebi muitos pedidos para escrever um livro de receitas, uma vez que as pessoas de mais idade não estão tão à-vontade com o Instagram. Falei com uma boa amiga que trabalha na Porto Editora Kids, a Mariana Faria, para saber qual seria o investimento para escrever um livro. Passados uns dias, tenho o melhor editor de Portugal a desafiar-me para criar um livro, não só de receitas, mas em que conto a minha história e os meus medos de forma a conseguir ajudar muitas pessoas! Sem dúvida que o meu maior objetivo é conseguir mostrar a todos os que têm uma má relação com a comida que não estão sozinhos.

– Refere, logo no primeiro capítulo, como a sua família sempre valorizou a prática desportiva e uma alimentação saudável. Porém, o seu gosto pela comida começou em muito tenra idade…

Verdade! Sempre gostei de comer, de comer comida de verdade. Desde pequena que não era adepta de papas e preferia sempre comer o mesmo que os meus irmãos mais velhos.

– A adolescência marcou o início da sua relação mais complicada com a comida e com o corpo?

Não digo a adolescência, mas sim quando era uma jovem adulta. A má relação com a comida começou verdadeiramente depois de uma dieta muito restrita que fiz quando tinha 18 anos. Contudo, desde bem nova, 12 ou 13 anos, fiz algumas dietas e nunca me foi ensinada a importância dos alimentos nem uma reeducação alimentar.

– A doença da sua mãe foi um momento em que despertou para a necessidade de começar a dar atenção ao seu peso. Porém, pode-se afirmar que a sua motivação estava mais no lado estético no que na questão de ser uma opção mais saudável?

Sempre! Sempre foi o lado estético que esteve em questão, até conhecer a minha nutricionista, Diana Dinis, que me fez mudar o chip, e comecei então a olhar pela minha saúde. Foi então que encontrei o equilíbrio.

–  O seu processo foi marcado por muitas experiências menos felizes – dietas restritivas – que apenas agravaram a sua compulsão alimentar. Da sua experiência, este tipo de dietas podem, por exemplo, conduzir a um agravamento das compulsões alimentares?

Podem, sim. Se nos privamos de tudo o que gostamos, se não temos prazer na nossa alimentação, não vamos ter prazer no nosso dia a dia, vamos viver condicionados. Dessa forma, acredito que quase ninguém seja capaz de viver condicionado o resto da vida, e, por isso, quando nos privamos muito há sempre um dia em que comemos demasiado. Há quem lhe chame o «dia da asneira». Há quem tenha uma boa relação com a comida e saiba fazer um pequeno desvio à sua dieta, mas, normalmente, quem faz uma grande restrição alimentar come tudo e mais alguma coisa nos dias que chamam «dia da asneira», mesmo que não apeteça. Após esses dias, acaba sempre por chegar a culpa. Culpam o corpo de forma não saudável, fazendo novamente dietas restritas. O pior é quando estes episódios começam a ser muito recorrentes. Foi o que aconteceu comigo. Comecei a ter estes episódios constantes até me torna obesa.

– É importante termos consciência da diferença entre dieta e plano alimentar?

Sem dúvida. Dieta pressupõe um término. Plano alimentar é para a vida, aprendemos a comer e vamos adaptando as nossas rotinas de acordo com os nossos objetivos.

– Foi quando começou a seguir um plano alimentar baseado numa alimentação saudável porque equilibrada que começou um processo de perda de peso efetivo porque gradual. Como definiria as bases das suas escolhas alimentares e o plano que apresenta no livro?

Foi quando comecei a entender os alimentos, a perceber que não há alimentos que engordam nem alimentos que emagrecem. Foi quando percebi que não há alimentos proibidos nem alimentos obrigatórios que comecei, efetivamente, a ter uma vida equilibrada, e nunca mais ganhei o peso perdido. (Claro que há momentos em que oscilamos um ou dois quilos, mas desde então tenho sido sempre constante.) Antigamente, tinha medo da banana, do abacate, das gemas de ovo, da manteiga de amendoim, e muito medo dos hidratos. Mas não tinha medo de usar azeite e de comer produtos light/zero, que muitas vezes são bastante processados. O que engorda não são os alimentos, mas sim consumirmos mais do que devemos. Claro que quem está num processo de perda de peso tem de gerir melhor os alimentos calóricos para que não deixe de estar em défice calórico, contudo, não há alimentos que são proibidos, mas alimentos que devemos consumir com menos regularidade. O foco aqui é perceber se os alimentos são saudáveis ou não, e há uma forma bastante simples de o fazer: identificar produtos com o mínimo de ingredientes possíveis. Devemos tentar escolher alimentos com uma lista bem reduzida e sem nomes estranhos, que normalmente são máscaras do açúcar, e apostar em alimentos frescos (fruta, legumes, carne, peixe, etc.).

– Faz questão de rebater muitos mitos sobre o exercício físico, nomeadamente no caso da musculação. É, ao contrário do que se pensa, uma ajuda fundamental no processo de perda de peso?

É, sem dúvida. Até conhecer o meu querido amigo e PT Pedro Cardoso tinha muito medo da musculação. Afinal, pesos servem apenas para as mulheres ficarem grandes, achava eu. Mentira! Para que o musculo cresça dessa forma é preciso uma alimentação bem estruturada e, possivelmente, alguma suplementação. Antes fosse tão fácil ficar musculada dessa forma. A musculação torna-nos mais saudáveis na medida em que ficamos com mais massa magra, o metabolismo aumenta, diminuímos a massa gorda, a gordura visceral, e ficamos mais fortes. Tinha medo da musculação, e hoje, quanto mais carga consigo levantar, mas forte e saudável me sinto. Tenho as pernas super definidas e mais finas do que alguma vez tive, e faço agachamentos com mais peso que o meu peso corporal. O cardio faz parte e é essencial, está claro! Mas, para quem quer perder peso, a opção é sem dúvida a MUSCULAÇÃO. O cardio será sempre o complemento principal para melhorar a nossa resistência e o nosso sistema cardiovascular. (Como podem ver, hoje olho para tudo com o foco na saúde. Perder peso e vestir um número abaixo é sem muito recompensador e maravilhoso, mas é apenas a forma do nosso corpo nos compensar por estarmos a nutri-lo bem!)

– Uma mudança importante foi também ao nível da motivação. Quando tomou consciência que o que estava em jogo não eram apenas questões estéticas, mas acima de tudo questões de saúde, isso lhe deu um ânimo e uma disciplina extra neste processo?

Acho que ninguém alguma vez na vida disse ou pensou: «Que se lixe a minha saúde!», mas quantas vezes pensamos: «Que me importa se engordo ou emagreço, perdido por cem perdido por mil.» Quando nos focamos na saúde, no futuro, no nosso interior dificilmente desistimos do nosso objetivo, até porque, se pensarmos na saúde, não vamos fazer restrições nem culpabilizar o corpo. Desta forma, estaremos em paz, vamos desfrutar do processo e aprender a valorizar cada conquista.

– O autoconhecimento é essencial neste processo? Conhecer as nossas inseguranças ajuda-nos a combater as nossas compulsões?

Muito! E principalmente tentar saber de onde vêm essas inseguranças. Fiz umas sessões de coaching nutricional com a Diana Dinis (nutricionista) e consegui descobrir que muitos dos meus gatilhos foram despertados em criança. Conhecer as nossas fraquezas, saber o que nos vai despertar estes gatilhos, estas emoções menos boas, é essencial para tentarmos combater as nossas falhas.

– A desculpa de falta de tempo é usada por muitas pessoas para não praticarem exercício físico – 15 minutos a mexer-nos são sempre melhor do que 15 minutos no sofá. Tem de ser essa o pressuposto para nos mexermos mais?

Cinco minutos a mexer-se são melhores do que cinco minutos no sofá. Há sempre tempo, SEMPRE. Depende é se, de facto, é ou não uma prioridade para nós, e, se não for, não há problema, desde que estejamos felizes. Mas quem quer arranja tempo e não desculpas. Normalmente, tenho-me levantado às 06h para treinar, porque, infelizmente, não consigo encaixar o treino noutro horário. Minto, consigo treinar às 21h, mas não quero, prefiro treinar de manhã. Mas, lá está, ter tempo tenho, quer de manhã, quer à noite. Faço as minhas escolhas e não deixo de treinar, pois fazer exercício físico e lutar pela minha melhor versão, pela minha versão mais saudável, é a minha prioridade.

– A ‘dependência’ da balança na luta contra o peso é um hábito que temos de deixar? Em média, quantas vezes se pesa numa semana?

Uiiii, tema muito difícil. Cheguei a pesar-me cinco vezes por dia. Quando estou menos stressada e em pleno equilíbrio peso-me uma vez por semana, para controlar. Quando estou (como neste momento) mais stressada, com mais trabalho, é uma luta constante não ir todos os dias à balança. O que não é necessário, porque o peso pode oscilar até dois quilos de um dia para o outro. Basta termos feito mais retenção de líquidos/fezes, não termos dormido bem, o que for. A Diana e o Pedro tentam que eu me pese uma vez de mês a mês, ou mesmo de dois em dois. Ainda não consigo, ainda é uma batalha que estou a tentar vencer. Mas a verdade é que o peso na balança não significa nada. Neste momento, estou com cerca de um ou dois quilos a mais, mas as calças assentam exatamente da mesma forma. Posso estar mais musculada ou a fazer mais retenção de líquidos. O número na balança não nos define, o número na balança não deve ser indicativo de nada, e, por vezes, leva a que se desista. O número na balança não mostra que estamos mais fortes, mais saudáveis, a dormir melhor, que o nosso interior funciona melhor. O número na balança não é de todo o melhor indicativo de que estamos a progredir. São estas as palavras que tento mentalizar-me e que gostava que vocês também interiorizassem.

– Também podemos falar de um ‘terror’ generalizado dos hidratos de carbono. Mas é importante não os diabolizar…

É importantíssimo não os diabolizar. Os hidratos são o que nos dão energia e força. Nutrem muito o nosso corpo. Por exemplo, quem tem insónias não deve retirar os hidratos à noite. Sempre dormi mal, e foi desde que comecei a comer hidratos à noite que as minhas noites de sono começaram a ser tranquilas. Quando não dormimos bem, temos tendência a comer pior e a recorrer a energias rápidas (comidas mais calóricas e menos saudáveis, como doces) e não treinamos tão bem, etc., etc. Hidratos não são o problema. Pensem só: uma colher de sopa de azeite tem praticamente as mesmas calorias que cem gramas de batata cozida. O que vai nutrir mais o vosso corpo e dar mais energia? Temos medo dos alimentos errados. Não que azeite não seja saudável, porque é sem dúvida uma gordura de confeção saudável, mas temos de ter bastante atenção às quantidades utilizadas.

– Quais os critérios para a seleção das receitas que acompanham o seu livro?

Receitas fáceis, rápidas, acessíveis a todos, com produtos disponíveis em qualquer hipermercado e sem uma lista infinita de ingredientes.

– Sente que a partilha da sua experiência, nomeadamente no Instagram, a ajudou mais a si ou aos outros? Como vê o que sente quando as pessoas reagem positivamente às suas partilhas?

Acho que foi mútuo, pois recebo muitas mensagens queridas a dizer que mudaram a relação com o corpo/comida desde que começaram a seguir a minha página e a ler os meus desabafos. Com estas mensagens, ganho o dia, juro! Fico tão feliz, sei bem a necessidade que tinha de ter encontrado alguém que mostrasse sem medos todas as falhas que existem quando tentamos perder peso. Que não estava sozinha e que, afinal, eu não era a única que comia às escondidas. (Afinal, se ninguém está a ver, não vamos engordar, não é? Infelizmente, este é o pensamento de muitas pessoas e já foi o meu.) Ajuda-me a mim, a sentir-me motivada a continuar nesta vida saudável, ajuda-me a sentir que posso mudar a vida de muitas pessoas e ajuda-me também a querer lutar por um futuro mais risonho a trabalhar na área que mais me faz feliz e em que me sinto mais confortável. Quem sabe se um dia poderei viver disto, viver de ajudar as pessoas em busca da sua melhor versão e ver as suas conquistas diárias! Como diz a Diana Dinis: «As vossas conquistas são as nossas conquistas!» Somos e seremos sempre mais fortes juntos.

– Sermos felizes depende, ou não, do peso que a balança marca?

Já foi, durante muitos anos. Hoje em dia, não, a balança não mede o nosso sorriso, nem mede, sobretudo, a nossa saúde.

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