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Anetlanda

*artigo publicado originalmente em setembro de 2016

Os psicólogos estão universalmente de acordo: conversem!, dizem eles aos casais desavindos (e aos outros, para não se desavirem). Os casais retraem-se. É que na ‘vida real’ muitas vezes não é a falar que a gente se entende, e ‘conversar’ nem sempre garante o tal milagre de criar um casal unido, pelo contrário. “Ao longo dos anos, percebi que desenvolver a comunicação num casal é como cirurgia exploratória: o risco de se descobrir o que não se espera é muito grande.” É o que afirma a psicóloga americana Marina Benjamen em www.psychcentral.com.
A maioria dos casais mantém uma espécie de ‘conspiração’ para não falarem de tudo o que lhes dói e filtrarem a informação que já sabem que vai criar conflito. Todos nós fazemos isso. Quando este ‘pacto’ é quebrado, nem sempre sabemos o que fazer com informação potencialmente explosiva. “A comunicação aberta faz com que feridas e ressentimentos que estavam escondidos venham à superfície”, afirma Marina Benjamen. “Estas revelações podem ter um aspeto positivo, mas apenas se os dois estiverem preparados para lidar com os conflitos.” E na esmagadora maioria das vezes não estão.
“Para arriscar essa abertura, vai precisar de confiança na devoção e na estabilidade do seu companheiro. Vai precisar de ter a certeza de que ele está ‘consigo’ em vez de contra si. Vai ter de acreditar que ele percebe os seus interesses, isto quando não estão de acordo. Tem de haver uma atmosfera de segurança absoluta para que as suas necessidades possam ver a luz do dia sem ameaçarem a integridade da relação.” Hmmmm. Alguém arrisca?

Comunicar sem falar

Para não chegarmos ao ‘temos de falar’, a ideia é manter a proximidade e a cumplicidade e comunicar de todas as maneiras que podermos. Incluindo… não falar. “O silêncio é valioso, mas nós temos muita dificuldade em aceitá-lo e em geri-lo”, nota a terapeuta de casal Margarida Vieitez. “Estar em silêncio também gera proximidade e cumplicidade.”
As mulheres têm sempre aquela ideia de – O que é que ele estará a pensar que eu não sei? “Sim, complicamos muito, temos de estar sempre no controlo, de saber que ele está ali, que a relação está bem, que não se passa nada de anormal. Precisamos de confirmação constante da relação, e para eles isto é um desgaste brutal, porque não precisam de nos estar sempre a dizer que nos amam. E estar em silêncio não significa que o outro já não gosta de mim ou que está em modo hostil.”
Também ajuda divertirem-se juntos, aprenderem qualquer coisa. E, acima de tudo, toquem-se: “Através de um simples toque no braço, uma festa, um gesto de ternura, podemos dizer tanta coisa! Um toque vale mil palavras de amor, e no entanto nós tocamo-nos tão pouco! E retraímo-nos de expressar afetos por medo de sermos rejeitados.”
Outra ideia para não chegar ao ‘temos de falar’ é ir discutindo os problemas à medida que eles aparecem, sem medo de falar, sem a preguiça de ir adiando o que precisa de ser discutido, e com a certeza de que tudo pode ser resolvido, se cada um ceder um bocadinho.

Acerte no tom

Problema: quando não vamos resolvendo nada no dia a dia, quando vamos adiando e metendo muita coisa ‘para dentro’, o não dito começa a fermentar, e chegamos a uma altura em que, pronto, enfim, temos mesmo… de falar. Outro problema: a partir do momento em que se diz ‘temos de falar’, toda a gente sabe que é uma coisa má… E agora? Falamos e rebentamos, ou não falamos e… rebentamos na mesma?
“Muitas vezes, o ‘temos de falar’ significa ‘vamos começar a guerra’”, confirma Margarida Vieitez. “Mas esta frase pode ser substituída por alternativas menos ameaçadoras. Porque de contrário, vamos ter ali uma pessoa a quem bem podemos dizer tudo o que quisermos, mas que não nos vai ouvir. “As pessoas já sabem que se vão aborrecer e desligam da conversa, só veem os lábios da pessoa a mexer. É inútil tentar comunicar desta maneira.”
Portanto, vamos às alternativas: “’Vamo-nos encontrar?’ Um encontro é o oposto do conflito. Falemos olhos nos olhos com um sorriso, e a conversa já começa de modo diferente. ‘Vamos lá perceber o que está a acontecer?’ Soa muito assertivo mas a verdade é que funciona. Vamos descobrir como nos sentimos melhor. Vamos conversar sobre aquilo que estamos a sentir.”
Podem ser estas frases como podem ser outras: o importante é fugir do tom ‘cimeira’.” Porque mais importante do que aquilo que se diz, é o tom. E o sorriso. “Se o tom é zangado e conflituoso, então podemos dizer o que quisermos que a outra pessoa põe-se imediatamente à defesa e a conversa fica arruinada. Também podemos tirar a formalidade à situação e conversar de forma mais descontraída, durante um passeio, por exemplo, e acima de tudo com sentido de humor, que destrói qualquer conflito.” Hmmm. Sentido de humor quando estou pior que estragada? “Claro que as pessoas têm muita dificuldade em trazer o sentido de humor para um conflito, acham que não vão ser levadas a sério, mas um tom mais leve funciona bem para sair do registo de culpabilização, vitimização, jogos psicológicos.”

Conversas da paz

Ok, já nos encontrámos. E agora, como falar para não afugentar a presa? “O segundo passo é ambos dizerem como se sentem, sem culpabilização, generalização ou críticas”, sugere Margarida. Tem de conversar sem cair no – ‘fazes o que eu quero ou então eu deixo-te’. “Porque a outra pessoa tem um comportamento reativo. Se se sentir atacada, vai contra-atacar. Se se sentir criticada, vai criticar de volta. E assim não se sai do círculo vicioso e não se resolve nada. Ou seja: em vez de ‘fazes sempre isto’, digo, ‘o que me fazes sentir quando fazes isso é isto e isto. Achas que podes fazer alguma coisa de maneira diferente?’”
Depois, deve-se deixar o outro falar, mostrar empatia e atenção ao que o outro está a dizer. Conseguir colocar-se no lugar dele e perceber as suas razões. Se não perceber, pedir mais explicações. Respeitar a diferença, dar feedback – ok, já te percebi –, pensar antes de falar, e ter uma mente aberta, ou seja, nós somos diferentes, eu não sou dono da verdade, e há muitas formas diferentes de reagir, de pensar e de resolver um problema. Se uma não funciona, tentem outra.”
Ok, isto é numa situação ideal, o drama é que eu não sou assim tão santa nem tão resistente. Então e depois de dizer o que nos dói, ficamos sem saber o que fazer? “Aqui entra a terceira etapa: o que podemos fazer para nos sentirmos melhor. Que podemos alterar? Defina um plano A, B, C, sem exigir mudanças radicais. Dê tempo para que a mudança aconteça, seja realista para perceber o que aquela pessoa vai e não vai dar. Se está a insistir em pontos que são importantes para si mas que já viu que aquela pessoa não pode dar, não vá por aí, ou dê passos mais pequenos. Depois, combinem uma altura para voltar a conversar, para o assunto não morrer.” E para saberem que, mesmo tendo de falar, tudo se resolve.

Falar no trabalho

Até numa relação de trabalho a comunicação pode ser um risco. “Uma conversa pode criar a ilusão de que alguma coisa está a ser feita quando não está”, lê-se no site da Harvard Business Review. Também ficamos mais sensíveis: “Podemos ter problemas se tudo o que fazemos é ‘sentir’ o outro.” É mais importante conseguir ver as coisas do ponto de vista dele: ou seja, usar a cabeça mais do que o coração, e partilhar pontos de vista mais do que emoções. E, finalmente, temos a mania dos consensos. E isso não é bom? “Um consenso nem sempre é a melhor decisão. Podemos ter um consenso mas isso não servir para nada.”

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