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wundervisuals

*artigo publicado na revista ACTIVA de julho de 2018

E ntão, em que língua é que falam um com o outro?”, deve ser a pergunta que mais ouvem os casais mistos, isto é, onde cada um fala uma língua diferente. Há muitos portugueses casados com estrangeiros, mas ‘estrangeiros’ que falam a nossa língua: brasileiros, cabo-verdianos, angolanos… Mas quando se tem uma relação com alguém que fala alguma coisa definitivamente não portuguesa, esse é mais um desafio a juntar a todos os que se atravessam no caminho de qualquer casamento. Ou talvez o que se fala não interessa nada e a linguagem do amor é universal.
“Não é fácil namorar numa língua estrangeira”, admite Júlia Mateus, há sete anos casada com um sueco. “Eu gosto muito de trocadilhos e da malícia típica portuguesa. O meu marido foi aprendendo português, mas começou pelo português, digamos, corrente, e eu sou do Norte (risos). Na primeira vez em que ele aterrou no Porto, já ia doutorado em palavrões portugueses. E usa com muita graça expressões como ‘Estou feito ao bife!’ ou ‘Abre os olhos, pá!’ (risos)
A verdade é que Júlia fala sueco muito melhor do que o marido fala português, mas a viver em Estocolmo também tem de fazer pela vida. E além disso já ‘treina’ há mais tempo: quando conheceu Sven já levava um ano e meio de Suécia. De Suécia, mas não de suecos: as diferenças culturais rapidamente se revelaram mais impeditivas que a barreira da língua. “Aqui, o conceito de flirt e de abordagem espontânea não é tão natural como num país latino.” E algumas amigas aconselharam: se quiseres conhecer um sueco procura um site de encontros online. Foi o que fez, e ficou impressionada com o ‘profissionalismo’ do processo. “Eles levam mesmo aquilo a sério, é pior que concorrer a um emprego. Respondi a 100 perguntas. Personalidade, valores, referências, o que é que procurava. Eles não brincam em serviço. Era uma abordagem um bocado estranha mas bastante pragmática, e a verdade é que funcionou (risos).”

83% compatíveis

Sven foi a terceira pessoa que apareceu a Júlia. “Recebíamos notificações a informar-nos dos perfis compatíveis, e o Sven tinha uma compatibilidade de 83% comigo.”
Os encontros eram um bocado estranhos, recorda, rindo. “Era tudo muito seco e os dois primeiros encontros não foram nada de especial, mas o terceiro bateu mesmo certo.” Prolongaram os encontros até acabarem por casar. Namoravam em inglês, mas a partir do casamento a língua lá de casa passou a ser o sueco. “Era a forma de eu também poder treinar. Nas lojas, tentava falar sueco e respondiam-me em inglês (risos), era a frustração total. Hoje falamos sueco e português, com algum inglês pelo meio. Acabámos por desenvolver uma espécie de língua privada em que misturamos tudo.”
A confusão aumentou com o nascimento de Tiago, hoje com 4 anos. “Com o Tiago, o meu marido fala sueco e eu tento falar português. Até aos 3 anos, o Tiago só falava sueco, ou o inglês que aprendia nos desenhos animados. No ano passado estivemos em Portugal duas semanas. Antes de irmos, disse-lhe: ‘Olha, podias começar a falar-me em português.’ E ele disse-me em sueco: ‘Na Suécia não preciso de português. Em Portugal, falarei português.’ E quando estávamos no avião para Portugal, diz-me na minha língua: ‘Agora o Tiago fala português.’
Inicialmente ele resistia: não é fácil convencer uma criança a usar um idioma ‘fantasma’, que não ouve à sua volta, que não lhe ‘serve’ de nada. Mas Júlia persistiu. “Agora, às vezes falamos bilingue: eu digo em sueco e depois repito em português, ou digo em português e depois em sueco. Claro que isto requer muito esforço. Curiosamente, se for para ralhar sai-me tudo em sueco (risos). Mas acho que é um esforço que tem de ser feito, não só pela parte familiar mas também por herança cultural. Além disso eles têm tanta facilidade em aprender outra língua, que é bom aproveitar. Mas é difícil. Uma vez promovemos uns encontros com famílias portuguesas, os miúdos portugueses foram todos brincar uns com os outros e quando demos por eles estavam a falar o quê? Sueco.”
Às vezes é cansativo falar outra língua. “O momento mais complicado foi o parto, em que o estado de cansaço era tal que eu só conseguia falar português, e o meu marido, desesperado, não conseguia acompanhar. Essa falta de comunicação era frustrante.”
Vai mantendo o português com um grupo de mulheres portuguesas com as quais se encontra de vez em quando. E voltar ao ‘registo latino’ é um alívio. “Até em termos de referências e conversas é tão diferente! Os suecos levam tudo muito a sério. Por exemplo, eles nunca se queixam, a não ser numa esfera muito privada.”

Uma família, três línguas (e meia)

Vamos subir um nível no jogo da confusão linguística: imagine que fala uma língua, o seu marido fala outra, e estão num país onde se fala uma terceira língua. Como é que uma família se orienta? Mariana Abreu, 47 anos, conheceu Jean em Cabo Verde, há 18 anos.
“Eu trabalhava na embaixada, o Jean era diretor de uma escola francesa na Cidade da Praia.” Quando se apaixonaram, não previram a roda-viva que se seguiria, mas ambos têm almas aventureiras e otimistas: “Quando o contrato dele acabou, teve uma proposta para ir para a Turquia. Deixei Cabo Verde e fui para a Turquia com ele.”
E a vida não foi tão complicada como estava à espera: “A Turquia daquela altura não tinha nada a ver com o país que é hoje, os turcos são pessoas muito afáveis, ajudavam muito, e nós aprendemos o suficiente.”
Entre eles, falavam francês. Jean fala algum português, mas pouco. A filha mais velha, Joana, agora com 16 anos, nasceu lá. Tinha uma ama turca, e portanto a primeira língua dela foi o turco (que depois esqueceu). E misturava tudo. “Dizia duas palavras em turco, duas em português, duas em francês.” (risos)
Em 2004, a família deixou a Turquia e rumou ao Texas, e depois para Seattle, em Washington. Portanto, nunca viveram em nenhum dos seus países de origem. “E na verdade não temos muita vontade de viver nem em França nem em Portugal”, confirma Mariana. “Mas confesso que gostava muito de ir para um sítio onde estivesse calor (risos). Aqui é tudo muito cinzento, e isso para um português é terrível.”
Hoje, a família continua a ser uma alegre mistura de idiomas. “Com a Joana falei sempre em português, mesmo na presença do pai”, conta Mariana. “Com a Juliette, cometi o erro de não falar sempre, muitas vezes caía no francês. Portanto ela percebe e fala, mas com sotaque. Com o pai falam francês, e entre elas falam inglês. É a língua onde vivem, a língua dos amigos. As minhas filhas têm três nacionalidades, mas sentem-se americanas, porque sempre viveram aqui.”

Falar pelos dois

Mariana nunca se preocupou em falar inglês com as filhas para lhes facilitar a integração. “A integração é feita entre eles na escola. Para mim, elas falarem três línguas é uma riqueza. Além disso, a minha filha mais nova é futebolista e idolatra o Cristiano Ronaldo. E gostam imenso de ir a Portugal. Desde miúdas, dizem: ‘Quando vamos a França, ninguém nos liga nenhuma, mas em Portugal toda a gente está sempre a abraçar-nos e a comprar-nos gelados e chocolates.”
Mais do que a diferença de idiomas, contam as diferenças culturais. “Os portugueses são muitíssimo curiosos, os franceses muito reservados. Os portugueses falam pelos cotovelos, eles são mais calados. Nos países do sul há sempre barulho, mesmo na rua. Eles são muito orgulhosos da pátria deles, nós somos mais modestos e invejosos.”
Hoje ainda a irrita o cliché das porteiras e mulheres-a-dias portuguesas. “Nunca tive grande vontade de ir viver para França. Mas quando vivemos fora, perdemos a ideia de que os portugueses são pequeninos. E ficamos com visão alargada, percebemos que o mundo não é só aquilo.”

Perder a identidade

Comparado com Mariana, o caso de Sofia A. parece fácil. Afinal, casou-se ‘simplesmente’ com um inglês. Qual é o drama de falar qualquer coisa que, dizem as más-línguas, já é quase mais falada em Portugal que o próprio português? O problema foi mesmo esse: o inglês tem uma força que torna qualquer outra língua muito difícil de impor.
Mas comecemos pelo princípio: “Quando conheci o Brian ainda não havia Easyjet ou Skype e era caríssimo namorar à distância”, recorda Sofia. “Como ele não falava português e o meu inglês não era mau… vim eu para Inglaterra.”
Deixou tudo: emprego, amigos, família (que não lhe falou até Sofia engravidar), meteu tudo o que tinha no carro e deixou Portugal. Não teve grandes dificuldades e facilmente arranjou emprego em Londres. Quando se mudaram para o campo profundo é que sentiu o embate e a portuguesa sentiu-se isolada. “O Brian acha que fala português mas não fala nada sequer que se assemelhe. Os meus filhos também falam muito pouco. Passo horrores com a minha família e amigos a massacrarem-me, a perguntarem-me por que é que não lhes ensinei português. Mas depois de um dia de trabalho, a última coisa que te apetece é brincar à escola… Ter de estar sempre a explicar noutra língua corta-nos o fio à meada.” Diz que às vezes nem sabe que língua está a falar. Mas o inglês há muito tempo que já não é estrangeiro. “Para mim, na verdade o português tornou-se uma língua mais estrangeira que o inglês.” Quando vêm a Portugal, os filhos fazem um esforço com a geração mais velha que não fala inglês, mas custa-lhes. “Os miúdos da idade deles falam todos inglês e querem praticar com um inglês de carne e osso, por isso com os mais novos eles estão bem, com os mais velhos é que têm de se esforçar mais.” E mesmo os da sua idade esforçam-se por falar inglês com ela. “Tenho pena, às vezes. Sinto que estamos a perder a nossa identidade.”

Difíceis escolhas

Vamos continuar com a pergunta a que estas três mães responderam de maneiras diferentes: devo insistir com os meus filhos para falarem português? “Deve”, defende a terapeuta de casal Manuela Silveira. “Uma criança pequena pode aprender com facilidade várias línguas. E isto, ao contrário do que se pensa, não é nada confuso para as crianças, pelo contrário, os estudos provam que em termos cognitivos há mais-valias para uma criança quando aprende mais do que uma língua na infância.”
Claro que existem dinâmicas familiares diferentes: “Muitas vezes a mulher escolhe instintivamente falar a língua do marido para que ele não se sinta excluído. Mas não teria de o fazer: é que o marido acaba por, se não dominar, pelo menos entender a língua da mulher, e portanto não seria preciso andar sempre a fazer a tradução.” Claro que isto depende das pessoas: o que funciona para uma família não funciona necessariamente para outra, e muitas vezes o dia a dia não perdoa.
Outra situação que pode acontecer é os pais concentrarem-se no idioma do país em que estão para facilitar a integração das crianças. “Há mães que pensam que o projeto dos filhos não passa por Portugal, e portanto não há mais-valias nenhumas em andarem a esforçar-se para que eles falem português”, explica Manuela Silveira. “Mas o português faz parte da herança cultural daquela criança. E para elas é tão fácil aprender outra língua que o português será sempre uma mais-valia.”
Há coisas que se arriscam a nunca ser ditas num casal bilingue? “Claro que há. Há expressões intraduzíveis de idioma para idioma. Claro que as relações entre casais multiculturais são sempre mais desafiantes, às vezes nem tanto por causa da língua mas por questões culturais. Na maioria das vezes, optam por uma língua que seja confortável aos dois. Mas não podem criar do zero uma cultura comum.

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