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A obesidade no mundo triplicou desde 1975, sendo atualmente nos EUA a segunda causa de morte evitável, estando prestes a ultrapassar o tabagismo. Portugal é o terceiro país europeu (avaliados pela OCDE) com maior número de pessoas com obesidade. A razão pela qual a obesidade se tornou uma epidemia global, prende-se com a fácil disponibilidade de alimentos de elevado teor de açúcar e gordura, do estilo de vida essencialmente sedentário e da genética que herdámos dos nossos antepassados de sobrevivência, ou seja, de poupança de energia. Sabemos hoje que a genética tem um impacto de cerca de 70% no desenvolvimento da doença, centrada no cérebro e fortemente influenciada pelo ambiente, dito “obesigenico”.

Ainda assim, a obesidade continua a ser desvalorizada e associada a um conjunto de estigmas e preconceitos que impedem o seu tratamento, comprometendo as gerações atuais e futuras. Se por um lado, o excesso de peso se associa a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, a treze tipos diferentes de cancro, também alterações hormonais e processos degenerativos têm impacto na fertilidade.

O risco de infertilidade em mulheres em idade fértil que sofrem de obesidade aumenta em 78%. Sabemos que a obesidade pode afetar negativamente a fertilidade das mulheres através de distúrbios menstruais e ovulatórios. Tais distúrbios incluem a síndrome dos ovários poliqísticos (SOP), a causa mais comum de infertilidade feminina, que afeta 6% a 10% das mulheres em idade fértil. Mulheres que sofrem de excesso de peso também têm maior probabilidade de sofrer gravidezes não evolutivas e complicações, como hipertensão e diabetes gestacional, associando se também a doenças que se podem manifestar-se mais tarde na infância.

É fundamental desmistificar que a obesidade apenas afeta as mulheres no que toca à fertilidade. Nos homens, associa-se a baixos níveis de testosterona, disfunção erétil, assim como má qualidade do sémen — diminuição do número de espermatozoides e a uma proporção maior de espermatozoides anómalos. Apesar disso, as expectativas e pressões sociais relativamente ao peso são diferentes para homens e mulheres. As mulheres enfrentam muitas vezes um estigma mais forte em relação ao excesso de peso e obesidade, com grande impacto na autoestima e na autoimagem corporal.

Os profissionais de saúde devem estar cientes dos riscos da obesidade para a fertilidade e fornecer orientações claras e apoio emocional aos casais que enfrentam esse desafio.

Em primeiro lugar é necessário esclarecer que a obesidade é uma doença real que afeta mulheres e homens e que em ambos os géneros afeta a sua fertilidade. Por outro lado, é necessário desconstruir o estigma que associa as pessoas com sobrecarga ponderal a pessoa sem força de vontade, com preguiça, que não se interessa pela sua saúde ou que não tem autocontrolo. Estes tipos de estigmas acabam muitas vezes por serem interiorizados pelos doentes que se culpabilizam e responsabilizam-se pela doença, sendo um obstáculo ao seu tratamento.

É necessário divulgar que nos últimos anos a ciência trouxe-nos muito mais informação relativamente aos genes associados aos mecanismos de saciedade e de fome, e sensibilizar a população que não se trata de uma questão de simplesmente “comer menos e exercitar-se mais”.

Há então quatro mensagens para casa que gostaria de deixar:

  1. A obesidade é uma doença crónica, recidivante e progressiva que deve ser encarada como uma condição médica real e requer tratamento, à semelhança de outras condições crónicas, como a hipertensão ou a asma.

  2. A obesidade exerce uma influência significativa na fertilidade feminina e masculina. Consciencialização, apoio médico e educação são fundamentais na abordagem da doença, tendo em conta as perspetivas de género e a colaboração entre parceiros.

  3. Treat Obesity First. Ou seja, tratar primeiro a obesidade, levando a que um conjunto de doenças entre em remissão, favorecendo vários aspetos da saúde em geral, incluindo a fertilidade.

  4. A mensagem mais importante é que o tratamento para a obesidade existe, está disponível e funciona. Temos disponíveis tratamentos médicos que, alicerçados na mudança de hábitos de vida, com aconselhamento sobre nutrição e atividade física, irão com certeza fazer toda a diferença.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a ACTIVA nem espelham o seu posicionamento editorial.

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