Vera, Rodrigo e António (foto: @our.farm.and.us)

Um cenário idílico, aquele que Vera tinha atrás de si quando fizemos a entrevista por vídeo. E verdadeiro. O verde do campo açoriano, o azul-celeste do céu e ao longe o mar. De vez em quando, atrás de si, um cão a correr, uns minipigs elétricos atrás e um burro que passeava sem pressa, a apreciar o ambiente. Parecia um quadro vivo. Vera, gastroenterologista em Ponta Delgada, vive com o marido, Rodrigo, engenheiro industrial, e os filhos António e Manuel, numa quinta nos arredores da capital micaelense rodeada do carinho de animais domésticos e de quinta, que são tratados como família. É pelo nome que Vera se refere a eles, sempre com muita ternura, e quem conhece a sua conta de Instagram – our.farm.and.us – só pode ser invadida por emoções fortes e positivas. Depois de cinco minutos a ver um burro Tiago a abrir a janela da cozinha para uma criança lhe dar uma cenoura, a gata Mafaldinha a passear, a cabra Joana a usar o escorrega, os minipigs a correrem atrás dos cães e a rodopiarem sobre si próprios até caírem para o lado… é impossível não nos libertarmos de todas as emoções negativas que carregamos ao final do dia.

Com os Açores no coração
Vera nasceu em Ponta Delgada, onde viveu praticamente a vida toda, excepto o tempo em que esteve em Coimbra a tirar Medicina. A sua paixão pelos animais vem de longe, contam os seus pais que Vera andava sempre abraçada e a rolar pelo chão com os cães lá de casa. Ainda assim, na hora de escolher um curso universitário, preferiu a medicina humana porque “fazia-me muita confusão o sofrimento animal, o facto de não conseguirem transmitir a sua dor, pelo que optei por outra vertente”. Já namorava com Rodrigo, hoje seu marido, quando veio para o continente estudar. Aliás, vieram ambos, mas Rodrigo veio para Lisboa e Vera ficou em Coimbra. Mas nenhum pretendia ficar por cá, o objetivo sempre foi regressar à terra natal, por muito que tivessem gostado das cidades onde viveram. “Nesses anos, senti muito a falta da companhia de um animal de estimação, mas a minha rotina não permitia. No entanto, ia muitas vezes visitar o Rodrigo a Lisboa e ele, como também adora animais, tinha uma gata, uma iguana e uma papagaia no apartamento, por isso matava saudades dos bichinhos com elas.” Terminado o curso de Medicina, teve a felicidade de poder escolher a especialidade que preferia e estudar em casa, e assim foi, regressou a Ponta Delgada em 2010. A primeira coisa que fez foi arranjar um cão, a ‘salsicha’ Maggie. Em 2012 foi morar com Rodrigo e em 2013 casaram-se. António, o filho, nasce em 2017, e nessa altura já tinham mais dois cães, a Guga (que já faleceu) e o ‘salsicha’ Mac, herdado dos avós por ser um pouco indisciplinado… e só Vera é que tinha mão nele. Todos num apartamento com uma varanda gigante em Ponta Delgada. A necessidade de uma casa maior começou a ser pensada quando Vera engravidou, e foi aí que começou a procura. Condição sine qua non: um jardim grande. “Sempre que visitávamos as casas, começávamos pela parte de fora, se o jardim não fosse aquilo que pensávamos, não interessava ver lá dentro. Se calhar tínhamos as prioridades um bocadinho invertidas.” (risos)

Ano novo, casa nova
Esta chegou no princípio de 2020, mas o início da pandemia apanhou-os a meio da papelada e tudo demorou muito mais tempo, tanto que ainda nem a escritura estava feita e já se tinham perdido de amores por um burro do outro lado da ilha, de uma senhora que já não podia cuidar dele. Iam visitá-lo todos os fins de semana, e assim que a escritura se concretizou, foram logo buscá-lo e deixaram-no à solta no jardim, ainda a casa estava sem mobília. Era um prazer vê-lo a explorar o espaço em liberdade e a comer erva fresca. Chamava-se Santiago, mas como havia uma pessoa na família com esse nome, o pequeno António sugeriu Tiago e assim ficou. Pouco tempo depois, a casa foi mobilada e Tiago ganhou uma box para se abrigar, para onde vai dormir todos os dias voluntariamente, quando chega uma certa hora. “Era um animal dócil mas não se deixava tocar, era um pouco indomável, mas como tinha uma alergia nas patas, com muita paciência e persistência lá fomos conseguindo que ele confiasse em nós e nos deixasse tocar nas patas. Para ele éramos uns estranhos, por isso tínhamos de nos dar a conhecer para que confiasse em nós e isso foi acontecendo progressivamente e de forma natural. Às tantas, pensámos, ‘coitado, tem este espaço todo mas está sozinho’. Então um amigo arranjou-nos uma ovelha, a Deolinda, muito engraçada, que se afeiçoou logo ao António. São mesmo animais de rebanho porque ela seguia o António para todo o lado. Depois outro amigo convenceu-nos a ficar com um carneiro, o Bob. A minipig Peppa chegou mais tarde. Eu sempre lhes achei muita graça e um amigo nosso trouxe-nos uma porquinha, de outra ilha. Fiquei espantada com o tamanho dela, era tão pequenina que tive medo que fosse pisada involuntariamente pelos outros animais. Dei-lhe um sítio resguardado, mas ela sempre foi muito espertalhona e saltava de lá com facilidade para ir ter com o clã Tiago e Deolinda.” Aos poucos e com muita paciência, Vera e Rodrigo foram juntando mais animais à prole. Já lá vão 40, entre cabras, perus, galinhas, patas e coelhos também. Dão-se lindamente uns com os outros, e entre eles estão os filhos de Peppa e Jorge (outro minipig que entretanto chegou à quinta). “Deixei a Peppa ter uma ninhada porque adoro os porquinhos, mas estávamos à espera de 4 e vieram 8. Tive de dar 4 e foi muito complicado emocionalmente, porque quis arranjar donos responsáveis, que lhes dessem o amor que aqui tinham. Depois de uma busca incansável, consegui e estão muito bem. Os 4 que aqui ficaram fazem as delícias de todos nós. É engraçado como são limpos, parecem gatos, estão à vontade para estar em casa e nunca sujaram nada, e dão-se muito bem com os cães, aliás, como se vê pode ver nos vídeos, até dormem nas camas com eles”, ri Vera.

Uma conta que conta mil histórias
Vera começou a postar os vídeos dos dias na quinta na sua conta pessoal e o feedback foi tão positivo que, a conselho de amigos, criou uma conta só com as tropelias dos animais e a interação deles com a família, em particular com o pequeno António. Nunca pensou ter tantas pessoas a agradecer os vídeos, a contar como já não conseguiam passar o dia sem dar uma espreitadela para descontrairem e como isso lhes dava muita alegria. “É muito bom ver esse feedback, ainda me motiva mais. Faço-os ao final do dia, quando venho cansada do trabalho e preciso de descontrair. Nem ponho a mochila em casa, fico ali fora com o António e os animais a filmar a interação deles, dá logo para descomprimir.” Vera sempre gostou de filmar e editar vídeos, aliás, no seu trabalho como gastroenterologista aprende imensas técnicas endoscópicas e por isso junta o útil ao agradável.

Relações especiais
Quem vibra igualmente com a bicharada toda é António, “ele sempre participou muito e se envolveu em todos os processos, na educação dos animais, no tratar, delira com isto. Quando vamos de férias, fica cheio de saudades. Fomos passar uns dias fora, e ele volta-se para mim e diz ‘mãe, tenho tantas saudades dos meus animais!’. Adora participar em tudo e quanto mais complexa a tarefa melhor, adora tratar as feridas das patas do Tiago, pôr creme nos porquinhos, dar a medicação da anca ao Engenheiro… não é só brincar, é tratar, cuidar do bem-estar deles. Ele só tem 4 anos, mas é muito estimulado por esta vida, pela relação desinteressada de parte a parte, pelo carinho puro. Ele percebe a vulnerabilidade deles, que estão à nossa mercê, sabe que temos de respeitar todos, não só porque são maiores ou mais fortes, mas também os mais frágeis, e isso é um ensinamento muito grande”.


O bem que eles nos fazem
Vera e Rodrigo têm empregos muito exigentes, mas cuidar dos animais é uma terapia. “Acordamos às 7h, eu começo a trabalhar às 8h por isso preparo o António [Na altura da entrevista à ACTIVA, Vera ainda só tinha o filho António, entretanto, no final de 2022, nasceu o pequeno Manuel] mas o meu marido é que o leva à escola. Antes disso, o Rodrigo e o António tratam dos animais, alimentam-nos, dão água, a medicação a quem está doente, tratam das árvores de fruto… A terapia do Rodrigo é essa, pela manhã [risos], a minha é à tarde, na parte comportamental. Junto os animais uns com os outros, registo os vídeos, edito, escolho as músicas, é o meu escape do stresse do trabalho, das urgências, dos casos mais complicados. Vivemos vidas apressadas, concentrados no que vamos fazer a seguir, no que ficou por fazer, vivemos no passado ou no futuro, e eles vivem o presente e ensinam-nos a importância de sentir o momento presente. Há uma ilustração que mostra bem isto, que é de um homem que passeia o seu cão em direção a uma paisagem maravilhosa. O homem tem um balão de pensamento em que vimos só preocupações; o cão também tem um balão de pensamento que é precisamente a paisagem idílica que tem pela frente. Achamos que temos de lhes ensinar imenso, mas se calhar devíamos aprender mais com eles, e com os animais de quinta, porque também eles dão carinho, são seres sensíveis, transmitem muita serenidade e isso foi uma surpresa para nós, não estávamos à espera destas emoções deles, de serem uma fonte inesgotável de bem-estar e carinho. São o nosso porto seguro.”

Mais imagens do pequeno paraíso de Vera!

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