Fotos, João Lima; styling, Patrícia Pinto

“Um dia, estava ao volante, de viagem depois de fazer uma direta para apresentar um plano de marketing no Porto, e pensei ‘se eu tiver um acidente…’” Esperei que Joana Álvares, 44 anos, completasse a frase, mas tinha a certeza do que vinha a seguir, algo como ‘se tivesse um acidente, poderia morrer, o que seria dos filhos’… “Se eu tiver um acidente, tudo acaba aqui e vai ser um alívio.” A afirmação apanhou-me de surpresa, mas não mais do que à Joana do passado. Descreve o episódio como a grande ‘wake up call’. Mas o despertador já tocava há algum tempo, em modo snooze. Recorda-se de uma outra situação que a marcou particularmente. “Certa noite, chego a casa, os meus filhos estavam quase a ir para a cama, e quando olho para eles viram-me a cara. A mãe, chegar ou não chegar, era-lhes completamente indiferente.”

Ouvir o corpo

A história de Joana Álvares, fundadora da plataforma de saúde e beleza Beautyst.pt faz todo o sentido numa altura em que falamos tanto do corpo como a nossa casa – sem ele nada somos. O assunto burnout está na ordem do dia, não porque seja algo de novo mas porque felizmente cada vez mais se fala abertamente do tema. E todas as pessoas que passaram por isso relatam que durante muito tempo ignoraram os sinais que o corpo lhes deu. A verdade é que o corpo começa por sussurrar, vai ‘falando’ cada vez mais alto até que, finalmente, grita de tal maneira que somos mesmo obrigados a ouvi-lo. Para Joana, foram mais ou menos dois anos, o tempo entre os sintomas e a decisão de que tinha de fazer alguma coisa.

“Comecei a ter falhas cognitivas, ao ponto de não me lembrar do nome da pessoa com quem trabalhava todos os dias, de me cruzar com o carteiro e de não me lembrar do meu número de porta… Acima de tudo, sentia-me muito triste. Chegava a casa do trabalho e só me apetecia deitar no sofá, já não conseguia ter uma conversa normal com a minha família, não tinha tempo e não tinha disponibilidade mental.”

Infelizmente, a história de Joana não é única. Nem as empresas por onde passou se destacam pela originalidade na conduta, numa altura em que se fala tanto e se faz tão pouco em relação ao bem-estar dos colaboradores. Como é que reagiu a sua empresa quando entrou de baixa? “Não quiseram saber. Foi como ‘ai não aguentas? há quem aguente!’” Assunto arrumado no balancete desumano corporativo.

Sucesso a quanto obrigas

Entrámos a meio deste filme, mas talvez seja melhor ‘puxar para trás’ a gravação. A primeira cena desta história poderia muito dar-se no momento em que Joana decide frequentar o curso de Arquitectura de Interiores, uma espécie de compromisso entre as ambições médicas dos pais (o pai era cardiologista) e a veia criativa da filha. Ou talvez devesse começar quando Joana termina a licenciatura na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, “na pior altura possível, em que houve uma queda brutal em termos de saídas profissionais”. Perante o cenário desolador de estágios não remunerados, foi desafiada a ir trabalhar para a indústria farmacêutica, onde começou por ocupar uma posição comercial, que consistia em visitar médicos e farmácias.

“Pensei, ‘isto não tem nada a ver comigo, vou ficar aqui uns meses’, mas não podia estar mais errada: adorei aquilo, atingia todos os objetivos que me eram propostos com uma perna às costas e gostava do desafio. Não tinha nada a ver com o que eu tinha estudado, não tinha glamour nenhum, mas os meus colegas de curso diziam-me que estava muito difícil na minha área.”

Foi ficando. Entretanto, conseguiu uma vaga na área de gestão de produto no marketing da empresa. “Tem uma componente criativa interessante, mesmo tratando-se de uma área muito legislada, as campanhas que vão para a rua, os materiais promocionais, tudo aquilo gritava design de comunicação, que era uma coisa que eu adorava.”

Apesar de tudo, Joana fala com entusiasmo dessa fase. “Lembro-me de uma das primeiras campanhas que criei, para uma pomada para nódoas negras há muito no mercado, fiquei muito feliz porque teve logo ali um boost em vendas.” Nessa altura, as condições eram muito apelativas na indústria farmacêutica. “Não tinha 30 anos e já tinha a minha casa, tinha uma autonomia que hoje os jovens, infelizmente, não têm.” Seguem-se vários ‘frames’ em áreas diferentes num percurso de superação constante. “Gostei imenso da área de biocirurgia porque me desafiou imenso. Apesar de estar no marketing, tinha de ir para o bloco operatório – tinha de saber como efetivamente funcionavam os dispositivos médicos que comunicava.” Com a ajuda do marido, médico reumatologista, que a ‘obrigou’ a ver inúmeros vídeos de cirurgias, o medo inicial de desmaiar transformou-se em adrenalina pura. “Ao princípio, levava um boião de Vicks para aplicar à volta do nariz, porque tinha medo de não aguentar o cheiro, mas passei a conseguir ver e a perceber tudo o que estavam a fazer.”

Sou mãe, e agora?

O que achava que seriam só uns meses transformou-se em 15 anos de trabalho árduo na indústria farmacêutica. E quando Joana decidiu ser mãe, aos desafios profissionais juntou os desafios da maternidade, que haveriam de chumbar todos os testes de compatibilidade. Os deadlines apertados, as viagens constantes, os horários, tornaram-se uma missão só possível à custa de muito sacrifício. “Tinha de estar na empresa às oito e meia, impreterivelmente – mesmo que caísse uma bomba em Lisboa –, os meus filhos eram muito pequenos e eu nunca conseguia levá-los à escola. Durante um período na minha vida era o meu marido que tinha de fazer tudo, com todas as questões que isso também levantava na profissão dele.

Sentia que estava a falhar, enquanto mãe, enquanto mulher, comigo mesma, tinha a sensação de que estava sempre a correr atrás do prejuízo. Foi muito duro, perguntava porque tinha de optar entre a minha profissão e a minha família…”

É uma fase

Voltamos à estrada onde Joana conduz com uma direta em cima e encontra um certo alívio na possibilidade de acabar tudo ali. “Foi aí que cheguei à conclusão que algo de muito errado se passava comigo. Na minha cabeça, a vida tinha-se transformado num pesadelo.”

Tenho de perguntar, apesar de achar que tenho boas probabilidades de já saber a resposta: porque não pediu ajuda, ninguém se apercebeu? Afinal, já andava a ansiolíticos para ir trabalhar, já não dormia bem há meses, acordava nauseada… Desta vez, Joana responde de acordo com as minhas expectativas. A explicação é simples e assustadoramente familiar, uma armadilha desta cultura de sucesso – ou melhor, da definição de sucesso que deixámos que nos impusessem: “Eu achava ‘toda a gente está assim, faz parte, a vida é mesmo assim, é uma fase, não me posso queixar, se toda a gente consegue eu também hei de conseguir’.”

A mãe foi a primeira pessoa com quem falou, ao pedir-lhe para a acompanhar a uma consulta com a médica de família. “Pedi-lhe para vir comigo porque  tinha medo de me esquecer daquilo que queria dizer.” E foi lavada em lágrimas, com dificuldades em articular um discurso coerente, que Joana recebeu o diagnóstico… com surpresa.

“Burnout, eu? Não era possível, ainda por cima na altura trabalhava na área do sistema nervoso central, eu sabia o que isso era, quais os sintomas, eu sabia o que podia causar o burnout, acompanhava de perto com uma colega que trabalhava especificamente com a depressão. Achava que simplesmente estava a passar por um momento mais difícil e que dali a uma semana estaria novamente a trabalhar.”

Tanto que Joana não baixou logo a guarda. “Na altura, não quis falar com ninguém sobre o assunto, achava que eu é que estava a falhar, não queria que soubessem que estava de baixa. Quando finalmente me abri com as minhas amigas, percebi que muitas estavam a passar pelo mesmo.”

Renascer

A Joana que tenho à frente, num belo dia de sol outonal, fala com eloquência e sem vestígios de tristeza nos olhos e no discurso. “Naquela altura, não me sentia viva, não tinha alegria, não sentia felicidade, paixão. Parecida que estava adormecida há anos!”  O caminho não foi logo evidente, só depois de algum trabalho interior é que Joana conseguiu sair da “penumbra”. A entrar nos 40, tinha de decidir que rumo dar à sua vida. As peças do puzzle foram-se encaixando para formar o que viria a ser o seu novo projeto, pessoal e profissional.

Número 1, Joana sempre teve um fraquinho pelo mundo digital, dos blogues, “gostava daquela partilha e estava sempre ansiosa por ler um novo post.”

Número 2, há anos que se correspondia com uma dezena de mulheres que conheceu num grupo de Facebook. Em comum, tinham o facto de sofrerem de alopecia (no final da adolescência Joana foi diagnosticada com alopecia androgenética, vulgo calvície). “Sabia que estas mulheres eram um reflexo do que acontece a milhares de outras no nosso país. Todas falavam da alopecia de uma forma angustiante e estava por dentro das soluções para lidar com o problema. Tinha o know-how pessoal e o da indústria farmacêutica.”

Número 3, Joana queria tornar a informação que tinha em algo “sexy e apelativo”, e para isso contava com a vertente estética que tinha apurado no curso de Arquitetura de Interiores. Estava assim montada a moldura do puzzle, faltava agora preenchê-lo com os detalhes operacionais. Começou por ‘recrutar’ o seu médico, o dermatologista especialista em cabelo Rui Oliveira Soares, que se mostrou logo interessado por ser uma área em que “existe muita contrainformação e em que muitos profissionais, não dominando o assunto, acabam por atrasar o diagnóstico”. Mas Joana depressa alargou o painel de especialistas, para incluir outros temas. “Quando fiz o meu plano de marketing, senti que podia aportar valor em mais áreas, como a dermatologia estética, cirurgia vascular, cirurgia plástica…”

Em maio de 2019 nascia o Beautyst.pt. “Faço curadoria desses temas e simultaneamente comecei a mostrar a minha experiência, o que funciona comigo, que soluções verdadeiramente diferenciadoras existem.” Joana tinha definido o limite de dois anos para perceber se esta podia ou não ser a sua nova profissão. Já lá vão três. “Achava que ia ser uma coisa mais low profile. As minhas expectativas foram superadas. O Beautyst trouxe para o mundo digital alguma frescura, seriedade e conteúdo científico.”

Uma vida a cores

Não foi propriamente fácil marcar um encontro com Joana. Ela anda ocupada, entre formações que faz nas mais variadas áreas, os conteúdos que cria para o site e outros eventos, a que vai e por vezes organiza. Mas conseguiu o equilíbrio que tanto desejava.

“Agora têm 13 e 10 anos, mas na altura do burnout os meus filhos eram pequeninos. Quando decidi que não voltava para a empresa, fiquei com muita disponibilidade, mental acima de tudo. A escola deles era ao pé de casa e comecei a levá-los a pé. Estava bom tempo, morava numa zona com muitas árvores e lembro-me de olhar para a Natureza e pensar ‘bolas, isto esteve aqui este tempo todo e eu nunca tinha reparado…’

”A vida de Joana deixou de ser só trabalho. “Percebi que ela não podia ter só uma dimensão, também tem de haver tempo para os amigos, a família, para exercício físico… Reuniões de pais, consultas com o pediatra, festas de anos, de repente eu estava lá! Eu queria fazer isso enquanto mãe e nunca tinha conseguido. Tudo o que vivi foi importante para chegar onde estou agora, mas é algo de que me quero descolar. O mundo era cinzento e passou a ter cor, é mesmo esta a sensação que tenho.”

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