
Como o reino da filosofia é infinito, propus à professora Alexandra Abranches que me falasse sobre o tempo. A ideia de tempo sempre nos angustiou, em grande medida devido à nossa própria morte. Somos seres finitos: mas o que fazemos com o tempo que nos é dado? Afinal, é feito de quê? Se as estações mudam, se envelhecemos e morremos, como é que podemos dizer que o tempo não existe? Nada disto é tão simples como podíamos pensar.
Podemos começar com uma frase que roubei já não sei a quem: ‘Tem 15 minutos para me convencer que o tempo não existe’ (risos)
O problema é que o tempo tem muitas dimensões, não é aquela entidade que o senso comum nos diz que é a mesma para toda a gente. Aliás, o tempo é um daqueles problemas filosóficos em que temos a noção de que não há respostas, há tentativas de resposta ao longo da História. Os gregos, para começar, tinham um problema muito grande com a realidade, que tinha de obedecer a um ideal. Mas a grande maioria da nossa experiência real não é perfeita. Não há um gato perfeito, por exemplo. O problema fundamental era o movimento: perceber que uma coisa num momento passa a ser outra num momento seguinte, era muito estranho.
Então como é que resolveram o problema?
Resolveram simplesmente negar a existência da mudança. Por exemplo, os sucessores de Parménides achavam que o ser era uno e imutável e não existia nada, nem tempo nem mudança, para lá desse ser perfeito. Já Aristóteles estava mais interessado no real e menos no irreal. O grande objetivo era compreender como é que a mudança era possível.
Já havia a ideia de que a realidade é uma ilusão?
A ideia de que aquilo que existe esconde aquilo que realmente existe apareceu muito cedo, o que é estranho. E esta forma de olhar para a realidade como ilusão combinou-se a certa altura com o Cristianismo e apareceu a ideia de eternidade. Ao longo da filosofia medieval, Deus veio tapar muitos buracos, inclusive o do tempo. A ideia de dividir o tempo em passado, presente e futuro parece resolver a questão, mas cria outros problemas: o que é cada uma dessas coisas? O presente nunca existe, o passado já não existe e o futuro ainda não existe. Logo, o tempo não existe e estamos num beco sem saída.
E como é que saímos?
Quando começa a idade moderna, nos séculos XVI e XVII, a filosofia liberta-se da religião e surge uma forma científica de investigar a realidade que já não é metafísica. A ciência aplica a linguagem matemática àquilo que pode ser observado, ficando num plano que toda a gente possa replicar e provar os fenómenos. Newton, por exemplo achava que o tempo era uma entidade objetiva absoluta. E o lado cético da filosofia perde um bocadinho de gás.
Porque é que pessoas como Platão tiveram problemas com o tempo?
Porque interpretaram a realidade como um conjunto de entidades que não mudam, e esqueceram-se que há outras realidades que se transformam. Então a linha divide-se entre pessoas que dizem que o temo é objetivo e existe independentemente de nós, e outros que acham que o tempo não é objetivo, é a forma como experimentamos a realidade.
Isso na vida de todos os dias traduz-se como?
Quando dizemos ‘amanhã à tarde vamos jogar futebol’, o ‘amanhã à tarde’ são duas coisas: convenção social e prática, e a experiência subjetiva desse tempo. Para mim, por exemplo, esse seria um tempo penosamente aborrecido e lento. O que Einstein veio fazer com a teoria da relatividade foi dizer que passado, presente e futuro existem simultaneamente. Nós humanos somos temporais, nascemos e morremos, mas a ‘verdadeira’ realidade é o que está para alem da realidade imediata, e é eterna. Nós temos muita dificuldade em imaginar o que é ser sem tempo, mas essa não é a dimensão temporal de coisas como a divindade, por exemplo. É como aquelas pessoas que dizem que vamos para o céu tocar harpa, ou seja, acham que vamos para o céu ter tempo para encher com qualquer coisa (risos).
Portanto, começou-se a perceber que havia bons argumentos para um lado e para o outro…
Sim. No século XIX, quando Kant declarou que a metafísica não valia a pena, Hegel e Marx acreditavam no tempo, mas era um tempo entendido em tempos históricos, constantemente em transformação. No sec XX, para Sartre, o tempo é o que nós fazemos dele, e para Foucault o tempo é uma construção social, e tem dimensões autoritárias e controladoras. Por exemplo, uma escola é um instrumento ao serviço do poder para dominar as pessoas. Não é por acaso que as escolas têm horários e campainhas.
Bem visto… Mas desde então o tempo não parou de acelerar, não foi?
Sim. Por isso costumo dizer que devia ser muito estranho para alguém do século XVIII vir parar ao século XXI. A partir do momento em que começou a industrialização, com estradas e combóios, tudo aquilo que levava imenso tempo, passa a ser ou imediato ou muito rápido. E o dia nunca mais voltou a ser tão pacato como já foi: ficou partido em bocadinhos e passámos a ter de o encher de várias maneiras. Antes do capitalismo, as pessoas trabalhavam, claro, mas por exemplo na Idade Média havia imensos períodos de pausa e ocasiões festivas. Hoje, a maneira como usamos o tempo passou a ser uma preocupação absolutamente central, que tem muito a ver com as redes sociais.
Pode explicar melhor?
Quando eu era pequena, a maioria das pessoas tinha uma ideia do que queria fazer: casar, ter filhos, arranjar uma profissão, etc. Agora, temos uma intensificação da comparação: olhamos para os outros e depois para nós, e em vez de termos etapas para cumprir, temos quase a obrigação de estar constantemente a atualizar a nossa existência pela maneira como as redes sociais apresentam estas pessoas. Algumas pessoas da minha idade ainda têm memória de uma infância com tempo para descansar, sonhar, fazer bolos com a avó. A impressão que eu tenho é que agora a infância se tornou cada vez mais rápida e cheia de pequenas etapas que é preciso ir cumprindo. Há coisas estranhíssimas como cerimónias de finalistas nos infantários! As pessoas acham que se não fizerem a coisa X no tempo Y, a sua vida já perdeu o sentido.
Isto é muito angustiante principalmente para as mulheres, não é?
Tal qual, porque a carreira também é uma forma de organização do tempo extremamente violenta, uma forma também de acelerar a competição.
Por isso é que ao mesmo tempo aparecem aquelas práticas de relaxamento como o mindfulness?
Mas veja: mesmo o mindfulness é vendido como mais uma coisa que temos de comprar e aprender, ou seja, é ainda mais ansiedade de performance, mais uma coisa que temos de fazer para sermos perfeitas.
Como nos libertamos disto?
Se eu fosse marxista, explodiamos o capitalismo e a realidade acabaria por se organizar da forma que cada um quisesse. Mas isto é bastante arriscado. De repente, percebemos que a História não é assim tão previsível, que a democracia não é tão garantida, e todos nós estamos um bocado preocupados com o que vai acontecer a seguir.