Testemunhos reais:

‘Não tive o mínimo problema em deixar de trabalhar a partir do momento em que o salário do meu marido o permitiu.’ Ana Ferreira tem 29 anos, no seu colo, está a pequena Carolina, prestes a fazer quatro. ‘Principalmente agora, que vamos avançar para o segundo bebé, fazia todo o sentido ficar em casa. Ao estar oito horas diárias presa a uma secretária, com a minha filha em casa dos avós, acabei por perder momentos únicos: lembro-me de que da primeira vez que a Carolina riu eu não estava lá. E isso é um momento impossível de recuperar.’
Há dez anos a trabalhar numa editora, podia adivinhar uma progressão na carreira, porém confessa que isso não representou um embaraço ao desejo de abdicar. ‘Quando falei do assunto à minha mãe, disse-me que era louca, que tinha andado a lutar antes do 25 de Abril para ter tantos direitos como os homens e agora vinha a nova geração de mulheres estragar tudo.’

AFINAL, O QUE QUEREM DE NÓS?
Fátima Gysin, psiquiatra e sexóloga, arrisca-se a lançar uma resposta a esta questão: ‘Querem que sejamos supermulheres. Temos de ser amantes, dedicadas à casa, ter uma carreira, ser mães presentes, e tudo isto com um sorriso nos lábios.’ Uma tarefa digna dos 12 trabalhos de Hércules, mas que é uma consequência inerente à entrada da mulher no mundo do trabalho: ‘O sexo feminino pediu de si próprio algo que não era possível para provar que era igual aos homens teve de ser melhor do que eles.’
Quem disse que ser mulher era fácil? Como formigas rebeldes, à semelhança do herói da ‘Formiga Z’, algumas mulheres colocam um ponto final à correria e ao stresse e perguntam-se em nome de quê realizam tantos sacrifícios.
Porém, não nos iludamos: há sempre um preço a pagar, e este coloca-se essencialmente a três níveis: a perda de independência económica, o facto de, ao ganharem maior disponibilidade mental para o marido (que continua a investir na carreira), existir a possibilidade de se gerarem discrepâncias no seio do casal e na inevitabilidade dos filhos crescerem e de, no futuro, isso significar um vazio na existência destas mães.

A VERGONHA EM ASSUMIR QUE JÁ NÃO SE TRABALHA
Por fim, na lista dos contras surge o problema social, porque é real: ‘Estas mulheres não gostam de dizer em público que não fazem nada, quando, no fundo, correm o dia todo para colocar os filhos no colégio, no ballet e no judo. Têm uma vida de escravas e muitas vezes esquecem-se de si próprias em prol da família’, lembra Fátima Gysin.

O MEDO DO FUTURO
‘Senti alguns estigmas sociais. Por um lado, havia mulheres com uma certa inveja, enquanto a outras esta decisão fez confusão, principalmente porque significava perder a independência económica.’
Ana Silvestre deu também um grande passo e conhece as dúvidas e interrogações que lhe são inerentes. Com formação superior, era responsável de recursos humanos num jornal. Até que, à terceira gravidez, tomou a decisão que se adivinhava: ‘Não tinha tempo para estar com os meus filhos chegava a casa e era uma correria. Decidi abandonar o emprego e ir para casa.’ Se foi fácil? Nem por isso. Mas revelou-se, sem dúvida, compensador: ‘Custou–me a adopção a uma nova rotina. Estar só com as crianças é muito cansativo. Nem sequer me posso permitir estar doente! Tenho de estudar com eles, de ir buscá-los à escola. Porém, o balanço é positivo. Converso com os meus filhos sobre os problemas na escola. Antes, quando chegava a casa, os problemas não chegavam até mim.’ É claro que pensa no futuro. ‘Tenho 39 anos e saí do mercado de trabalho. Há uma certa incerteza. Mas não quero fazer planos. Os meus filhos ainda vão precisar de acompanhamento durante uns anos.’

DESISTIR DA CARREIRA É SÓ PARA UMA MINORIA
Quisemos saber o que diziam os números. Se estas duas mulheres eram a maioria ou a minoria. E chegámos à conclusão de que a dedicação à carreira a longo prazo é a opção de um número crescente de mulheres. Na sociedade portuguesa sempre existiram aquelas que deixavam a vida activa a partir de certa fase, geralmente quando casavam e tinham o primeiro filho. O que acontece é que esse número tem vindo a diminuir: ‘As estatísticas evidenciam que cada vez mais mulheres têm uma ocupação a longo prazo. O fenómeno de voltar para casa aconteceu no passado mais do que agora’, explica a socióloga Maria das Dores Guerreiro. A curva relativa à ocupação feminina é ascendente até aos 30 e depois começa a decrescer, mas cada vez menos. ‘A sociedade actual espera que a mulher tenha uma profissão equiparada à dos homens.
Aquela que opta por ficar em casa não cumpre essa expectativa social, dado que não é autónoma financeiramente: a Constituição estabelece que homens e mulhe- res, como cidadãos, têm o dever de desenvolver uma actividade para seu sustento e o dos filhos.’
Para a socióloga, a escolha de certas mulheres, com carreira consolidada, de se dedicarem aos filhos prende-se com a falta de apoio tanto em termos familiares como estatais: ‘O homem ainda é reticente na partilha igualitária das tarefas domésticas e no assumir que o seu papel não se esgota ao final de um dia de trabalho.’ A igualdade em termos de oportunidades não encontra reflexos na defesa do direito à paternidade: ‘Estamos perante novas expectativas quanto ao papel do pai, e cabe à sociedade criar estruturas para que tal se concretize. A lei é discriminatória não concede iguais direitos a esse nível.’

COCOONING: UMA ESCOLHA DIFERENTE

Para Fátima Gysin, a opção destas e de outras mulheres assume-se como uma mudança geral da sociedade, da qual o regresso a casa é apenas um dos modos de expressão.
A procura de formas alternativas de estar na vida generaliza-se, pelo menos nas camadas da população com mais poder económico. ‘Passamos do fast food ao slow food’, afirma, uma imagem que exprime o aparecimento de um ritmo mais lento, em que a prioridade deixou de ser trocar de carro todos os anos. ‘A tendência actual em termos sociais é esta mesmo. Assiste -se ao cocooning, uma expressão inglesa que indica um regresso ao ninho. Há a necessidade de ter uma vida íntima e a convicção de que a qualidade de vida não passa por responder aos incentivos do consumo. ‘Quando é que aquilo que tenho chega e é realmente prioritário para mim?’, perguntam as pessoas. ‘A filosofia do consumo está a tomar outras perspectivas e cambiantes’, conclui.
Esboça-se um outro mapa social, que leva a pessoa a questionar-se sobre o que a faz feliz. Para algumas mulheres, a decisão passa por uma entrega maior à educação dos filhos. ‘Não há nada de errado em fazer uma escolha que é ética. Quem somos nós para dizer que uma é melhor do que outra?’
A psiquiatra considera essa decisão de um ângulo positivo, desde que enquadrado por uma determinada concepção da vida, em que se estabelece o que é prioritário para a mulher. ‘É uma decisão que conduz a uma outra forma de estar, ao questionamento de valores, e que vem no sentido de re-humanizar a mulher, depois de ter perdido esse estatuto.’ Qualquer que seja a opção, apresenta vantagens e desvantagens. ‘Existem situações em que as necessidades dos indivíduos estão mais equilibradas, de acordo com os critérios individuais de qualidade de vida.’ É preciso ter a coragem de escolher, mesmo quando a escolha não está na moda, seguindo apenas o maior critério de todos: a busca da felicidade.

O QUE SE PASSA LÁ FORA

* No Canadá, 35% das mulheres não se dedicam a nenhuma profissão.
* 31% das mulheres norte-americanas com mais de 16 anos não se encontram na vida activa.
* Em Espanha, 111 100 mulheres abandonaram o trabalho no último trimestre de 2004.
* Na Europa, apenas a Turquia e Malta apresentam menos de 30% de mulheres activas.
* Na Alemanha, Bélgica e Noruega mais de 30% das mulheres optaram por trabalhar em part-time.
* Apenas os europeus entre os 15 e os 20 anos declaram passar mais de hora e meia por dia a ajudar nos trabalhos domésticos.

Em Portugal, 92% de mulheres com formação superior estão empregadas (o número mais elevado da Europa). O mercado de trabalho é o mais igualitário a taxa de actividade feminina em Portugal é de 63% (contra 79,2% dos homens), enquanto na Grécia, Espanha e Itália se situa nos 47%.

Por Sofia Martinho

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