Durante dez anos, José Velosa foi diretor do serviço de Gastrenterologia e Hepatologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte, sendo hoje presidente da Associação para Investigação e Desenvolvimento da Faculdade de Medicina (AIDFM). Como investigador, tem-se dedicado principalmente ao estudo da hepatite vírica e do carcinoma hepatocelular, tendo publicado agora o livro “Conversas com o Fígado – Conhecer, prevenir e cuidar”. A propósito deste lançamento, José Velosa falou com a ACTIVA online sobre a importância do fígado e o impacto que estas épocas festivas têm neste órgão.

O fígado é um órgão particularmente importante para a nossa saúde. Na generalidade, as pessoas têm noção dessa importância?

As pessoas valorizam mais o fígado nas situações de doença. Se excetuarmos as crises da litíase biliar (pedras na vesícula), que são extremamente dolorosas e podem acompanhar-se de icterícia, no geral as doenças hepáticas cursam até as fases terminais silenciosamente, não fora as alterações laboratoriais. Não há muito tempo o país foi surpreendido por uma “epidemia” de hepatite fulminante em crianças, de causa desconhecida. Os médicos, sobretudo os especialistas da área, ficaram com a impressão de que a população não revelou sinais de preocupação, apesar de a hepatite fulminante ser uma situação extremamente grave, com uma mortalidade superior a 50% nos melhores centros hospitalares. Teriam, certamente, dado mais valor a uma epidemia de meningite que, em regra, não é tão ominosa. Outro exemplo: a cirrose, a manter-se activo o agente agressor, comporta para o portador um risco de vida que não é muito diferente do cancro; mas os doentes e as famílias não encaram as duas situações da mesma maneira.

Quais são as funções do fígado, ao certo?

O fígado produz todas as proteínas do nosso organismo. Por exemplo, se ocorrer um défice de produção de uma proteína envolvida no processo de coagulação do sangue, corremos o risco de morrer por exsanguinação. Os exemplos são incontáveis – como viver sem albumina? Impossível! Mas o fígado tem outras funções muito importantes; desde logo de destoxificação, isto é, a “limpeza” das substâncias que são maléficas para o nosso organismo, e que chegam ao fígado vindas sobretudo do intestino; a sua grande abundância em células imunológicas, faz do fígado um importante órgão imunitário – retém não só as bactérias que entram pelo intestino, mas também as que são veiculadas pela circulação; produz a bilirrubina e os sais biliares, essenciais para a digestão das gorduras da dieta; armazena as vitaminas e o glicogénio, que transforma em glicose, a energia vital do nosso organismo.

De que forma o fígado pode ser afetado com os excessos destas quadras festivas?

Se o indivíduo for saudável e os excessos limitados, pouco ou nenhum mal advirá para o fígado; mas se as transgressões persistirem ou ocorrerem na presença de um fígado doente, as consequências podem ser funestas. Estamos, obviamente, a falar do consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de alimentos com elevado teor de açúcar, logo muito calóricos; especialmente de alimentos com baixo valor nutritivo, mas que contribuem para a obesidade e para a deposição de gordura nas células do fígado. O metabolismo do álcool provoca, por sua vez, inflamação – a via para a formação da temível fibrose (cicatrizes).

O que se deve fazer depois de um período de excessos alimentares para ajudar o fígado?

Retomar rapidamente uma dieta leve, com redução do teor calórico, vitaminas e exercício físico, como, por exemplo, caminhadas. Se o excesso for alcoólico, no imediato pode ser útil a hidratação com água, chá ou sumos (não é por acaso que na Antiguidade os gregos tinham por hábito desdobrar o vinho com água em cerca de metade do volume) e tomar café. As vitaminas B1 e B6 poderão ajudar na estabilização do metabolismo celular. A toma de um antiácido é útil para aliviar a irritação da mucosa gástrica causada pelo álcool. Não existe evidência científica para a toma de antioxidantes e dos chamados “protetores” do fígado.

Um fígado que não está saudável dá sinais?

Depende do tipo de doença hepática. Algumas doenças autoimunes, como por exemplo a colangite biliar primária e a hepatite autoimune, podem apresentar sintomas muito tempo antes de se apresentarem clinicamente – o prurido (comichão) no primeiro caso; ou o aparecimento de doenças associadas, em ambas. Tirando estas raras doenças, no geral, pode-se dizer que a doença hepática se caracteriza pela ausência de sintomas até que sobrevenha a cirrose. Um exame médico cuidadoso pode revelar a presença de certos sinais – cutâneos, oculares, ou abdominais – de doença hepática crónica.

A doença hepática como “doença silenciosa” ganhou recentemente protagonismo em Portugal com a polémica à volta do tratamento antivírico da hepatite C. Esta doença é completamente assintomática até que surgem as dramáticas complicações da cirrose, nomeadamente o cancro.

Há crenças associadas a este órgão que não são corretas?

Os mitos, ou crenças, ocupam muito do imaginário popular sobre o fígado. Mas… ou não fossem mitos!… têm pouca ou nenhuma correspondência com a realidade. Desde logo os “maus fígados” – temperamento colérico ou irrascível – não tem, obviamente, nada a ver com o órgão. Pelo contrário, as alterações de comportamento e os estados confusionais que ocorrem nas fases avançadas da cirrose caracterizam-se pela bonomia. Por outro lado, a agressividade e as alucinações, do delirium tremens, são um efeito associado ao álcool e não à cirrose. As lamuriosas “crises de figadeira” são perturbações dispépticas às quais o fígado é alheio. Porventura, os mitos mais inconsequentes sejam o efeito pernicioso das laranjas e do café sobre o fígado. Não têm qualquer justificação científica, sendo, pelo contrário, benéficos para o fígado. Tão-pouco, as manchas na face ou a descamação da pele da palma das mãos são sinais de doença hepática crónica.

O seu novo livro serve, precisamente, para desmistificar potenciais informações erróneas que possam perdurar entre as pessoas?

Conversas com o Fígado, das Edições LIDEL, como o próprio nome indica, é um diálogo com o doente e a sua família. O livro destina-se a esclarecer as dúvidas e a transmitir conselhos que, por falta de tempo ou oportunidade, não são convenientemente abordados numa consulta; além de, naturalmente, transmitir dados históricos sobre a doença, explicar o seu mecanismo, facultar ferramentas de controlo e bem-estar, desfazer mitos relacionados com a dieta e com o tratamento da doença e, em particular, prevenir as complicações. Nestas diversas vertentes são comuns os conceitos errados, muitas vezes profundamente arreigados na tradição popular. Como tal, o livro pretende contribuir para a literacia em saúde, porque humildemente reconheço que é preciso mais do que uma geração para eliminar conceitos incorretos.

Quando percebeu que era premente escrever um livro com esta temática?

Sempre que referia a um doente (numa consulta não se fala só de doença…) que estava eminente a publicação do meu livro Hepatologia Clínica, havia da parte do doente ou familiares, o desejo de adquiri-lo. Contrariava essa intenção com o argumento de que se tratava de um livro para médicos; mas percebi de imediato que havia uma necessidade: um livro para os doentes e familiares, que abordasse de forma rigorosa e tão científica quanto possível as incidências e minudências da doença hepática e, simultaneamente, lhes facultasse uma visão abrangente de um órgão tão fascinante como o fígado.

Partindo da sua experiência enquanto médico especialista nesta área, o que considera que tem de mudar para haver, também, uma maior consciência pessoal sobre este tema?

Existe, da parte dos médicos, a tendência para considerar que a nossa área de conhecimento é a mais importante e que se deve sobrepor a todas as outras. Não é essa a minha opinião. Julgo que todas são importantes. Aliás, nota-se na população uma evolução positiva no conhecimento das doenças, dos meios de diagnóstico e dos novos tratamentos. O conhecimento evolui muito rapidamente e renova-se constantemente, de maneira que serão necessários programas, artigos, debates, etc., especificamente dirigidos ao público. Neste contexto, as escolas e a televisão desempenham um papel insubstituível.

Relativamente ao fígado, nunca é demais insistir no efeito nocivo do álcool, e no risco que a cirrose representa para a saúde tendo em atenção o seu carácter irreversível. A este propósito é preciso denunciar as práticas perigosas como, por exemplo, a reincidência no binge drinking, tão comum nos jovens, a ingestão permanente de bebidas alcoólicas e, especialmente, o hábito de beber fora das refeições.

É necessário promover a eliminação da hepatite C, que passa não só pelo tratamento de todos os portadores (incluindo migrantes), mas também por promover medidas de higiene no consumo de drogas injetáveis; prevenir a obesidade, divulgando o risco e regulando o consumo de alimentos ricos em gorduras e hidratos de carbono sem valor nutritivo; difundir o conhecimento das doenças metabólicas hereditárias que afetam a população portuguesa; regular a comercialização de “produtos naturais”, suplementos e extratos de plantas, cujo controlo deveria passar para o âmbito do Infarmed. Convocar a população para estas medidas teria um grande impacto na prevalência das doenças hepáticas.

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