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Afinal, para que serve a dor? Sim, porque ela não existe apenas para nos tornar os dias num inferno. “Distinguimos dois tipos de dores: a dor aguda e crónica. A primeira chama-nos a atenção de que algo não está bem no nosso corpo, obriga-nos a procurar cuidados médicos e a evitar as agressões”, explica o médico anestesista José Romão, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED). “É um alarme muito útil para a sobrevivência. Quando a dor persiste para além da cura da lesão que lhe deu origem, ou quando não conseguimos descortinar nenhuma causa para ela, estamos perante dor crónica. Já não é um sinal de alarme mas uma doença. Ainda hoje não sabemos qual a sua utilidade biológica.” Existe até uma doença rara e congénita em que os seus portadores sofrem de falta de sensibilidade à dor. E por isso têm uma longevidade curta.


Agora a Ciência confirma aquilo de que já suspeitávamos há muito tempo: as mulheres sentem mais dor física que os homens, de uma forma mais intensa e por períodos mais prolongados.


Mulher sofre!…

“Há uma dor no feminino e outra no masculino”, diz José Romão. “O género interfere no modo como a dor é sentida. Para isso contribuem causas de ordem anatómica – o homem não tem útero ou menstruação, não engravida -, hormonal e até social, já que ao longo da vida, vamos aprendendo a lidar com a experiência da dor.” Mais: o nosso patamar de tolerância à dor também é menor.

As diferenças são de tal maneira acentuadas que levaram a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) a declarar o ano passado (entre Outubro de 2007 e Outubro de 2008) Ano Global de Combate à Dor na Mulher. Os estudos feitos neste campo ainda são recentes mas as evidências científicas são cada vez maiores: se a dor não é unissexo, não será tempo de termos uma intervenção diferenciada no que respeita ao seu alívio?

Como a Natureza é muito generosa connosco, temos o ‘privilégio’ de contar com experiências únicas de dor que os homens nunca conhecerão. As dores relacionadas com a menstruação chegam mesmo a incapacitar-nos naqueles primeiros e críticos dias de ciclo. Segundo a IASP, uma em cada cinco adolescentes faltam às aulas devido a dores menstruais fortes – dismenorreia, condição da qual se pensa que sofram entre 40% e 90% das mulheres. Quinze por cento descreve a sua menstruação como sendo extremamente dolorosa, sobretudo adolescentes e jovens adultas.

Depois existe a nossa condição de mães: para além das dores fortes de parto serem sentidas em 95% dos partos, 45% das grávidas queixa-se de dores lombares ou na bacia durante a gestação, segundo dados da IASP. O pós-parto é doloroso para uma em cada quatro novas mães. As dores pélvicas não relacionadas com o ciclo menstrual também são comuns: endometriose, infecções ginecológicas ou síndrome da bexiga irritável. Nos EUA, 15% das mulheres em idade fértil confirmam sofrer deste tipo de problemas, segundo a IASP.


A culpa é das hormonas?

O estrogénio comanda metade das nossas vidas, sobretudo a parte reprodutiva e sexual, bem como todas as doenças e dores daí advindas. “Sabe-se hoje que o estrogénio facilita a experiência da dor”, diz-nos José Romão. Alguns investigadores pensam que, pelo facto de ser estimulado pelas dores do ciclo menstrual, todos os meses, o sistema nervoso feminino possa ser mais receptivo à dor. “Parece haver, na mulher, um terreno propício a que a dor se perpetue e coexista em mais do que uma local e com mais de uma causa”, confirma José Romão. “Mas há ainda muita coisa para descobrir neste sentido.”

Talvez por isso, não seja estranho que muitos dos tipos de dor mais frequentes na mulher se relacionem com órgãos que são comandados pela sua acção. “Entre os tipos de dor crónica mais frequentes na mulher destacam-se as que estão ligadas a cancros ginecológicos – colo do útero, endométrio e mama”, aponta José Romão. “Mas há outras patologias não ginecológicas que, sem ainda sabermos porque são mais prevalentes na mulher, como a fibromialgia, as cefaleias (dores de cabeça) e sobretudo a enxaqueca. Há oscilações na prevalência da dor ao longo do ciclo menstrual, mas também ao longo da vida da mulher. A dor pélvica é mais prevalente em jovens do que em mulheres com mais idade. Mas outros tipos de dores aumentam, como as que estão relacionadas com o envelhecimento natural, como é o caso das artroses, por exemplo. O corpo humano não está preparado para viver tanto tempo.”

Dor crónica afecta-nos mais

As mulheres são mais atreitas a sentir a dor de forma mais recorrente e permanente. “A definição de dor crónica é polémica mas o que mais ou menos aceite na comunidade científica, é aquela que persiste para além da cura da lesão, entre três e seis meses”, explica José Romão. O impacto do mal-estar permanente ou recorrente nas emoções também tem de ser levado em conta: a dor crónica mergulha a doente em estados de stress, ansiedade e depressão quadros que, por si, agravam ainda mais a sensibilidade à dor na mulher, por facilitarem a contracção muscular.

No entanto, a nossa familiaridade com a dor e maior facilidade em exteriorizá-la não nos garante terapias mais adequadas e um maior alívio, como descobriu uma pesquisa do Instituto Karolinska, na Suécia, sobre artrite reumatóide. Mesmo depois começarem a ser medicadas, as mulheres não deixavam de sentir dores fortes, ao contrário do que aconteceu com os homens estudados. “Sabe-se que a resposta aos analgésicos é diferente, entre homens e nas mulheres, bem como os efeitos colaterais deles decorrentes”, observa José Romão, da APED. “Há uma resposta menor a estes fármacos por parte das mulheres. Isto significa que, se calhar, é preciso repensar não só as doses administradas, como até os tipos de fármacos usados para nos tratar. Talvez no futuro venhamos a ter fármacos para homens e para mulheres porque a dor não é unisexo.”


O papel das emoções

A dor não se sente só na carne; os seus efeitos também interferem connosco a nível psicológico e até social… mas isso não significa que metade do que dizemos sentir seja inventado.

Pesquisas recentes dizem que, se submetermos um homem e uma mulher com o mesmo tipo de dor, a um exame de ressonância magnética, as partes do cérebro reagem a ela de forma diferentes. Nas mulheres os primeiros sinais são enviados para a zona que trata das emoções. Falar da dor é socialmente aceite nas mulheres mas muito menos nos homens. Até a nível cultural há diferenças: uma oriental será sempre muito mais contida na manifestação dos seus mal-estares do que uma ocidental. Até mesmo na Europa, as diferenças se fazem sentir de Norte para Sul, onde somos mais expansivos. “Dizemos que é um fenómeno bio-psicossocial. Há sempre um fundamento físico mas também emocional: é um fenómeno desagradável, que gera em nós sentimentos de aversão, e quando prolongado, pode levar à depressão e ansiedade, situações muito comuns em pessoas como a dor crónica.”

Mas nem todos os que deveriam estar preparados para lidar com esta vertente emocional, o estão na verdade. “Mesmo nos serviços de saúde há um clima instituído de desvalorização da dor”, observa o presidente da APED. “Este é um factor de que muitas pessoas que sentem dor se queixam, sobretudo as mulheres. Há muito ainda aquela ideia do ‘Coitada… é histérica, está a fazer fita’. É uma ideia presente em alguns profissionais de saúde que tentamos combater diariamente.”

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