Fotos: Paulo Miguel Martins

Conheci Sofia num pequeno almoço de networking feminino. Era a única mulher negra presente, e não digo isto em vão. Durante a entrevista, Sofia disse-o mais que uma vez, que em tantas ocasiões da sua vida foi a única negra na ‘sala’ – e que isso talvez a tenha beneficiado. Quando Gabriela Pinheiro, a nossa stylist, lhe telefonou a pedir medidas, a primeira coisa que disse foi mesmo “sou preta e careca.” Não que isso a tenha definido, garante que a única altura em que foi vítima de racismo foi durante a primária, e pelo filho de uma professora.

A conversa deu a volta à mesa do pequeno almoço com as apresentações do costume. Quando chegou a vez de Sofia, não tive dúvidas de que tinha de contar a sua história. O enredo era bom – a de uma menina que cresceu num bairro de lata e que fez o caminho até criar as suas próprias empresas, mas o magnetismo de Sofia exercia um fascínio ainda maior. Com um sorriso sempre aberto, a deixar sobressair uns dentes perfeitamente alinhados, a forma do seu discurso era tão boa quanto o conteúdo.

Talvez tenha sido este seu magnetismo a atrair tanta gente boa que diz ter atravessado a sua vida: da professora de educação física, que a ajudou quando quase deixou de ir à escola por não ter dinheiro para o transporte, aos empresários que acreditaram e apostaram nela. Talvez por isso diga ser “um pouco de toda a gente” e se dedique hoje a ter uma presença positiva na vida dos outros, tanto através das suas empresas – a Be Present, de consultoria e assessoria de eventos, e a MOTTO de mentoria para jovens – e do voluntariado que faz junto de jovens em risco, quer na sua vida pessoal. Não é uma pessoa amarga. Muito pelo contrário. Foi uma atitude positiva que a trouxe até aqui. Hoje está bem. “Desde que tenha comida, está tudo bem.” E apaixonada. O sorriso rasga-se ainda mais quando fala de Gustavo, com quem casou em 2018. “O branco de Angola e a preta de Sintra” – como gosta de brincar.

Falas muito em fazer as escolhas certas…
Sim, escolhas certas e pessoas certas, é o meu lema.

E é isso que tentas passar aos jovens…
Dou aulas em regime de voluntariado, de 15 em 15 dias, numa escola da Amadora, através da Associação EPIS – Empresários pela Inclusão Social. São jovens dos 12 aos 18 que já estão numa situação delicada, já estiveram em várias escolas e acabaram por ir todos parar à mesma turma. O meu objetivo com eles é tentar que percebam as escolhas e as consequências dessas escolhas a partir de agora. Fiquei chocada quando, na primeira aula, lhes perguntei onde se viam daqui a 2 anos, e 3 disseram que se viam presos. Têm consciência daquilo que estão a fazer, mas acham que não há solução. São jovens sem muita educação, por vários motivos, ou porque os pais são ausentes ou porque estão em casas de correção. Veem tudo o que lhes acontece como sendo um problema dos outros. Encaram-se como umas vítimas e eles próprios puxam-se uns aos outros para baixo. Quando pergunto o que querem ser, os que dizem que querem ser médicos são gozados pelos colegas, mas se disserem que querem ir para a construção ou para as limpezas os outros já acham normal. Há um caso que me impressiona bastante, é um rapaz muito carente, está sempre a pedir abraços e carinho nas aulas, não fala muito e faz-se sempre de vítima, diz que é burro, que não sabe fazer as coisas. Como ele é mais sensível e tem a autoestima muito em baixo, acredita em tudo o que lhe dizem. Às vezes faz comentários do género de que vai partir uma perna só para ver quem é que o vai visitar ao hospital. Acredito que os professores não estejam preparados para lidar com estes perfis e eles deviam estar a ser acompanhados a sério e não estão. Há uma vantagem de 90% serem negros e de se identificarem comigo. Mas quando conto a minha história de vida, dizem que sou de outro mundo.

Porquê?
Porque acham que a eles nunca vai acontecer o que aconteceu a mim.

Porque acham que não têm controlo sobre isso?
Sim.

E qual é a tua história?
O meu pai é cabo-verdiano, a minha mãe é angolana. Conheceram-se em Cabo Verde e antes do 25 de Abril vieram para Portugal, à procura de melhores condições de vida. Chegaram cá em 1974, foram viver para Sintra, num pequeno bairro de lata na Tabaqueira. Em 1979, nasci eu e mais quatro irmãos. A minha mãe teve o primeiro casal de gémeos – a Maria José e o José Maria – a 8 de janeiro de 1979, e eu, Carla Sofia, e a minha irmã gémea, Sónia Sofia, nascemos a 5 de dezembro de 1979. A minha mãe era empregada de limpeza e o meu pai trabalhava na construção. Entretanto os meus pais separaram-se, a minha mãe teve de tomar conta de nós sozinha, a nossa casa não tinha muitas condições, chovia lá dentro, passámos algumas necessidades, entre elas fome, não tínhamos roupa…

Tinhas que idade?
Cinco anos, o meu pai entretanto voltou a casar-se e acabou por escolher não acompanhar os filhos.

E não o voltaste a ver?
Falo com ele regularmente, para ver se está bem, obviamente que não tem significado de pai para mim. É pai biológico, não estou chateada com ele mas agora tem de perceber que foi uma escolha que ele fez e que há uma consequência. Agora não posso de repente transformar-me na sua filha. 

Aos 12 anos o teu mundo mudou…
Uma senhora para quem a minha mãe trabalhava perguntou-lhe se ela tinha algum filho que gostaria de fazer babysitting no verão e eu aceitei o desafio, gostava de fazer coisas diferentes. Todos os verões ia tomar conta de uma criança para a Ericeira. Fui viver um mundo que não era o meu, na realidade eu desconhecia o mundo, foi a primeira vez que vi o mar, por exemplo.

Aos 18 anos saíste de casa…
Na cultura africana acredita-se que os filhos quando crescem têm de ir trabalhar para ajudar a família. E ajudar não é estudar, é trabalhar, porque não se pensa muito no longo prazo. Sempre tive a postura contrária, queria ir para a faculdade, o meu primeiro emprego foi na caixa da Telepizza e fui viver com dois amigos. Passados 6 meses decidi ingressar na faculdade, infelizmente não entrei na pública e entrei no INP. Tirei o curso de Assessoria e Gestão de Empresas porque tinha um pouco de todas as áreas. Nunca soube aquilo que queria fazer, ainda hoje não sei muito bem, não tenho uma meta. Vou fazendo coisas que acho que podem ajudar as pessoas e contribuir para o meu crescimento.

E como é que conseguiste fazer as escolhas certas?
Tenho o caso da minha irmã gémea, que infelizmente foi por um caminho totalmente oposto. Tinha uma autoestima muito baixa, não acabou a escola, foi mãe muito cedo… De certa forma teve a ver com as pessoas que fui encontrando na vida. Tenho os meus princípios e acredito muito nas pessoas com boa fé, íntegras, intelectualmente honestas e acho que tive a sorte de ir encontrando pessoas assim. E se calhar por eu acreditar tanto nesses valores aproximei-me mais de pessoas dentro desse registo. Jamais teria feito a faculdade se não tivesse amigas que me iam adiantando dinheiro para pagar enquanto não resolvia a questão da bolsa. A minha mãe tinha os documentos desatualizados e todos os anos eu achava que me iam mandar embora da faculdade. Mesmo a nível profissional, tenho encontrado as pessoas certas que de uma maneira ou de outra me vão abrindo caminhos. 

O João Catalão e a Ana Penim, do grupo Business Up, onde trabalhaste durante 7 anos, por exemplo…
Sim, eles foram como uns pais para mim. Na altura não tinha condições para comprar uma casa e eles foram os meus fiadores. Ficar-lhes-ei eternamente agradecida.

Também conheceste muitas pessoas erradas…
Tantas… Mas fui fazendo escolhas. Tudo o que é negativo eu afasto da minha vida.

Conscientemente?
Sim, tomo essa decisão, afasto-me das pessoas que sei que me podem prejudicar. A Be Present tem a ver com a minha história, estar presente como a minha família não esteve, pelos motivos que referi, o meu objetivo é estar presente na vida das pessoas de uma forma positiva.

Eras boa aluna?
Sempre fui uma aluna mediana, nunca faltava às aulas, exceto no sétimo ano, quando deixei de ir à escola porque a minha mãe não tinha dinheiro para pagar o transporte. Mas depois houve uma professora de educação física que foi à minha a casa e ajudou a tratar dos apoios que a minha mãe desconhecia. E eu regressei. Nunca chumbei. Lembro-me de ser muito participativa, de falar sempre muito. Estudava pouco porque tinha de trabalhar e estudar ao mesmo tempo.

Consideravas-te uma criança feliz?
Vou ser sincera, há muita coisa que apaguei da minha memória, não sei se por uma questão de defesa, mas à medida que fui andando tentei apagar tudo o que era mau. Tanto que quando estou em família não me lembro dos episódios que contam sobre mim. É a minha irmã gémea que me conta as histórias todas.

Mas se tivesses de escolher a melhor recordação da tua infância…
As festas cabo-verdianas que juntavam a família toda. Gosto muito dessa parte alegre de Cabo verde e de Angola, a questão da dança e da música e das pessoas se estarem sempre a rir.


Identificas-te como africana?
Na parte alegre, de andar para a frente. Não sou religiosa, fui à igreja, fiz a comunhão solene, mas hoje tenho uma fé que é minha, que não está ligada a nenhum Deus: acredito que as coisas vão correr bem.


É difícil ser mulher, e ser mulher negra em Portugal?
Os únicos momentos em que senti que era complicado ser negra foi na escola, na primária. Tive algumas questões de racismo, infelizmente com filhos de professores, que ainda é mais complicado. Na escola onde andava, além de mim e dos meus irmãos havia mais três negros. Depois disso, nunca mais senti nenhuma forma de racismo. Acho que o facto de ser mulher ou ser negra nunca me prejudicou.

Pode ser a tua tendência para transformar o negativo em positivo…
(risos) Também é verdade. 

Não ficaste amarga…
Muito pelo contrário. Felizmente estou bem, não ligo muito ao dinheiro. Desde que tenha comida, está tudo bem… Sempre vivi com pouco e sempre consegui ter os bons amigos que tenho, sempre consegui ter pessoas que me ajudaram. Não tenho filhos, ainda não aconteceu, mas tenho o sonho de adotar duas crianças. Gostava de ajudar alguém, tal como fui ajudada nesta vida.

O que aprendeste com a tua mãe? 
Aprendi que é muito importante pensar-se antes de ter filhos. Nas condições em que a minha mãe estava nunca teria tido tantos filhos, ainda que no caso dos gémeos não tivesse escolha. Mas os africanos têm muito esta coisa do está tudo bem e que alguém há de ajudar… E, apesar de tudo, a minha mãe não desistiu, trabalhava de sol a sol, passávamos muito tempo sozinhos em casa. Mas era ainda jovem e não tinha as ferramentas necessárias para ser mãe, fez o melhor que conseguiu, é a conclusão que tiro hoje. Fez aquilo que sabia e não a posso censurar. Hoje continuo a relacionar-me com ela, ajudo a minha família em tudo o que posso, tenho um irmão autista, o Yuri, de outro pai, sou eu que trato da instituição dele. 

Sais a quem?
Sou um pouco de toda a gente…

Manténs contacto com as tuas raízes?
Pouco, mesmo com a minha família, o facto de ter decidido seguir este caminho fez com que me distanciasse dela, eram objetivos distintos. Acabei por perder as vivências familiares. Mas não me cobram isso, porque desde os 18 que tento sempre ajudar a minha família. Veem-me mais como apoio do que como partilha.


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