Escritora, autora digital e mãe de três, confessa que a maternidade teria sido mais fácil se tivesse percebido mais cedo que as outras mulheres gostam de ajudar. Aqui se falou também de desafios, humor, emoções, e das figuras tristes que os filhos nos fazem passar.

Qual é para si o maior desafio de ser mãe?

As minhas filhas têm 14, 12 e 8 anos, e o mais desafiante é conseguir estar lá para as três de maneiras diferentes. Quero ajudar e dar resposta, mas são as três tão diferentes que essa resposta também tem de ser diferente. Aprendi muito com elas. Aprendi que pintar as unhas é uma forma de empoderamento e que as riscas vão bem com bolas, mas também o significado do amor incondicional. Sei que isto é um cliché, mas de facto é um amor que não se parece com nenhum outro. E também aprendi que existe uma Catarina antes das crianças e uma Catarina depois das crianças.

Que é que mudou?

Mudou acima de tudo a forma como olho para as coisas, porque quando somos mães com aquela criança também nasce o medo. É como o amor, achamos que já o conhecemos e afinal não. É um medo que vai mudando consoante a idade delas. Quando são bebés, é o medo de caírem, baterem com a cabeça ou magoarem-se. Depois, temos medo que sofram bullying na escola. E mais tarde, temos receio dos mundos que se escondem na Internet. Portanto, o medo vai tendo muitos rostos.

Qual é a maior diferença entre ser mãe agora e no tempo dos nossos pais?

No tempo dos nossos pais, a maior dificudade era que eles próprios não tinham sido educados para preparar crianças. Uma mãe estava orientada para as tarefas de casa, não para nós. Nós simplesmente estávamos lá. Não me lembro de a minha mãe se sentar connosco no chão a brincar ou a ler um livro. Nós tinhamos televisão e não havia mais nada. Hoje, é mais difícil educar um filho porque a nossa prioridade são as crianças, não é a casa nem as refeições. E depois, há muita coisa que nós não controlamos, que vem da Internet e das redes sociais. Às vezes diz-se que não sabemos como é que a geração de 80 chegou viva aos dias de hoje. Ora nós não tinhamos cinto de segurança nos carros mas os carros andavam mais devagar, comíamos mais açúcar mas mexiamo-nos mais, ou seja, tudo vai sendo adaptado conforme as dificuldades.

O que é mais difícil de gerir?

Acho muito honestamente que esta coisa dos ecrans é o mais difícil de gerir. As mais velhas têm conta no Instagram mas é fechada, só aceitam pessoas que conhecem. O que eu faço é estabelecer um tempo limite de ecrans e espreitar o que estão a ver. Sei quem elas seguem, por exemplo. Já aconteceu uma delas andar a seguir uma rapariga que dava conselhos muito negativos em relação à alimentação, incentivando as miúdas a serem muito magras. Eu disse-lhe – Olha, estive a ver esta página e acho que há lá coisas muito erradas. Ela respondeu-me: – Sei isso perfeitamente, só a sigo porque ela escolhe coisas giras para vestir e eu gosto de ver.

Ficou mais descansada…

Fiquei, mas continua a ser preciso algum cuidado, porque se uma pessoa segue todos os dias alguém que dá maus conselhos, alguma coisa há-de ficar… Também lhes disse logo que invasão de privacidade em crianças não existe, porque eu tenho de conseguir protegê-las. Elas sabem sempre que eu mexo no telemóvel delas, porque lhes peço para ver. Mas deixam sempre sem problema, o que me descansa muito. Mesmo elas às vezes vêm comentar que deixaram de seguir alguém por causa de alguma coisa que não gostamos. Elas também partilham mais connosco porque sabem que nós trabalhamos com redes sociais e por isso estamos mais atentos.

Mães e pais hoje em dia têm de aprender a ser mães e pais de outra maneira, é isso?

Tal qual. Os filhos ensinam-nos isso: que é preciso aprender a ser mãe. E é uma aprendizagem que nunca acaba, é um curso que nunca fica tirado (risos). Não sei se estou a fazer um bom trabalho, mas há outras duas coisas que também me ensinaram: a estar atenta e estar presente. Também tento ser muito honesta com elas, mesmo em relação às emoções. Se estou mais chateada um dia, digo que estou chateada, se estou cansada ou triste queixo-me, porque as mães não têm de estar sempre bem e ninguém tem de ser perfeito. Digo-lhes muitas vezes: há coisas que vocês me perguntam e a que eu não sei responder.

Que outras coisas aprendeu com as suas filhas?

Também me ensinaram que o humor ajuda muito. Ajuda na relação com os filhos e na relação de casal. Quando se tem filhos, é a nossa equipa contra a equipa delas (risos) e portanto as duas relações correm melhor se houver humor e ironia, porque retiram peso a situaçoes difíceis sem as desvalorizar. No caso delas o humor já faz parte do ADN. A maioria das pessoas associa o meu humor aofacto de o Raminhos ser humorista, mas na milha família, apesar da educação free style, havia muito sentido de humor, mesmo na forma de dizer as coisas. Por exemplo, se uma crítica for feita de forma irónica, magoa muito menos.

O humor é uma arma?

É, e é uma arma que os pais usam pouco. E noto que as minhas filhas mesmo entre elas são divertidas, o que ajuda muito principalmente a gerir situações mais complicadas. Elas são peritas em nos fazer rir mas também já nos fizeram passar vergonhas. Já aconteceu uma delas dizer em público um palavrão que em casa nunca dizemos, eu muito atrapalhada dizer – Não faço ideia do que isso quer dizer – e ela imediatamente: – Então pergunta ao pai, que ele de vez em quando diz (risos).

O que gostaria de partilhar com outras mães?

Se forem mães de primeira viagem, dizia-lhes para escutarem muito mais a sua intuição do que os conselhos de mães, sogras, avós ou tias. O que é que eu na verdade acho sobre isto? Ouça-se a si, não às ‘treinadoras de bancada’. Ah, e peça ajuda. Há muita gente que pode ajudar, e eu percebi isto muito tarde. E não apenas quando a pessoa acaba de ser mãe, mas em todos os momentos da vida de uma criança. Eu fui a primeira do meu núcleo de amigas a ter filhos, e achava que tinha de fazer tudo sozinha. Muito mais tarde é que percebi que elas só não ofereceram ajuda porque não queriam ser intrusivas. Mas as mulheres gostam de se ajudar umas às outras. Aceite essa ajuda, peça essa ajuda, não tem de carregar o fardo inteiro sozinha.

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