Foto: João Lima

Profissionais que trabalham nos locais mais inóspitos do mundo ou em zonas de conflito porque querem contar uma história que ninguém conhece ou cuidar de quem não pode fugir, contrariando o instinto básico de sobrevivência, são, para mim, seres especiais, mesmo que eles não o achem e relativizem a sua importância, como Joana Sá quando nos disse “sou apenas um grão de areia”. Esta enfermeira de Coimbra é realmente fora de série. Quem, no seu ‘juízo’ perfeito, tendo oportunidade de trabalhar num país pacífico, preferia trocar Portugal por países assolados pela guerra, como Paquistão, Congo ou Sudão do Sul? A Joana! Sempre sonhou com uma carreira na área da Saúde e optou pela Enfermagem porque lhe permitia fazer algo menos convencional fora do país. Trabalhou em Portugal de 2006 a 2011, em hospitais diferentes e nas urgências, mas, apesar de ter gostado da adrenalina daquele serviço, ainda assim, faltava-lhe algo para se sentir realizada. Não sabia bem o que era, mas quando foi a Israel fazer um curso sobre trauma em situações de conflito, e depois se voluntariou na Cruz Vermelha Internacional (CVI), soube que tinha encontrado o seu caminho. Quando acabou a primeira missão e voltou a Portugal já só pensava qual seria o próximo destino. Depois de ter trabalho em países como Iémen, Líbano, Congo, Palau, Paquistão ou Venezuela, mais recentemente tem-se dedicado a fazer a gestão de programas de saúde com uma organização inglesa, Mentor Initiative, na qual é responsável pelos programas na Venezuela e na República Centro Africana, em que faz visitas regulares aos dois países mas também uma componente em trabalho remoto.

Foto: João Lima

Onde foi a sua primeira missão na CVI?

Fui para o Paquistão seis meses mas tive quase um ano para me preparar. Fiz a entrevista em janeiro de 2011 e a missão era no final do ano. Avisaram-me logo, “olha, tens tempo para te prepares e pensares se é isto que queres fazer”. Ainda hesitei, mas acabei por aceitar e pedi uma licença sem vencimento. A ideia era fazer a missão e voltar, mas quando regressei já sabia que não queria ficar por muito tempo.

Como foi a experiência?

Gostei muito, mas ao princípio foi complicado! A roupa foi logo um obstáculo, tinha de andar toda coberta e com véu. Fui para um hospital de campanha, em tendas, e como era um hospital-escola, nos três primeiros meses limitei-me a observar. Mas tive de chefiar uma equipa de enfermeiros homens, o que se revelou muito difícil porque não podia olhá-los nos olhos, por isso trabalhei com mulheres e dava instruções aos homens através de biombos porque não podia ver um homem sem roupa.

Nos países muçulmanos só podia tratar de mulheres?

Depende, nos menos conservadores, como o Líbano ou o Iémen, formei homens e mulheres. Nos mais conservadores, como o Paquistão, eram mais mulheres, mas aqui aconteceu uma história interessante. Havia uma sala de cuidados intensivos com 12 camas e tínhamos duas mulheres internadas cujas camas estavam rodeadas por biombos porque não podiam estar à vista dos homens. A certa altura, uma delas entrou em paragem respiratória e ninguém notou. Eu só me apercebi quando passei pela maca dela e fui ver o que era. De repente foi o pânico porque a enfermeira que estava a cuidar dela tinha ido à casa de banho e chamei os enfermeiros para tratarem da situação, mas tive de ser eu a meter mãos ao trabalho. No final, furiosa, perguntei-lhes se a ética deles como profissionais de saúde lhes permitia não tocar numa mulher numa situação de vida ou morte. Ninguém respondeu, à exceção de um, com uma barba enorme que fazia lembrar o Bin Laden, e que me disse, em lágrimas, que naquele dia tinha aprendido mais sobre respeito do que na sua vida inteira. Com essa situação acabei por ganhar o respeito deles.

E viu ferimentos diferentes
 do que estava habituada…

Ah, sim, trabalho quase exclusivamente em cirurgia de guerra e no Paquistão recebíamos vítimas de balas, explosões. Um dos casos foi o de uma criança a quem tiveram de amputar uma perna e tinha uma lesão enorme no pescoço e peito que dava para ver o coração bater. Essa foi a ferida mais complicada que vi na vida, e logo na primeira semana da primeira missão. Por mais preparados que estejamos, custa muito!



Foto: João Lima

Mas passados 6 meses voltou a Portugal?

Sim, mas seis meses depois fui chamada para uma missão de urgência no Congo e a seguir pediram-me para ir para a República Centro Africana. Foi nessa altura que terminei o vínculo com o SNS. Fui ter com o meu chefe e disse-lhe que era aquele tipo de trabalho que queria fazer e percebi perfeitamente quando ele disse que não podia dar mais licenças porque seria injusto para com os meus colegas.

Esteve em vários países pouco turísticos: Líbia, República Centro Africana, Paquistão, Gaza…

Sudão do Sul, Coreia do Norte, Zimbabué…

Em qual teve a pior experiência?

No Iémen, em 2014-15. Fui para lá em resposta de urgência, para um hospital numa zona onde os bombardeamentos eram constantes e que atendia cerca de 600 pessoas diariamente. Como tínhamos imensos problemas para chegar ao trabalho, havia muitos enfermeiros a morar no hospital. Um dia, acordei com o bombardeamento de duas casas mesmo ao lado a serem totalmente destruídas. E até recebemos um telefonema a dizer que tínhamos de fechar o hospital e sair porque aquele bairro ia ser bombardeado. Tivemos de evacuar 600 pessoas, o que foi muito complicado. Os bombardeamentos eram tão intensos que durante dias não víamos a luz do sol. Quando saímos dessa zona, percebemos que o sol também brilhava no Iémen.


Dessa vez temeu pela sua vida?

Dessa vez, sim…

E a família, como lida com a sua vida?

É complicado! Tento fazer com que a coisa pareça melhor quando estou nessas situações. No Iémen havia internet e falava com os meus pais por Skype, mas tínhamos conversas curtas porque nunca sabia quando uma bomba rebentava ali perto e eles iriam ouvir e aperceber-se do perigo. Só quando volto da missão é que lhes conto mais um pouco daquilo por que passei.

Trabalha com equipas internacionais?

Sim, sempre, tradicionalmente sou a única portuguesa, mas já trabalhei com outros portugueses. A maioria são escandinavos e da Europa Central, alguns canadianos, neozelandeses e africanos. É enriquecedor porque trabalhamos com pessoas de backgrounds muito distintos.

E têm o material que precisam ou têm de improvisar?

Trazemos o material da sede da CVI, na Suíça. Temos protocolos rígidos e levamos todo o material que precisamos. Não temos de improvisar, mas há protocolos que têm eficácia comprovada e que incluem materiais que se encontrem facilmente nos próprios locais, como o vinagre e o açúcar.

Têm de ser um bocadinho MacGyver?

Exatamente (risos). Quando me falaram em pensos com açúcar e vinagre comecei a rir, pensei que estivessem a brincar, mas não, são técnicas com mais de 50 anos. O penso com açúcar é genial para feridas com cavidades, porque o açúcar ajuda a absorver todos os fluidos infectados e o vinagre funciona como antibiótico local.

Há algum sítio onde recusasse ir?

Não gostava de voltar ao Sudão do Sul, mas se me disserem para ir, eu vou. Já lá estive 4 vezes, é um país muito duro, básico, onde há mosquitos do tamanho de elefantes. Só recuso trabalhar em contextos epidémicos, com Ébola, por exemplo. Não tenho experiência nenhuma…

Foto: João Lima

Tornou-se uma pessoa mais dura emocionalmente?

Curiosamente tornei-me mais sensível. Eu via o doente como uma peça que tinha de reparar e evitava envolver-me. No entanto, houve uma situação no Congo que me ensinou que não podemos ser tão mecânicos. Recebemos dois miúdos, vítimas de uma explosão violentíssima, que vinham acompanhados pela mãe e a irmã que trazia um recém-nascido ao colo. Enquanto eu estabilizava os miúdos, a minha colega estava a falar com a mãe, e eu achava que era uma perda de tempo. A verdade é que ela soube que a explosão tinha atingido a casa deles. A mãe, com o trauma, entrou em trabalho de parto e depois recusou o bebé. A minha colega esteve a cuidar do bebé e da mãe para ela o aceitar, o que aconteceu ao fim de dois meses. Se a minha colega não tivesse dado aquele passo, o bebé teria morrido à fome.

No final do dia, quando se deita, não vêm todas essas histórias à cabeça?

Não, na primeira missão disseram-me: ‘Leva sempre a tua almofada de casa. Porque quando a coisa está complicada tens a almofada que sempre conheceste.’ E eu faço isso, depois, temos de arranjar formas de aliviar o stresse. Eu gosto muito de cozinhar e é o que faço quando tenho tempo.

Nunca sofreu de stresse pós traumático?

Sim, depois de sair do Iémen. Era a minha quarta missão de emergência em conflito – Congo, República Centro Africana, Gaza e Iémen – no espaço de um ano e meio. Há conflitos onde há bombas, ou só há tiros, outros à machadada. No Iémen, houve bastante violência, depois disso decidi não trabalhar em conflito durante um ano. Saí de lá em maio, e em junho estava cá. O mês das festas. Sempre que havia foguetes eu tinha uma reação estranha e à conta disso percebi que precisava de me proteger mais. Temos de ter presente que não somos mais fortes que ninguém. Espero que não volte a acontecer porque agora sou mais cuidadosa, já não aceito fazer este tipo de missões de seguida.

Pessoalmente, o que ganhou com estas experiências?

Muito! Em 2017, no Congo, tivemos uma situação muito complicada em que houve um ataque a uma aldeia e alvejaram exclusivamente mulheres e crianças. Nós recebemos 15 vítimas, todas crianças pequenas e mulheres grávidas. Como era final de novembro, resolvi organizar uma festinha de Natal. Fizemos bolos, pipocas e vimos filmes. Eles nunca tinham visto um filme, nem comido pipocas ou bolo! Foi tão bom vê-los a rir agarrados a nós… encheu-nos o coração. Os congoleses são um povo extraordinário, muito alegre, e nós tínhamos a sorte de morar numa zona à beira de um lago. No final do dia, olhávamos para o lago e até parecia que estávamos no paraíso.

O que é mais duro?

Lidar com as expectativas de quem está cá à nossa espera, em especial a minha mãe. Custa-lhe muito que eu esteja sempre fora.


E ter uma vida pessoal não é complicado?

Muito. Eu gosto muito da minha vida, ter filhos e casar nunca foi um objetivo meu, embora não afaste esse cenário. Mas voltar à vida rotineira é complicado. Mais depressa reorganizava a minha vida para ter estes trabalhos como part-time, três meses por ano, e depois o resto do tempo ficava em Portugal para fazer outras coisas. A maior parte dos meus amigos estão casados e com filhos, eu sou a tia maluca que vem das viagens com histórias para contar. Há quem me diga que a vida não é só trabalho, mas a verdade é que a minha vida não é só trabalho.

À volta 
do mundo

Tradicionalmente é a única portuguesa nas equipas internacionais da CVI. “A maioria são escandinavos e da Europa Central, alguns canadianos, neozelandeses e africanos.
É enriquecedor porque acabamos
por trabalhar com pessoas de backgrounds muito distintos”. Do Congo ao Paquistão, passando pela Coreia do Norte ou Gaza, Joana é sempre bem recebida, “hoje em dia quase toda a gente sabe onde é Portugal, sobretudo conhecem o Cristiano Ronaldo (risos), é impressionante. E muitos sabem que Portugal foi um país de descobridores.”

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