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O seu lema é ‘ter sorte dá muito trabalho’. A mais conhecida headhunter portuguesa, responsável pela avaliação e seleção de executivos de topo para várias empresas, especialista em gestão de carreira e autora do livro ‘Eu Sou O Meu Maior Projecto’ (Ed. Manuscrito), criou-nos um ‘plano de ataque’ e disse-nos o que fazer quando não sabemos o que fazer.

1| Não desespere. É o primeiro mandamento. “O desespero não serve para nada, só nos tolda o pensamento e a ação com emoção inútil, deixamos de ver e de ser racionais.”

2| Seja determinada. Qual é o meu objetivo? Quais são as etapas para lá chegar e o que é que tenho de mudar? “Lembro-me que o engenheiro Belmiro de Azevedo foi a primeira pessoa a receber o Prémio de Gestor Excelência da ‘Exame’ e nessa altura fez um discurso”, recorda Maria da Glória Ribeiro. “Contou que todos os anos escrevia que objetivos queria atingir daí a 10 anos. E todos os anos revia esse projeto. De facto, nós esquecemo-nos da importância de se ser focado.” Portanto, encontre e construa o seu caminho, e trabalhe para isso. “Para muitas pessoas, dez anos pode ser uma receita a demasiado longo termo. Mas comece por pequenos passos.”

3| Defina um objetivo realista. “Em relação à fase da vida em que está, às suas habilitações, àquilo a que tem acesso, ao que está disposta a fazer. Mas tendo em conta que o realismo também tem de ser doseado de maneira a não nos cortar completamente as asas e a fazer-nos pensar que tudo é impossível. Se pensarmos que não vamos conseguir, então não conseguimos mesmo.” Portanto, esqueça o fatalismo, que só atrapalha, e lute pelo que quer – e pelo que pode.

4| Tenha a coragem de ir à luta. “Desistir de um objetivo é por vezes falta de capacidade de correr riscos, de coragem”, nota Maria da Glória. “É mais fácil admitir-se que não se consegue, arranjar mecanismos de defesa e não fazer nada.”

5| Saiba ‘vender-se’. Se não consegue mudar ou arranjar emprego, pode acontecer que tenha de mudar a sua ‘orientação laboral’. “Nós cada vez menos temos uma carreira fixa”, lembra Maria da Glória. “Cada um de nós tem um caminho que muda ao longo do tempo. Imagine que na sua área há poucos lugares disponíveis. E apesar de ser fabulosa, há pessoas mais próximas do poder que ficam colocadas antes de si. O que há a fazer? Uma orientação diferente, por exemplo, mudar de área de investigação, perceber quais as fragilidades dessa área que pode colmatar.”

6| Transforme o seu conhecimento
em serviço. “Muitas vezes falo com pessoas que têm capacidades e currículos fantásticos, mas dizem ‘Portugal não me quer, não tenho lugar aqui’. Ora não podemos pensar dessa maneira. A empregabilidade é como um produto: você não pode ter um produto que ninguém compra. Tem de criar a necessidade daquele produto ou saber vendê-lo. Tem de o tornar vendável.” Mas isso nem sempre é fácil de fazer, pois não? “Não, mas tem de ser feito. Por exemplo: conheci um senhor em França que tinha uma filha. A filha tinha-se especializado a trabalhar vidro. E as peças eram lindas, mas ninguém as comprava. O pai é que a sustentava. Ora isto não é uma opção de vida. Claro que há génios que só são reconhecidos depois de morrerem. Mas nós temos de viver e não vivemos isolados: se ela quer que lhe comprem as peças, tem de adaptar aqueles vidros, se calhar até fazê-los menos maravilhosos. Ou transformar aquilo numa atividade paralela. Ouvi uma vez um arquiteto muito famoso dizer: ‘nada daquilo que eu faço é para os outros’. Ora isso é uma mentira e uma prepotência.”

7| Organize o currículo. E além disto, uma carta de apresentação dirigida à pessoa e à empresa a quem se dirige. “Faça o seu trabalho de casa: há algum diretor de comunicação naquela empresa? Telefone até ter o contacto mais direto possível. Investigue, para descobrir exatamente quem é a pessoa a quem deve mandar o seu currículo. Mostre que tem informação sobre aquela empresa.”

8| Vá ao mercado certo. Faça uma investigação: onde é que eu imagino que possa ser útil? Em que áreas? Em que mercados? “Por exemplo, aqui há uns anos havia um batalhão de delegados de propaganda médica”, conta Maria da Glória Ribeiro. “Com o aparecimento dos genéricos, a restrição das visitas aos médicos e a informação da internet, os delegados desapareceram. O que é que estas pessoas vão fazer agora? Eles sabem vender e têm técnicas de persuasão muito boas. E poderão usá-las noutras áreas, desde que sejam suficientemente maleáveis para mudar de registo. Tenho visto pessoas que foram capazes de mudar radicalmente as suas vidas. Porque a profissão é cada vez menos uma coisa fixa, para a vida.”

9| Valorize-se de várias maneiras. Hoje, quem emprega valoriza cada vez mais o lado humano, pelo menos nas grandes empresas. “Dantes, não havia, por parte do empregador, a atenção de ir ver o que a pessoa fazia nos seus tempos livres”, nota Maria da Glória. “Hoje, a dimensão extra-profissional é muito importante. Porque as ‘soft skills’ são o que nos distingue dos outros e mostra a nossa dimensão humana. Por exemplo, uma engenheira que criou uma pequena marca de roupa no Facebook. Não vende muito, mas isso vai valorizá-la imenso.” Atualmente, as empresas investem imenso em ‘team-building’, que ajuda a manter o espírito de grupo, o bom ambiente e a cooperação. “Em empresas grandes, cada vez há mais consciência da importância de as pessoas serem capazes de interagir umas com as outras. Já existem muito poucos chefes despóticos e herméticos. É um tipo de liderança que já não é aceitável, pelo menos nas grandes empresas. Hoje em dia a liderança tem de ser humana, realista, virada para as pessoas.”

10| Mantenha-se ativa. Não se desleixe como pessoa, continue a vestir-se bem, a maquilhar-se, a sair de casa todos os dias, a lutar pelo que quer. E se essa estratégia não está a funcionar, mude de abordagem, vá por um caminho diferente.

A (r)evolução feminina
“Não tenho nada a ideia de que uma mulher ambiciosa seja hoje vista de forma negativa”, comenta Maria da Glória Ribeiro. Claro que ainda não existe verdadeira igualdade: “Alguém disse que só se seria verdadeiramente igual quando uma mulher incompetente chegasse a lugares de topo.” Mas hoje há cada vez mais mulheres nas empresas, apesar das diferenças entre os sexos. “Em Portugal, os homens continuam a ser educados para ter uma carreira e se focarem na vida social. Das mulheres, espera-se que tirem a mesma formação que os homens, mas depois a evolução no mercado de trabalho deixa de ser exigida.” Defende que devia ser permitido aos homens tomarem a opção doméstica e às mulheres evoluírem nas empresas. “Claro que, quando temos problemas económicos gravíssimos, isto vai mudar muito lentamente porque a crise não ajuda nada à evolução, mas as mentalidades estão a mudar.”

Artigo publicado inicialmente em 2016

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