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Cerca de 10% da população portuguesa sofre de doenças da tiroide. E até terem algum problema, muitas pessoas não sabem da existência desta superpoderosa glândula. Essa foi uma das razões que levou a endocrinologista Inês Sapinho a escrever o livro ‘Os segredos da sua tiroide: conheça as doenças que afetam mais de um milhão de portugueses’. E, segundo a coordenadora do Serviço de Endocrinologia e da Unidade da Tiroide do Hospital Cuf Descobertas, as que mais afetam as mulheres são o hipotiroidismo e os nódulos da tiroide. As doenças tiroideias são, aliás, mais frequentes nas mulheres do que nos homens.Com uma forma que se assemelha a uma borboleta, a tiroide localiza-se na base do pescoço, logo abaixo da laringe, e é constituída por dois lobos laterais, que se encontram nos dois lados da traqueia e são unidos por uma porção estreita de tecido chamada istmo. Numa situação normal, a glândula da tiroide não é percetível nem palpável no pescoço.

É uma glândula endócrina, ou seja, liberta hormonas diretamente para a corrente sanguínea: a triiodotironina (T3) e a tetraiodotironina (T4 ou tiroxina), que atuam em quase todas as células do organismo. “De uma forma simplificada, podemos afirmar que as hormonas tiroideias regulam a velocidade de funcionamento das células, garantindo o equilíbrio do organismo”, explica Inês Sapinho. Esta glândula é controlada pela glândula hipofisária (no cérebro), que é fundamental para estimular e regular a tiroide, e pelo hipotálamo, que por sua vez controla a hipófise. Por exemplo, se os níveis de hormonas tirodeias estiverem em baixo, o hipotálamo produz a hormona estimuladora de tirotrofina (TRH), o que vai fazer com a hipófise produza mais tiroestimulina (TSH), que, por sua vez, estimula a tiroide a produzir mais hormona tiroideia. Se alguma coisa falhar nesta espécie de cadeia de comando, temos então um problema.
“A presença de recetores de hormona tiroideia em virtualmente todos os tecidos de organismo demonstra o seu papel vital. As hormonas tiroideias provocam o aumento das reações metabólicas em praticamente todos os tecidos do organismo. Se pensarmos no nosso corpo como um carro, ao adicionarmos mais hormona tiroideia é como se carregássemos no acelerador e aumentássemos a sua velocidade”, explica Inês Sapinho. As hormonas tiroideias têm efeitos no metabolismo dos hidratos de carbono (açúcares), dos lípidos (gorduras) e das proteínas e no consumo de oxigénio, na produção de calor e formação de radicais livres (que podem levar à morte celular e ao envelhecimento precoce). Tem por isso impacto na nossa frequência cardíaca e respiratória, pressão arterial, no funcionamento do intestino, na memória, concentração e humor, nos ciclos menstruais e fertilidade e no crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes. 
Conheça as causas, sintomas e tratamentos de três das doenças da tiroide mais comuns.

Hipotiroidismo

Caracteriza-se pela baixa produção ou ação das hormonas tiroideias e tem como consequência a lentificação das funções do organismo. Considera-se primária quando tem origem na tiroide, mas também pode ter origem na hipófise e no hipotálamo. “O hipotiroidismo primário é a doença mais comum da tiroide e corresponde a 95% dos casos de todos os hipotiroidismos. As mulheres são cinco a oito vezes mais afetadas que os homens, aumentando a incidência com o aumento da idade”, diz Inês Sapinho.

Causas: A tiroidite de Hashimoto é responsável por cerca de 70% dos hipotiroidismos em áreas com iodo suficiente. Já na doença de Graves, onde prevalece o hipertiroidismo, o hipotiroidismo pode surgir na fase final. Entre as causas comuns está a terapia com iodo radioativo para o hipertiroidismo, alguns fármacos e a radioterapia externa da cabeça e do pescoço. As cirurgias de remoção da glândula, tal como a suspensão de medicação com hormona tiroideia são responsáveis pelo aparecimento do hipotiroidismo, nestes casos de forma abrupta. “Realço que o carcinoma da tiroide habitualmente não causa hipotiroidismo.”

Sintomas: “As manifestações clínicas do hipotiroidismo são muito variáveis, dependendo da idade de início, da duração e da severidade da doença tiroideia”, explica a endocrinologista. No hipotiroidismo primário, há quase sempre uma evolução gradual da doença, o que a torna mais tolerável para os pacientes. Entre os principais sintomas está o cansaço, a intolerância ao frio, aumento de peso, alterações de memória, obstipação, atraso no crescimento, pele seca, rouquidão, dores musculares, dor nas articulações, edema, depressão e irregularidades menstruais.

Diagnóstico: Mediante suspeita, são realizadas análises clínicas. Começa-se por pedir o doseamento da TSH e, se esta estiver alterada, repete-se e é feito um estudo mais completo da função da tiroide. TSH elevada e FT4 baixa confirmam o diagnóstico de hipotiroidismo. Uma FT4 normal indica o que se chama de hipotiroidismo subclínico – em que a tiroide ainda consegue produzir hormona tiroideia suficiente se estimulada por níveis elevados de TSH.

Tratamento: “Na maioria dos casos, o hipotiroidismo é permanente e o tratamento deve ser feito ao longo da vida, consistindo na toma de levotiroxina em dose única diária”, explica Inês Sapinho. O controle laboratorial é feito quatro a seis semanas depois, para avaliar a resposta ao tratamento e repetida até o paciente atingir a dose de manutenção. A função tiroideia é reavaliada a cada seis ou doze meses. Os efeitos da levotiroxina são raros, mas esta não é a única boa notícia: “Entre as doenças endócrinas, poucas apresentam uma resposta tão favorável ao tratamento quanto o hipotiroidismo. Habitualmente, observa-se uma regressão completa ou uma melhoria acentuada das manifestações clínicas da doença.”

Hipertiroidismo

Cinco vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens, refere-se a um quadro de hiperatividade da tiroide, resultando na tireotoxicose, isto é, no excesso de hormonas tiroideias no sangue.

Causas: A principal causa do hipertiroidismo é a doença autoimune de Graves, que, por sua vez, pode ser desencadeada por fatores como o stress e o excesso de iodo. Outras das causas são os chamados nódulos tóxicos, em que as células foliculares sintetizam a hormona de forma autónoma, alguns fármacos como o iodo ou ricos em iodo, e o tratamento excessivo do hipotiroidismo. As tiroidites, que resultam da inflamação da tiroide, também podem causar uma libertação excessiva da hormona.

Sintomas: Algumas manifestações estão ligadas à causa mais do que ao hipertiroidismo em si, como no caso da Doença de Graves, que pode apresentar uma sintomatologia específica, como prurido na pele, manchas de despigmentação, queda de cabelo significativa ou a oftalmopatia. Já no que refere aos sintomas do hipertiroidismo, um muito comum é a retração palpebral, que resulta no chamado ‘olhar arregalado’. A nível cardíaco, o aumento da frequência cardíaca e da tensão arterial são também habituais. Os efeitos no sistema respiratório podem manifestar-se através do aumento da frequência respiratória, do enfraquecimento dos músculos respiratórios, que reduz a tolerância ao exercício, da obstrução da traqueia por parte de um bócio volumoso ou do agravamento de uma condição de asma preexistente. A perda de peso é a manifestação gastrointestinal mais comum. Outros sintomas incluem o aumento da frequência urinária, alterações menstruais, dores musculares, alterações comportamentais e de personalidade, insónias, tremor fino das extremidades, diminuição do colesterol ‘bom’ (HDL) e aumento do açúcar no sangue.

Diagnóstico: “Mais uma vez, a inespecificidade da maioria dos sinais e sintomas pode levar ao atraso do diagnóstico.” Inês Sapinho afirma ser muito comum as pessoas procurarem várias especialidades antes de finalmente marcarem consulta de endocrinologia. Para confirmar qualquer tipo de suspeita, as análises clínicas são determinantes. O doseamento de TSH, tal como no hipotiroidismo, marca o início do processo. No hipertiroidismo primário os pacientes apresentam a TSH baixa, os níveis de FT4 e/ou FT3 podem estar aumentados ou apresentar valores normais (hipertiroidismo subclínico).

Tratamento: “Deve ter em conta vários fatores, a sua causa, a gravidade do quadro clínico, a idade, as doenças associadas e o desejo de engravidar a curto e médio prazo”, explica a endocrinologista. O tratamento passa por medicação para controlar as palpitações e tremores (betabloqueantes). Quanto à doença de Graves, os fármacos antitiroideus, o iodo radioativo e a cirurgia são as opções disponíveis. O iodo radioativo, a par com a cirurgia, é também usado no tratamento dos nódulos tóxicos ou bócios multinodulares tóxicos.

Nódulos na tiroide

No exame de imagem, aparece uma lesão, ou várias no caso de bócio multinodular, que se destaca da glândula. São, na sua grande maioria, benignos, apresentando malignidade em apenas 4 a 6,5% dos casos. São muito comuns no sexo feminino. “Em 94% dos casos, os nódulos ocorrem nas mulheres.”

Causas: Não havendo uma causa isolada, são vários os fatores que contribuem para um risco acrescido, entre eles a idade avançada, uma história familiar de nódulos na tiroide, gravidez, deficiência de iodo e radiação prévia da cabeça e do pescoço.

Sintomas: Sendo a maioria dos nódulos assintomáticos, podem surgir alterações de voz, rouquidão, tosse irritativa e dificuldade em respirar e em comer. O paciente só sentirá dor em situações agudas. “Está habitualmente associada a uma hemorragia intranodular, com crescimento rápido do nódulo.” Não é o mais comum, mas os nódulos também podem estar associados ao hiper ou hipotiroidismo.

Diagnóstico: O médico realizará uma palpação cervical, através da qual poderá avaliar as características do nódulo – tamanho, mobilidade, consistência e sensibilidade – e detetar potenciais gânglios cervicais. O doseamento da TSH através de análises clínicas é obrigatório: se o valor for baixo, uma cintigrafia poderá confirmar (ou não) a presença de um nódulo hiperfuncionante. “Se se confirmar a funcionalidade do nódulo, trata-se muito provavelmente de um nódulo benigno e não necessita citologia. No caso da TSH ser normal ou elevada e o nódulo ter critérios de suspeição, deverá ser submetido a uma Citologia Aspirativa de Agulha Fina (CAAF).” A ecografia vai permitir avaliar as características dos nódulos e da tiroide e procurar indícios de malignidade, como microcalcificações, margens irregulares, nódulo sólido, hipoecogénico, com perda de halo periférico e gânglios regionais. Trata-se apenas de indícios porque os achados ecográficos não permitem distinguir com toda a certeza as lesões benignas das malignas. “A ecografia serve como guia para decidir e orientar procedimentos de diagnóstico (como a citologia) e terapêuticos (como a aspiração de quistos) e, obviamente, para a monitorização dos nódulos ao longo do tempo. “A citologia aspirativa de agulha fina, de um modo geral, deve ser realizada em nódulos maiores do que 1-1,5cm, com características ecográficas de suspeição e/ou história clínica de risco, exceto se se tratar de um nódulo funcionante.”

Tratamento: Um nódulo com menos de 3,5-4cm e CAAF benigna requer uma vigilância periódica, a ecografia deve ser repetida entre 6 e 12 meses após a citologia e as análises devem ser repetidas para detetar possíveis disfunções da tiroide. A cirurgia está indicada em casos como nódulos benignos com mais de 4cm, CAAf maligna, nódulos tóxicos e bócios compressivos.

‘Os segredos da sua tiroide’, Inês Sapinho (Manuscrito)

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