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Falámos com a psicóloga Filipa Jardim da Silva, assumida ex-impostora e perfeccionista em remissão, que escreveu um livro que nos vai ajudar a abandonar a ideia de que somos uma fraude.

Filipa Jardim da Silva fala com base na sua experiência pessoal e profissional (é fundadora, CEO e diretora clínica da Transformar, que promove a cooperação entre dezenas de profissionais de saúde de várias áreas, num contexto de saúde integrada e preventiva).

Há muitas mulheres – mais do que homens – que se sentem uma fraude, independentemente dos sucessos que vão colecionando nas várias áreas das suas vidas. Foi para ajudá-las a construir uma nova narrativa interna que publicou recentemente o livro ‘Síndrome da Impostora’ (Planeta), com ferramentas práticas para deixarmos de nos questionar e sabotar constantemente.

Falámos com a psicóloga clínica para saber como é possível quebrar o ciclo de insatisfação constante.

Como surgiu o interesse por este tema em particular?

Sempre fui fascinada pelo impacto da mente nas nossas conquistas e no nosso bem-estar. A Síndrome da Impostora está intimamente ligada à forma como nos vemos e à maneira como interpretamos os nossos sucessos e falhas. No meu trabalho clínico, em formação e na liderança de equipas, comprovei o impacto das nossas narrativas internas na forma como nos sentimos e comportamos. Percebi que, por mais talentosas e bem-sucedidas que sejam as pessoas, isso nem sempre resulta em merecimento e autoconfiança, pelo contrário, existe um número impressionante de mulheres e também alguns homens que se sentem uma fraude, independentemente dos aplausos que recebem e dos prémios que alcançam. Era impossível ignorar o peso que este tema tem na vida de tantas pessoas, de todas as idades e culturas.

É algo que já sentiu na sua vida?

Sim, já senti e falo abertamente sobre isso neste livro. A pressão para a excelência a nível académico contribuiu para que a cada superação e boa nota o foco passasse a ser o próximo desafio. A determinado momento, senti-me numa escada rolante de insatisfação crónica: por mais que conquistasse e me superasse, nada era suficiente. O ser filha única levou-me muitas vezes a querer deixar os meus pais orgulhosos, não havendo ninguém para partilhar holofotes. O facto de ser natural da Madeira e ter ido estudar aos 18 anos para Lisboa fez-me sentir, em muitos momentos, que tinha de me esforçar mais do que outras pessoas, para me integrar, para ser aceite, para me afirmar. Hoje, de um lugar de ex-impostora e perfeccionista em remissão, confio que esta minha experiência me aproxima ainda mais de todos aqueles que colocam em causa a sua competência e valor pessoal, o que aliado à ciência psicológica me ajuda a criar condições para nos libertarmos desta narrativa limitadora.

O que a levou a escrever este livro?

Escrevi este livro porque acredito que a Síndrome da Impostora não deve ser um fardo silencioso, mas sim uma conversa aberta. Quis dar voz a este tema e, mais do que isso, oferecer ferramentas práticas para quem quer libertar-se deste ciclo de autossabotagem e viver com mais confiança e autenticidade. Quero ampliar a discussão sobre esta temática, porque só com informação fidedigna e acessível conseguimos combater os estigmas que subsistem em torno de temas de saúde mental.

Como define a síndrome da impostora?

É uma voz interna que nos questiona a todo o momento e nos coloca em causa: talvez pudéssemos ter feito melhor ou mais, talvez na próxima vez não tenhamos tanta ‘sorte’… Nesta experiência psicológica, apesar das competências e sucessos, sentimos que não somos suficientemente bons ou competentes e tememos que um dia descubram que somos uma fraude, ou seja, diferentes da imagem brilhante que criaram sobre nós. A Síndrome do Impostor vive de perfeccionismo, comparação e vergonha e alimenta um conflito interno entre aquilo que se conquista e aquilo que se sente merecer.

É uma síndrome que afeta mais as mulheres? Porquê?

Sim, os estudos mostram que a Síndrome da Impostora é mais prevalente no sexo feminino. Temos ainda muitas heranças de uma sociedade patriarcal, de influências judaico-cristãs. Isso coloca a mulher num lugar de enorme pressão, porque dela tudo é esperado de forma mais rígida desde tenra idade. O facto de tantas mulheres crescerem com comentários frequentes em torno do seu aspecto ou do seu desempenho leva a que acreditem que sem isso não serão aceites. Acredito, ainda assim, que alguns dos resultados em torno da prevalência da Síndrome do Impostor em homens possam estar diminuídos pela vergonha e cultura do silêncio e do super-homem, que nada pode temer ou chorar.

Onde é que se manifesta mais, na vida pessoal ou profissional?

Tende a ser mais visível no contexto profissional, pois está muito ligada ao medo do fracasso, da avaliação externa e da exposição. Mas sendo uma voz interna que nos coloca a todo o momento em causa e nos gera comparação, pode manifestar-se na vida pessoal, na maternidade, nas relações amorosas ou nas amizades, levando-nos a duvidar do nosso valor e fazendo-nos questionar sobre o que os outros verdadeiramente sentem por nós, sendo que esta dúvida corrosiva pode fazer-nos adoecer.

Filipa Jardim, autora do livro ‘Síndrome da Impostora’

No livro divide o tema por idades… Em que idades mais se manifesta?

A Síndrome do Impostor é uma experiência interna profunda que afeta múltiplas áreas da nossa vida, em todos os estágios de desenvolvimento. Compreender este impacto e as suas dinâmicas é crucial para reconhecer os padrões que perpetuam a Síndrome do Impostor e, consequentemente, caminhar rumo a uma libertação do que nos pesa e aprisiona, impedindo que nos sintamos com valor.

Como digo no livro,  podemos pensar na Síndrome do Impostor como um exercício de agricultura. Quando uma criança nasce, o seu terreno já vem com determinadas predisposições, o que fará com que algumas espécies naturalmente se desenvolvam de forma mais espontânea e simples. A par dessas tendências-base, o investimento diário no campo, as ferramentas e as sementes disponíveis, o conhecimento sobre a arte da agricultura, a meteorologia, as espécies mais próximas, tudo irá interferir com a maneira como este campo se irá desenvolver a cada momento. Assim, é natural que possa manifestar-se desde a infância até à idade adulta madura. Cada fase apresenta desafios únicos e cada pessoa é única, pelo que a Síndrome do Impostor pode manifestar-se de maneiras distintas e em intensidades diversas, mantendo sempre um impacto transversal nas várias dimensões da vida.

Reconhecer os principais sinais e padrões de comportamento é crucial para desenvolver estratégias eficazes de prevenção e intervenção.

Uma adulta que sofre da Síndrome da Impostora foi necessariamente uma criança insegura? E vice-versa?

Não necessariamente. Há crianças confiantes que, devido a experiências ao longo da vida, desenvolvem esta síndrome. Da mesma forma, uma infância insegura pode ser superada com apoio, autoconhecimento e desafios positivos. O que importa não é de onde viemos, mas o que fazemos com aquilo que sentimos.

Deixo ainda a nota de que existem muitas pessoas, crianças, jovens adolescentes e adultos, aparentemente confiantes aos olhos de todos, sociáveis e com excelentes resultados em várias áreas da vida, que não se sentem seguros do seu valor, apesar da máscara de competência que colocam todos os dias.

Todas nós sofremos deste ‘mal’ em algum momento da nossa vida? Quando se torna preocupante?

Toda a gente, em algum momento das suas vidas, sente insegurança e ansiedade acerca do seu desempenho. A diferença entre esses momentos de autoquestionamento e a Síndrome ou Fenómeno do Impostor é a intensidade e perda de sentido crítico. Na Síndrome do Impostor, habitualmente despoletada em situações em que se sai da zona de conforto, em que estamos mais sob pressão e stresse e/ou em que nos comparamos, ficamos paralisadas num ciclo de vergonha e intranquilidade, duvidando de nós mesmas o tempo todo: ‘Será que vou ser capaz?’, ‘Será que mereço?’, ‘Será que vou corresponder às expectativas?’. Na síndrome do impostor existe uma tensão entre duas perspectivas: a nossa e a que acreditamos que os outros têm acerca de nós, ou então entre a perspectiva que temos do que deveríamos ser capazes de realizar e a forma como avaliamos o nosso desempenho. 

Nesta jornada de auto-observação, podemos investigar se temos os 4 P’s da Síndrome do Impostor: 1) Procura por aprovação dos outros, 2) Perfeccionismo, 3) Paralisia, 4) Procrastinação.

Como se pode trabalhar a autoaceitação? Nunca é tarde?

Nunca é tarde para se desconstruir crenças limitadoras e criar uma relação mais saudável connosco mesmas. No livro, proponho mais de 40 exercícios para ajudar nesta jornada. A autoaceitação começa por uma decisão: deixar de medir o nosso valor apenas por métricas externas e começar a reconhecer a nossa essência.

Nesta jornada de se trocar a culpa e o julgamento por compaixão e empatia, há que experimentar novos papéis, atualizando aqueles que se tornaram automáticos e enraizados. a) Troca o ajudante pelo maestro: em vez de seres a pessoa que faz de tudo um pouco, que acredita ter todas as respostas e que acaba por fazer tudo sozinha, torna-te numa estratega que, ao jeito de uma maestrina, sabe delegar, partilhar o palco e focar-se naquilo que é melhor, numa lógica de colaboração e não de trabalho solitário. b) Troca a super-heroína pela supercolaboradora: em vez de procurares salvar tudo e todos, ficando em último lugar na tua lista de prioridades, aprende a cooperar com os outros e a não te perderes de vista, porque se queres ser útil e impactante precisas de garantir que tens algo para dar. c). Troca a alergia a falhas pela aventura: mais do que temeres um mau resultado, foca-te numa boa experiência. Aprende a correr riscos, valoriza mais o processo do que apenas o resultado final. Troca o medo de falhares pela curiosidade em aprenderes o máximo em cada falha. d) Troca a líder invisível pela líder inspiradora: em vez de te manteres na sombra do que fazes, sempre atrás da cortina, atribuindo até a outros o mérito que te é devido, aprende a reclamar o espaço e a luz que são teus. Torna-te uma líder com voz própria, visível e inspiradora. Pode ser assustador desempenhar novos papéis, mas há sempre um primeiro passo.

A Síndrome da Impostora leva obrigatoriamente ao autoboicote?

Nem sempre, mas pode levar. O medo de falhar pode fazer-nos evitar desafios, rejeitar oportunidades ou exigir de nós padrões impossíveis. O autoboicote pode ser subtil – como procrastinar, não conseguir delegar ou pedir ajuda, desvalorizar elogios ou hesitar em mudar em alguma dimensão de vida.

Existe um perfil de mulher que se enquadra nesta síndrome?

Não há um perfil único. Pode afetar desde estudantes a CEO’s, de mulheres em carreiras científicas a artistas. Mas há alguns fatores de risco: perfeccionismo, ambientes muito competitivos, falta de representatividade feminina em cargos de poder e uma autoimagem baseada apenas no reconhecimento externo.

A sociedade atual potencia a insegurança? Mas ao mesmo tempo fala-se tanto de empoderamento…

Sim, vivemos numa era de paradoxos. Por um lado, o empoderamento feminino nunca foi tão debatido. Por outro, somos bombardeadas por padrões irreais, seja no trabalho, na aparência ou na vida pessoal. Por entre tantas polarizações, o desafio é encontrar um espaço interno de confiança que não dependa da validação externa e cultivar uma atenção de qualidade que nos ajude a diferenciar, com sentido crítico, a informação que nos chega todos os dias, a interna (fruto dos nossos pensamentos e memórias) e a externa (vinda dos media, redes sociais, pessoas).

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