Cerimónia de entrega dos prémios da 36ª edição dos Prémios Dona Antónia

Céu azul. Os socalcos verdes e castanhos ajudam a pintar a paisagem e, nas videiras, adivinham-se os cachos de uvas que farão a vindima, dentro de poucos meses. Há 200 anos como hoje, o nome de Antónia Adelaide Ferreira ecoa nas margens do Douro. Dona de um espírito empreendedor e de inovação notável, herdou um negócio de vinho e vinhas, depois de se ter tornado viúva muito nova.

O impacto no Douro – vinhos e gentes incluídos – foi notado, contado e recontado. Um legado que, feito de histórias de coragem, empreendedorismo e humanismo, é celebrado todos os anos aquando do aniversário de Dona Antónia – a 4 de julho -, altura em que a Sogrape premeia mulheres que, pelo seu trabalho, envolvimento e impacto nas respectivas áreas de atuação, perpetuam os valores protagonizados pela “Ferreirinha”. A vista para o Douro compõe o ramalhete: estamos no coração da região onde Dona Antónia mudou o rumo das coisas. 

Criados em 1988, de forma a perpetuar o legado de coragem e espírito empreendedor de Antónia Adelaide Ferreira, a “Ferreirinha”, os Prémios Dona Antónia distinguem, anualmente, duas mulheres, reconhecendo-lhes o percurso extraordinário e o impacto no desenvolvimento económico, social e cultural em Portugal. A iniciativa faz parte do Seed the Future, que dá nome ao Programa Global de Sustentabilidade da maior empresa de vinhos portuguesa e que, entre outros objetivos, tem a intenção de impactar 100 mulheres por ano até 2027. Na edição deste ano, a jornalista Cândida Pinto e a investigadora Maria Nunes Pereira foram distinguidas nas categorias de Prémio Consagração de Carreira e Prémio Revelação, respetivamente.  

É este tipo de exemplos que queremos multiplicar na nossa sociedade, ainda mais num contexto em que não temos igualdade de género

Raquel Seabra, Administradora Executiva Sogrape

“Acredito muito no poder dos role models. Os prémios Dona Antónia têm, obviamente, o efeito de reconhecer estas duas mulheres mas também um efeito multiplicador porque, ao darmos visibilidade ao trabalho destas mulheres, estamos a inspirar muitas outras – ou desejamos que assim seja – a seguirem o exemplo das que premiamos aqui. Ambas são pessoas que fazem das adversidades, oportunidades. Têm resiliência, uma curiosidade muito grande sobre o mundo, e são pessoas que se preocupam com os que mais sofrem na nossa sociedade – seja por doença, no caso da Maria, seja por contexto de guerra, no caso da Cândida. É este tipo de exemplos que queremos multiplicar na nossa sociedade, ainda mais num contexto em que não temos igualdade de género”, sublinha Raquel Seabra, Administradora Executiva da Sogrape. 


Atribuído, ao longo dos últimos anos, a nomes como Maria João Avillez, Catarina Furtado, Isabel Gonçalves Furtado, Teodora Cardoso, Leonor Beleza e Joana Carneiro, entre muitas outras, os Prémios Dona Antónia premeiam mulheres com percursos extraordinários, tanto com carreiras consolidadas – Prémio Consagração de Carreira – como numa fase mais inicial – Prémio Revelação -, perpetuando o legado de Dona Antónia, através dos seus valores e do seu impacto nas respectivas áreas e regiões de atuação. 

“Estamos a falar de uma personagem feminina, que viveu há 200 anos numa zona muito agreste, em que eu imagino que a dominância masculina era total. Não vinha de uma família carenciada – tinha aí um bom suporte. De qualquer modo, não era suposto que uma pessoa com as características da Dona Antónia – do berço e da sua vida até casar – tivesse o comportamento que teve. Acho que é uma figura muito inspiradora”, começa por dizer Cândida Pinto, vencedora do Prémio Dona Antónia Consagração de Carreira. 



Criado no final dos anos 80, a Sogrape começou por atribuí-lo a apenas uma mulher por ano, tendo estendido a distinção a duas nas edições mais recentes. “Estes valores da valorização da mulher, do empoderamento, têm hoje um enquadramento diferente no trabalho que fazemos na Sogrape porque temos um programa formal de sustentabilidade que tem precisamente como objetivo a promoção de uma sociedade mais inclusiva.”, acrescenta Raquel Seabra. 

Para Maria Nunes Pereira, os últimos anos trouxeram “muito progresso” e abertura de espírito nas diferentes áreas da sociedade. “Dona Antónia foi única na sua época; hoje vivemos tempos em que há várias Donas Antónias, exemplos a seguir, e onde esta capacidade de liderança no feminino, em diferentes áreas, sejam sociais, políticas, científicas, são, sem dúvida, óbvias”, assinala a vencedora do Prémio Dona Antónia Revelação. Ainda assim, admite, há um caminho longo pela frente. “Se olharmos para os cargos de topo, ainda há bastante trabalho a fazer. É nossa responsabilidade coletiva, sem dúvida, darmos o exemplo e exigirmos que as coisas continuem a mudar e que haja esse progresso. Não ter medo de fazer ouvir a nossa voz, e isso não é falar mais alto: é ser curioso, ter presença e audácia, querer saber como as coisas funcionam, tentar ter um assento na mesa para realmente haver mudança.”



Com uma história distinta da vivida por Dona Antónia no Douro, Cândida Pinto confessa reconhecer-se nalgumas características da duriense. “O meu percurso é muito diferente do dela. Eventualmente, eu tenho um bocadinho das coisas que ela teve para se cumprir nestas terras difíceis: determinação, um olhar global para todos – a sociedade, a parte empresarial e para quem está em situação mais vulnerável. Acho que é um pouco o que me tem guiado na vida: tentar ter um olhar global para as várias componentes de qualquer sociedade. Manter um olho nas áreas dominantes, sem nunca esquecer as áreas dominadas e as dificuldades que essas áreas humanas muitas vezes têm”, sublinha.

Refletir no trabalho que Dona Antónia fez e pensar no contexto em que ela viveu é, sem dúvida, uma inspiração

MARIA NUNES PEREIRA, VENCEDORA PRÉMIO REVELAÇÃO

Surpreendida com a atribuição do prémio, Cândida Pinto prepara-se para recomeçar: muda-se agora para os Estados Unidos da América, onde viverá nos próximos dois anos. “A primeira questão é ter paixão por aquilo que se faz. Ter curiosidade, querer saber porque funciona assim e não de outra maneira, ter esse ímpeto de ir até aos sítios. Hoje, a maior parte da informação chega-nos pelo ecrã, é bidimensional, e é-nos dada em pequenas porções. Não tem nada a ver com ir aos sítios. Eu gosto de testemunhar diretamente os acontecimentos, por mais complexos e difíceis que eles sejam”, sublinha. 

“Refletir no trabalho que Dona Antónia fez e pensar no contexto em que ela viveu é, sem dúvida, uma inspiração para não nos esquecermos que não é só o imediato, o agora, que interessa. Pensar no impacto das pequenas coisas a longo prazo é muito importante.”, afirma Maria Nunes Pereira. 

 Um erro, numa mulher, é um erro; num homem é uma pequena falha

CÂNDIDA PINTO, VENCEDORA PRÉMIO CONSAGRAÇÃO DE CARREIRA

E se, há 200 anos, “Ferreirinha” teve os seus desafios, Cândida Pinto assegura que alguns se mantêm, mesmo que nada se mantenha igual. “Os desafios estão sempre presentes porque as coisas estão em permanente mudança: tenho já 30 anos de profissão e de experiência, as pessoas podem pensar que são favas contadas, mas não são: eu parto para qualquer sítio com as mesmas borboletas no estômago da primeira vez, porque os cenários são diferentes, a tecnologia muda tudo, o relacionamento entre as pessoas é distinto… Acho que a Dona Antónia continua a ser absolutamente inspiradora. Continuo a achar que é importante porque não podemos pensar que as mulheres, seja no mundo ocidental ou não, estão em igualdade com os homens. As mulheres continuam a ter de provar mais, têm de trabalhar mais: um erro, numa mulher, é um erro; num homem é uma pequena falha. Portanto, esta é uma missão que não está terminada”, sublinha a jornalista.   

Vale a pena saber mais sobre os Prémios Dona Antónia e conhecer todas as vencedoras desde a primeira edição.


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