
O Joaquim, filho da minha amiga Ana, está tristíssimo. Não foi escolhido para a equipa de futebol, onde estava desde pequeno, e o mundo acabou para ele. Enfim, toda a gente se lembra de desapontamentos destes e ninguém ficou traumatizado com isso. Mas fiquei a pensar se, nos nossos tempos em que temos todos de ser Cristianos Ronaldos, será mais difícil para os miúdos ter estas lições de, chamemos-lhe assim porque é o que é, humildade.
“O que é que lhe disseste?”, perguntei à mãe dele.
“O que é que lhe disse? Disse-lhe o óbvio: que às vezes há mesmo pessoas que são melhores do que nós, e quanto mais depressa ele perceber isto, melhor.”
Enfim, mas se calhar aos 11 anos é difícil aprender uma lição tão dura… E afinal também não queremos que fiquem com a autoestima tão danificada que não lhes permita, por um lado, perceber que há outros melhores (há sempre), e por outro, que toda a gente é boa em alguma coisa, mesmo que não seja ‘a melhor’ e mesmo que não seja em futebol. Se calhar, é por aí que temos de começar. Não ter medo de cair. Não ter medo de arriscar só porque as coisas podem não correr bem.
Mas os falhanços – principalmente os falhanços das crianças – desenterram sempre fantasmas: geralmente, fantasmas dos pais. Afinal, porque é que ter uma nota pior ou falhar uma equipa é assim tão grave? Porque é que nos afeta desta maneira? E como é que lidamos com isso, dentro da nossa cabeça e para com os miúdos?
Professor Universitário no ISLA de Santarém, Jorge Rio Cardoso já fez centenas de ações junto de alunos combatendo o insucesso escolar, e escreveu livros sobre educação, entre eles ‘Como fazer dos nossos filhos alunos de sucesso’ ou ‘Este ano vais ser o melhor aluno’. Mas defende que, em toda esta discussão sobre ‘sucesso’ e ‘insucesso’, o importante é não perder o pé ao que na verdade importa.
“Educamos os miúdos numa enorme competitividade. A nossa sociedade vinca muito o materialismo, mas quando educamos um filho temos de vincar a importância do ser antes do ter”, começa.
Pois, isto é muito bonito de dizer, mas ninguém quer que as crianças passem fome quando crescerem e vemos as notas, mesmo quando eles têm 6 anos, como precursoras de um bom futuro na ‘selva’. Problema: com todas as nossas boas intenções, muitas vezes estamos a puxar pelo lado errado, não estamos? Quanto mais stressamos, mais eles têm medo de falhar e menos acertam…
Comparar-se… consigo próprio
Então, em que ficamos: devemos, cada um de nós, resignar-nos às nossas falhas ou esforçar-nos por ser melhores? “Devemos ser melhores: mas melhores do que nós próprios”, explica Jorge Rio Cardoso. “O ioga, o mindfulness e a meditação ensinam-nos que a competição deve ser com nós mesmos: devemos esforçar-nos por sermos hoje melhores do que éramos ontem, não melhores que o nosso colega do lado. E isto em tudo. Aquilo que deve atrair os outros para nós deve ser o facto de sermos boas pessoas, não porque vestimos bem ou somos bonitos ou temos boas notas ou muitos seguidores. Quando falamos com os nossos filhos, devemos educá-los para se compararem consigo próprios. E os pais devem valorizar o esforço. O que eu estou a dizer não é nada de novo, mas continuamos a insistir nisto.”
Também temos que nos lembrar que hoje em dia as competências valorizadas já são diferentes. “As pessoas precisam de saber trabalhar em equipa, saber chegar a um consenso, serem mais humildes, estarem mais focados na solução e conseguir fazer algumas cedências. Estes aspetos hoje são muito mais valorizados do que aquela sociedade sem regras onde todos passam por cima de todos.”
Portanto, o facto de sermos uma sociedade competitiva, que somos, não significa o vale-tudo. Cada vez mais se dá importância à empatia, à simpatia, às capacidades sociais.
As palavras mágicas
Então vamos ao caso prático do Joaquim, ou imaginemos um caso mais comum em que o João teve uma má nota. O que é que fazemos? “Se é qualquer coisa que depende dele, podemos ajudá-lo a organizar-se e a conseguir melhores resultados”, resume Jorge Rio Cardoso. “Se não, simplesmente às vezes há que assumir que há outros melhores do que nós e que isso não tem mal nenhum. E lembrar que todos nós somos bons a alguma coisa.”
No caso do futebol, como não vai ser um futebolista profissional, não fazer parte daquela equipa não terá grande impacto no seu futuro. Mas no caso de uma má nota, é conveniente não deixar arrastar. Há duas palavras mágicas, segundo o guru do sucesso: “Confiança e motivação. Para alguém estudar, tem de perceber por que é que o está a fazer, que impacto vai ter na vida dele, como ele próprio vai melhorar. O problema é que os pais olham muito para a nota e não para o processo que levou à nota. Ele sabe estudar, sabe fazer resumos, sabe aplicar o que aprendeu? É importante haver um clima positivo e relaxado. O ioga e a meditação não são só para adultos. Podem ajudar muito as crianças a controlar o stresse.”
Mais duas palavras mágicas: “A exigência e o envolvimento. Há quem critique uma má nota e depois deixe a criança desamparada… Por outro lado, ter a família inteira a pressionar só vai dar resultados opostos. Claro que ele deve saber que, se falhar, cá estão todos para ajudar, mas stressar não é a mesma coisa que ajudar.”
De que é feito o sucesso
A pergunta principal eu ainda não a fiz. Afinal, num artigo sobre insucesso temos de perguntar isto: porque é que há pessoas que têm ‘sucesso’, digamos assim? “Dantes, acreditava-se que era devido ao quociente de inteligência”, explica Jorge Rio Cardoso. “Mas, curiosamente, o QI só explica 20% do sucesso das pessoas. Os outros 80 têm a ver com a nossa capacidade emocional. E isso sim, a escola e a família podem trabalhar. As pessoas que singram nem sempre são os fura-vidas. Geralmente, são pessoas que reúnem consensos, que não se irritam facilmente, que conseguem manter-se calmas.”
Foi isto que pediu aos seus filhos? “Uma das coisas que quero nos meus filhos é que sejam equilibrados emocionalmente, que consigam identificar e gerir as suas emoções. Isto treina-se e eles habituam-se a perceber que o mundo não é uma extensão da casa da avó onde são pequenos reis.”
Então e a mesma pergunta ao contrário: quais são as causas do insucesso escolar? (excluindo já escolas sem professores, professores sem motivação, matéria desadequada, etc.) “Um dos principais é a falta de autonomia. A criança até consegue estudar, mas tem de estar a mãe a massacrá-la, o pai a ralhar, o avô a ajudar. A criança leva a família toda às costas. Ora, deve-se habituá-los a trabalhar sozinhos, ali no início do segundo ciclo, começando por organizá-los, porque grande parte do sucesso passa pela organização.”
E dê valor à aprendizagem: ainda que hoje não pensemos nisso, foi uma luta muito grande para que todas as crianças tenham direito a ela. Portanto, os pais devem segurar-se para não darem exemplos de partidas que faziam aos professores. “E cuidado com as frases do tipo ‘eu também não gostava de matemática’ (ou, no inverso, ‘eu, com a tua idade, tinha notas fantásticas a tudo’). É lícito que ele não goste de alguma disciplina, claro que por vezes não são dadas de forma cativante, mas elas não existem por acaso.”
Último conselho para os pais: “Passar aos filhos confiança naquilo que estão a fazer. Valorizar a escola, valorizar os professores, valorizar a aprendizagem, ajudar a escola a ser exigente. E educar pelo exemplo. Não podemos exigir que se esforce quando ele depois não vê nem o pai nem a mãe esforçarem-se para nada.”
Qual é o pior modelo parental? “É a grande exigência com zero envolvimento. Isto dá lugar a adultos imaturos, irritáveis, que nunca assumem a culpa de nada e muito infantis. Por isso, o nosso envolvimento é muito importante. Não devemos fazer as coisas por eles, mas apoiá-los.”
A importância de valorizar a escola
Também há pais que não exigem grande coisa mas que se envolvem afetivamente. Ora não há mal nenhum em encorajarmos as crianças a quererem mais, a esforçarem-se mais, a serem mais ambiciosas, a terem sonhos, a terem o prazer de descobrir que são capazes. Isto dá-lhes motivação para outros ‘saltos’. Há mesmo quem faça das fraquezas forças, e mesmo sabendo que não tem as condições ideais tem planos e esforça-se para lá chegar. Para isto, é essencial que elas não tenham medo de errar, que um erro ou mesmo uma negativa não seja vista como um grande drama e uma vergonha para toda a família mas apenas uma indicação, um recomeçar, o corrigir de uma rota, uma nova tentativa.
“Se lermos biografias de pessoas famosas, vemos que todas falharam, numa altura ou noutra, mas têm isto em comum: nunca desistiram”, nota Jorge Rio.
Agora, vou fazer papel de advogada do diabo: eu, por exemplo, adoro cantar mas sou uma cana rachada. Se me enfiasse no ‘The Voice’, por exemplo, acho que até me pagavam para sair dali. Sei que, por muito que me esforçasse e nunca desistisse, nunca seria grande cantora. Tal como o Joaquim nunca vai ser um grande futebolista. Ou seja: às vezes, também não é importante saber desistir? E ter a coragem de assumir que não se quer fazer mais aquilo? (Enfim, se ele estiver no 7.º ano acho que desistir de matemática não é uma opção, mas vocês percebem.)
“O que se deve fazer é educar para as escolhas”, explica Jorge Rio. “Se estamos a falar de uma atividade, nem se trata de ter jeito ou não, trata-se de a criança gostar ou não gostar do que faz. Se eu gostar de cantar, mesmo que não tenha jeito nenhum, porque é que eu não hei de cantar? Desde que não queira ser cantor de profissão… É importante que as crianças experimentem várias coisas, que tenham mundo mas sem o stresse da competição e das notas e do futuro, simplesmente para se divertirem e para lhes arejar a cabeça. Isso é tão importante!” Aprendam porque têm de aprender, se for preciso, mas aprendam também – e sobretudo – por prazer.