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No site da Harvard Health podemos ler: “Dor, especialmente a dor crónica, é um estado emocional assim como uma sensação física. É uma experiência complexa que afeta o pensamento, o humor e comportamento e que pode conduzir a um estado de isolamento, imobilidade e dependência de medicamentos. A relação com a depressão é muito próxima. A dor leva a depressão e a depressão causa e intensifica a dor. Pessoas com dor crónica têm 3 vezes mais probabilidade de vir a sofrer de depressão e ansiedade.” São pacientes que à primeira vista não parecem doentes, muitos põem a sua máscara social de normalidade, escondendo assim que vivem em dor permanentemente. Para nos ajudar a compreender melhor o que é a dor crónica, e como ela pode afligir tão substancialmente a vida das pessoas que por ela são afetadas, fomos falar com a médica Ana Pedro, anestesiologista e especialista em Medicina da Dor. 



1. O que é considerado dor crónica?

Dor crónica é definida por apresentar duração superior a 3 meses, pode ser subclassificada em primária ou secundária. Classificamos como primária se se caracterizar por um quadro clínico de dor e sofrimento emocional, sem outro diagnóstico que esclareça a existência de dor crónica. Já a secundária acompanha uma condição subjacente, por exemplo relacionada com cancro, com o pós-operatório ou pós-traumática, dor crónica neuropática, entre outras.
A dor crónica é uma doença arrastada no tempo que afeta a globalidade do indivíduo e se acompanha de um conjunto de manifestações físicas, psicológicas e comportamentais, com impacto em todas as esferas da vida de quem dela sofre. O tratamento da dor crónica não se limita à doença que esteve na sua origem (muitas vezes nem sequer é uma doença possível de tratar), devendo englobar também o tratamento das múltiplas manifestações a que deu lugar.
A European Federation of Pain (EFIC) refere, já em 2001, que a dor crónica ao persistir para além da cura da lesão que lhe deu origem, ou na impossibilidade de objetivação de lesão, deve ser encarada como uma doença. Além disso, a dor crónica está contemplada na International Classification of Diseases (ICD-11), adoptada pela Organização Mundial de Saúde em maio de 2019. Esta é a primeira versão da ICD que inclui a dor crónica.

2. Como é que sei que tenho dor crónica e qual é o primeiro passo que devo tomar
para tentar resolver a minha situação?

Se, tal como disse antes, a dor persistir por mais de 3 meses ou perdurar para além da cura da lesão que esteve na sua origem, o primeiro passo será sempre consultar o seu médico de família, que coordenará o diagnóstico e terapêutica a realizar, eventualmente referenciando para outro nível de cuidados de saúde, quando for adequado.

3. Que dores crónicas mais assolam a população feminina?

Entre os tipos de dor que afetam as mulheres e têm um impacto global significativo destaca-se a fibromialgia, caracterizada por dor crónica generalizada, em que 80 a 90% dos casos diagnosticados são mulheres. Lombalgia, artrite reumatoide, osteoartrite, disfunção da articulação temporomandibular, dor ginecológica e cefaleias são também muito prevalentes no sexo feminino.

4. As mulheres são mais vulneráveis à dor crónica?

Digamos que as mulheres tendem a ter dores mais recorrentes, intensas e duradouras do que os homens, sobretudo devido ao facto de estarem associadas a condições ou doenças que são também mais frequentes nas mulheres.

5. A menopausa e a perimenopausa podem desencadear dor crónica?

As alterações hormonais relacionadas com a menopausa podem intensificar situações de dor crónica preexistente. A dor crónica associada à osteoporose e suas consequências também é mais frequente nas mulheres após a menopausa.

6. Há crianças com dor crónica?

Sim, claro, pode afetar crianças, tal como afeta os adultos. Nestas, a dor crónica pode estar relacionada com neoplasias (cancros), drepanocitose (anemia de células falciformes), doenças reumáticas, doenças congénitas e cefaleias (dores de cabeça), entre outras…

7. E há idades em que é maior a prevalência?

A prevalência vai aumentando com a idade, sendo mais frequente no idoso.

8. Que impacto pode ter no dia a dia das pessoas?

A dor pode condicionar parte ou mesmo a totalidade da vida diária do doente, com impacto na sua funcionalidade, emoções, bem-estar psicológico, relações familiares, pessoais e, claro, no campo profissional também. A dor é responsável por uma elevada taxa de absentismo laboral e reformas antecipadas. Os custos diretos (sobretudo hospitalização) e indiretos (benefícios sociais) dos cuidados de saúde associados à dor são elevados. Em Portugal, em 2010, considerando apenas a lombalgia, os custos foram estimados em 738,85 milhões de euros, 280,95 milhões de euros por absentismo temporário e 458,90 milhões de euros por reformas antecipadas e outras formas de não participação no mercado de trabalho. A dor crónica afeta mais pessoas e tem um impacto mais significativo do que a diabetes, doenças cardíacas ou cancro.

9. É algo que pode ser tratado? De que forma?

O doente com dor crónica deve ser avaliado como um todo. Isto implica a avaliação não só da dor, mas também do impacto funcional, emocional, psicológico, familiar e laboral, entre outros, estabelecendo um plano terapêutico muitas vezes multidisciplinar, adequado a cada doente específico. Como se depreende, nem sempre é suficiente a prescrição apenas de medicamentos.

10. Todas as formas de dor crónica são passíveis de ser controladas?

Dependendo da patologia/doença responsável pela dor, pode ser mais ou menos difícil controlar a dor, sendo a crónica primária e a dor neuropática as que representam o maior desafio.


11. Uma melhoria no estilo de vida pode ter impacto na gestão da dor crónica?

A dor pode ser prevenida, sobretudo a dor músculo-esquelética, através da adoção de hábitos de vida saudáveis, como seja a prática regular de exercício físico, utilização de posturas adequadas e controlo do excesso de peso, medidas estas que também contribuem para um melhor controlo da dor depois de ter surgido.
Importa referir que o segredo do sucesso no tratamento da dor reside na capacidade de o doente se motivar e superar as adversidades, particularmente quando a dor deixa marcas profundas e persistentes ao longo da vida.

12. Há desconhecimento por parte das pessoas de que é possível gerir a dor ou até eliminá-la?

A crença de que a dor faz parte do envelhecimento do ser humano ou que é uma inevitabilidade associada ao cancro faz com que muitas vezes os doentes subvalorizem a necessidade do seu tratamento. Apenas a educação da população para a dor permitirá quebrar os mitos e crenças que lhe estão associados, sobretudo a nível do seu tratamento.

13. A dor crónica pode surgir na sequência de uma pequena cirurgia?

Sim, qualquer cirurgia, por muito pequena que seja, pode gerar dor crónica. As cirurgias que envolvem amputação, toracotomia (cirurgia torácica), mastectomia, de tratamento de hérnia inguinal e cesarianas são as que mais frequentemente se associam a dor crónica pós-operatória.

14. De que forma é que essa dor pode ser controlada?

Tratar a dor crónica, independentemente da sua causa, é um desafio constante e tem por objetivo não só a melhoria do quadro de dor – muitas vezes a ausência de dor não é possível – mas também facultar ao doente a máxima utilização das suas capacidades funcionais e o retorno à sua vida social e/ou profissional. A terapêutica deve ser abrangente, com recurso a técnicas farmacológicas e não farmacológicas, assim como terapia de cariz psicológico, de acordo com as necessidades do doente.

15. Tem um grande impacto a nível psicológico?

Sim, a dor crónica tem um impacto negativo significativo na vida da pessoa, muito para além do sofrimento físico que lhe causa. A diminuição na qualidade de vida é observada em diferentes vertentes: pessoal (tendência à depressão, insónia, desespero), social (isolamento, alteração nas relações de amizade), laboral (muitas vezes com incapacidade para realizar as tarefas profissionais). Desta forma, as pessoas com dor crónica devem ser avaliadas por um profissional de saúde mental sempre que se justifique, de modo a minimizar o impacto da dor na sua qualidade de vida. E não podemos esquecer que há substâncias químicas no cérebro, como a serotonina e a noradrenalina, que são mediadores implicados tanto na depressão como na dor. Por este motivo podem ser prescritos medicamentos antidepressivos para tratar determinados tipos de dor. Sabemos também que as pessoas deprimidas são mais vulneráveis à dor.
Há pouco tempo esteve na Unidade de Dor uma doente com esclerose múltipla e dor crónica que conseguiu complementar o seu tratamento com medidas não farmacológicas, nomeadamente meditação, alongamentos e atividade física, com grande retorno de sensação de bem-estar e capacidade de controlo da dor.

16. Essa dor crónica pode ser psicossomática? Há uns anos, a fibromialgia era desvalorizada por alguns profissionais…

De acordo com a ICD 11, a mais recente classificação das doenças, a fibromialgia é considerada um tipo de dor crónica primária generalizada. Deve evitar-se a adoção de estereótipos que são prejudiciais para os doentes, sobretudo quando a compreensão científica da doença ainda é incompleta, como é o caso.

17. Há mulheres que dizem que as suas queixas não são levadas a sério. Isto ainda acontece com frequência pela sua experiência em consultório?

A dor é uma experiência individual e subjetiva e até ao momento não existe um “marcador biológico” para a sua existência, sendo nossa obrigação acreditar na experiência que o doente nos reporta, mesmo quando não a conseguimos objetivar por exames complementares.
Muitas vezes a falta de se conseguir objetivar a causa da dor leva a que existam crenças e mitos em relação à mesma, tanto na população como nos profissionais de saúde. Quanto à população, a educação para a dor é a única forma de os combatermos e em relação aos profissionais de saúde a formação é essencial para aumentar o conhecimento, devendo o profissional de saúde evitar fazer juízos de valor em relação às queixas do doente. A desvalorização da experiência de dor perante o doente, seja pelos seus familiares, colegas de trabalho ou profissionais de saúde, contribui para o aumento da angústia e outros sentimentos com carga negativa, que em si também vão contribuir para agravar a dor.

18. Há casos em que não se consegue ou é muito difícil melhorar a qualidade de vida dessa pessoa?

Sim, infelizmente todos os profissionais de saúde se deparam com situações clínicas muito complexas, em que nem sempre conseguimos atingir todos os objetivos a que nos propomos, por múltiplas razões. O mais importante é continuarmos a trabalhar para melhorar a qualidade de vida do maior número possível de pessoas.

19. No caso da covid 19, há pessoas que tenham sido infetadas com o Sars-Cov 2 e que tenham ficado com dor crónica?

Muitos dos doentes infetados com formas graves de covid 19 sujeitos a internamento prolongado, especialmente com intubação e ventilação em cuidados intensivos, ficaram com várias sequelas, entre elas a dor crónica associada sobretudo à imobilidade.
Muitos doentes com dor crónica preexistente e que foram infetados com covid 19 tiveram agravamento da sua dor.

20. Em relação a Portugal, sabe-se a percentagem da população nacional que sofre desta doença e quais são as mais comuns?

Em Portugal, cerca de 37%da população adulta sofre de dor crónica e, sendo uma doença que diminui significativamente a qualidade de vida das pessoas, com custos e limitações pessoais, familiares e laborais, é um verdadeiro problema de saúde pública. Na população em geral a lombalgia (dor lombar), com ou sem irradiação aos membros inferiores, é a principal causa de dor, seguida da cervicalgia (dor cervical). As doenças osteoarticulares degenerativas(quer a nível da coluna quer a níveldas articulações) são também importantes causas de dor.

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