
Não explica como é que lhe veio a vontade de ser missionária e partir para longe. Ri-se e conta que não teve o apoio de ninguém, "nem do pároco". Em Colmeias, Leiria, onde nasceu e cresceu, achavam que ela fazia muita falta. Mas ela achava que fazia mais falta noutros sítios. Ainda tentou a enfermagem, mas chumbou no exame. "Deve ter sido Deus a puxar-me para outro lado", ri.
Aos 21 anos, veio de vez para a vida religiosa, incluída nas Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora, com quem se identificou pelo espírito de alegria. Terminada a formação religiosa, retomou os estudos de enfermagem, e ficou no Hospital de Santa Maria, no Porto. Em 90, propuseram-lhe partir como enfermeira para São Tomé. Aceitou? "Eu? Delirei!" Voltou a Portugal em 95, com imensa pena. "Ficou lá um pedacinho do meu coração…"
Mas o seu destino não era ficar no Porto: cedo a chamaram para abrir o Hospital da Doença do Sono, em Angola. Desta vez, hesitou. "Tinha muito medo da guerra. Mas precisavam de mim…" E lá o hospital, como era? "Qual hospital! Eram três tendas rotas, cheias de ratos! Uma desgraça de terra, poeira, calor, febre…" Não sabia nada da doença, aprendeu tudo com os seus doentes. Desconhecida por muita gente, a doença do sono pode levar à morte, e tem um processo de cura lento e doloroso. Agora já têm um hospital novo, direccionado para a doença do sono, mas muita gente aparece com meningites, paludismos graves, tuberculoses. "Às vezes, fico desanimada e penso: ‘Não aguento isto’. Mas depois penso: e para onde vais tu, para Portugal? Aqui é o meu lugar. Amo esta casa de alma e coração."
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