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Imagine que perdeu o emprego. Está em pânico, desorientada, com medo. Conta a uma amiga, que lhe diz: ‘Pelo menos agora tens imenso tempo livre’.

O exemplo é contado pela psicoterapeuta americana Whitney Goodman no livro ‘Positividade tóxica’ (Ed. Nascente). Sim, na verdade se ficou desempregada é inegável que terá mais tempo livre. Mas isso resolve as suas angústias e medos legítimos e reais? Ficamos a sentir-nos melhor? Não: pensamos “Mas será que esta não me ouviu? Será que sabe mesmo o que significa ficar desempregada?”

Já todos passámos por situações parecidas. Há poucas coisas tão irritantes como dizermos uma coisa tão banal como: ‘Ai doi-me tanto a cabeça’ e alguém responder com um sorriso luminoso: ‘É sinal que a tens’. Casos piores acontecem quando alguém partilha a notícia de uma doença grave, para ouvir ‘Vai ficar tudo bem’. Ora como é que alguém sabe que vai ficar tudo bem? ‘Vai ficar tudo bem’ é capaz de ser a frase mais irritante do planeta, e ainda por cima vem carregada de uma positividade que todos implicitamente não apenas apoiam como encorajam.

‘Motivação’ é a palavra de ordem atualmente. ‘Tens de ser mais positiva’ ou ‘vê as coisas pelo lado bom’ são aconselhados a quem partilha as suas mágoas, problemas e frustrações. Tudo bem, são ditas na maior das boas-vontades. Mas ajudam?

A verdade é que a ‘positividade tóxica’ já anda por aí há séculos, mas só agora os psicólogos arranjaram um nome para o fenómeno. “Mais do que um objetivo, a felicidade e a positividade tornaram-se uma obrigação”, defende Whitney Goodman. “Para onde quer que olhemos, estão sempre a dizer-nos que temos de estar gratos ou de ser mais positivos. Se alguma coisa nos corre mal na vida, é porque ‘não nos esforçámos o suficiente’.

E não é um fenómeno inocente. “Se virmos bem, é uma força poderosa que ajuda a manter o sexismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, a discriminação contra aqueles que sofrem de deficiências e a discriminação baseada na classe social.”

Então mas esperem lá: não estão sempre a dizer-nos que devemos ser otimistas? É inegável que ‘pensar positivo’, ver as coisas boas da vida e ser uma pessoa grata ajuda-nos muito a viver melhor. Mas não ‘temos’ de ser assim só porque os outros esperam isso de nós.

“A positividade saudável dá espaço à realidade e à esperança”, distingue Whitney Goodman. “A positividade tóxica nega as emoções e obriga-nos a suprimi-las.” Claro que se calhar também é mais fácil fingir que vivemos num mundo de arco-íris e unicórnios em que até as desgraças têm o seu lado bom. Lidar com os nossos dramas, fracassos e dias maus não é fácil. Ser feliz pode ser uma tarefa ingrata. Mas ajuda-nos mais, a longo prazo, do que viver na Lalaland.

Ok, além de ‘vai correr tudo bem’, estamos rodeadas de muitas outras frases ‘positivas’ que desajudam mais do que ajudam (sei que vos prometi uma, mas Whithey cita outras irresistíveis). Então, o que não dizer a ninguém mesmo que lhe tenha caído o telhado na cabeça:

– ‘A vida nunca nos dá mais do que podemos suportar’

– ‘Tens tanta coisa pela qual dar graças’

– ‘O tempo cura tudo’

– ‘Pelo menos não…’

– ‘Agradece pelo que aprendeste’

– ‘Nada acontece por acaso’

– ‘Podia ser pior’

– ‘Nunca desistas dos teus sonhos’

E se está a pensar ‘mas eu já disse uma coisa destas’ calma. Somos todos humanos, empáticos e queremos sinceramente ajudar, e estas frase s’parecem’ boas ideias. Problema: estão todas cheias de boas intenções mas nada disto ajuda a pessoa em sofrimento a expressar o que sente nem cria nehuma ligação emocional.

Então afinal o que é que podemos dizer? Vai partir muito da nossa consciência de tudo isto. Ponha-se sinceramente no lugar do outro. O que é que gostava que lhe dissessem? Se calhar, “percebo que deve ser assustador”. Às vezes mais vale mesmo ser honesta: “Nem consigo imaginar o que deves estar a sentir”. Outras vezes, basta estar ali, dar um apoio, um carinho, uma presença, uma visita, um ouvido (aliás, o mais difícil é que muitas vezes as pessoas querem falar e ninguém as ouve. Ou não querem falar, e ninguém ouve esse silêncio também). Não há uma fórmula exata.

Quando se é a pessoa a ‘precisar de ajuda’ o mais sensato, afirma Whitney, é permitir-se ser, permitir-se sentir, perceber o que funciona consigo, aceitar-se e ir com calma. Nem todas as ‘boas vibrações’ são más. “A positividade tóxica seria dizer ao seu amigo deprimido: ‘Devias mesmo trabalhar as tuas más vibrações’. Vê a diferença?’

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