O impacto da atrofia cerebral na vida das pessoas que vivem com Esclerose Múltipla e a importância de aumentar as reservas cognitivas
A estimulação cognitiva leva a mudanças e melhorias nas relações interpessoais, na autoconfiança e na saúde
Foto Pexels/ Monstera

A atrofia cerebral é caracterizada pela diminuição da massa cinzenta, causada pela morte parcial dos neurónios, que assim vai condicionar a capacidade do cérebro de executar as suas atividades do dia a dia e trazer dificuldades que poderão ser sentidas tanto a nível motor quanto a nível cognitivo.

Nas pessoas portadoras de Esclerose Múltipla (EM) a atrofia cerebral é muito comum e os estudos realizados indicam cada vez mais que pode ocorrer durante todo o curso da doença e estar relacionada com o agravamento de alguns dos sintomas, tais como o aparecimento de deficits cognitivos e motores. No entanto, ainda não se consegue definir o motivo pelo qual o processo de atrofia cerebral é mais acelerado nas pessoas com EM. Uma das razões apontadas é o processo inflamatório da doença, que causa a destruição da mielina e que, ao ser destruída pelas células do sistema imunitário, as torna disfuncionais e provoca lesão no tecido cerebral e a morte das células cerebrais, contribuindo assim para a atrofia cerebral. O declínio cognitivo ocorre entre 40-60% dos casos e são os pacientes do sexo masculino que apresentam uma maior vulnerabilidade.

A atrofia cerebral tem um grande impacto na vida das pessoas com EM, pois está relacionada com alguns dos seus sintomas, nomeadamente a fadiga, as alterações na marcha, na visão, no equilíbrio, nas capacidades cognitivas e da fala e, por isso, interfere nas atividades do dia a dia, tais como fazer compras, passar a ferro, lavar, cozinhar, conduzir ou até caminhar.
 
Ao nível das funções cognitivas, a presença de atrofia cerebral, afeta vários domínios como a capacidade de concentração, a velocidade de processamento, a memória, a linguagem, o raciocínio, a compreensão, a perceção, entre outros. O bem-estar emocional é também afetado pela atrofia cerebral e, como se não bastasse, o desequilíbrio emocional interfere negativamente com a nossa capacidade cognitiva. A depressão e a cognição parecem estar interligadas. Os pacientes deprimidos com EM apresentam menor desempenho cognitivo, sobretudo ao nível da memória de trabalho e velocidade de processamento da informação. A ansiedade também parece agravar as dificuldades cognitivas, afetando de igual forma a velocidade de processamento. A fadiga pode afetar tanto as atividades físicas como as cognitivas, sendo outro fator que contribui para a diminuição da velocidade de processamento.

Assim, a reabilitação cognitiva surge como indispensável. Através da reabilitação cognitiva é possível restaurar o funcionamento cognitivo, ou pelo menos ensinar as pessoas a utilizar estratégias compensatórias no sentido de atenuar os efeitos deletérios do declínio cognitivo melhorando a qualidade de vida.
Sabe-se que o cérebro, perante as lesões provocadas pela Esclerose Múltipla, tem capacidade se adaptar e moldar, procurando diferentes formas de compensar as lesões, através da exposição a novas experiência, aprendizagens e estimulação. Chama-se a este processo ‘neuroplasticidade’.

Tendo em conta o pressuposto da neuroplasticidade, é possível criar programas de reabilitação cognitiva individualizados, que permitam recuperar funções diminuídas ou perdidas.
A reabilitação cognitiva inclui programas computorizados de estimulação cognitiva, a utilização de livros didáticos, o uso de agendas, cadernos e calendários, entre outros. Além da estimulação, outras opções são possíveis, nomeadamente o exercício físico e as intervenções farmacológicas.

Independentemente de todo este trabalho, vale lembrar que o ideal é aumentarmos a nossa reserva cognitiva ao longo de toda a nossa vida. Tem-se vindo a perceber que pessoas com maior reserva cognitiva conseguem diminuir o impacto dos sintomas provenientes das alterações cerebrais degenerativas associadas à EM. A reserva cognitiva pode explicar o facto de duas pessoas com o mesmo nível lesões cerebrais terem sintomas diferentes.

Atualmente acredita-se que as reservas cognitivas podem ser aumentadas e mantidas, mantendo o cérebro ativo. A manutenção da atividade cerebral, a ocupação, o exercício e a socialização, a aprendizagem de novas coisas como uma nova língua ou um instrumento musical, estimulam o cérebro e contribuem para aumentar as reservas cognitivas. A estimulação cognitiva leva a mudanças e melhorias nas relações interpessoais, na autoconfiança e na autoperceção do estado de saúde. Pelo contrário, as situações de depressão e inatividade podem ser aspetos negativos para a manutenção da reserva cognitiva.

Carolina Trindade | Psicóloga da SPEM (Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla)
Carla João Venenno | Terapeuta Ocupacional / Diretora Técnica do CACI da SPEM

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a ACTIVA nem espelham o seu posicionamento editorial.

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