O desconfinamento trouxe um alívio para muitas pessoas que ansiavam por poder sair ao ar livre, comer uma refeição num restaurante, visitar familiares ou transitar entre concelhos. Mas também houve aqueles que puderam viajar para o exterior, e mostraram nas redes sociais as férias de luxo nas Maldivas, Dubai ou outros destinos que não são para todas as carteiras. E eis que os cidadãos comuns, indignados, protestaram: “Em plena pandemia? Com tantas pessoas a sofrerem com a crise, para quê esta ostentação?”. A resposta é clássica: “É fruto do meu trabalho”. Será?

Segundo a ONU, mais de 780 milhões de pessoas vivem com menos de 1 euro e 57 cêntimos por dia – será que esse é o fruto do trabalho delas? O exercício contrário pode parecer exagerado e despropositado, mas justificar e defender o nosso sucesso unicamente com o mérito também diminui o trabalho de tantos outros que poderiam estar no nosso lugar – mas simplesmente não estão.

A ideia de que quem trabalha o suficiente chega ao sucesso, a base da meritocracia, parece perfeita – mas ilusória. É que o mundo não é assim tão justo. Não há espaço para tantas pessoas bem sucedidas. E quem ganha muito bem provavelmente chegou lá graças ao mérito, mas não só: o sucesso é resultado de uma equação que inclui privilégios e, pasmem, sorte!

Quanto uma pessoa ganha depende do lugar onde ela vive (Segundo a Country Economics, os Estados Unidos da América, o Reino Unido e a Alemanha são os países com maior salário mínimo no mundo, enquanto o final da lista é ocupado por países como Vietname, África do Sul e Zâmbia); da sua origem (Os ganhos de um imigrante são em média 12,6% menores do que de um trabalhador local, segundo dados da OIT); da cor da sua pele (38% das pessoas com ascendência africana em Portugal têm dificuldade em pagar as contas, segundo o estudo “Ser negro na União Europeia”); do seu género (Em Portugal os homens ganham em média 22,1% mais do que as mulheres, de acordo com a OIT); da sua orientação sexual (Uma análise norte-americana de 32 estudos de diversos países descobriu que homens gays ganham 11% menos do que heterossexuais, mulheres lésbicas ganham 9% mais do que mulheres heterossexuais); do nível de educação que recebeu (Pessoas licenciadas ganham 54% mais do que as que não o são, segundo o estudo “Education at a Glance” de 2020); e de tantos outros fatores. Preencher uma ou mais destas caixas coloca uma pessoa numa posição de mais ou menos privilégio, o que influencia todas as oportunidades que ela vai ter durante a vida. Ser privilegiado não diminui o valor do seu trabalho – de forma muito simplista, só faz com que seja mais fácil chegar lá em cima. 

Sabe aquela frase: “Estava no lugar errado na hora errada”? O professor de economia norte-americano Robert Frank escreveu um livro bastante provocativo que coloca a sorte como um dos ingredientes mais importantes para o sucesso. Duas pessoas com as mesmas oportunidades na vida, que estudaram juntas, têm as mesmas competências e são dedicadas ao mesmo nível, podem ter destinos bem diferentes porque uma delas estava no lugar certo e na hora certa, e a outra não. Pode ser o diferencial que faz uma delas ser CEO enquanto a outra permanece num cargo subordinado por décadas. Em entrevista à VOX, Robert Frank destaca o perigo de desconsiderar a sorte nesta equação do sucesso: “Encoraja a visão de que se não sou bem-sucedido é porque sou deficitário de alguma forma”. 

Mas então porque insistimos em justificar o nosso sucesso com “mérito”? Li um artigo sobre o assunto que me fez pensar. Tenho a tendência a acreditar, talvez ingenuamente, que toda a pessoa é, por norma, boa. E que as maldades e a discriminação, são resultado da ignorância. O artigo, escrito por Clifton Mark, um pensador de teoria política, diz que é mais cômodo acreditar que se eu ganho mais do que a maioria da população mundial, eu cheguei lá por causa do meu trabalho. Legitima o nosso sucesso, dá-nos créditos pelo que ganhámos. Mas esse pensamento é egoísta – se eu mereço estar no topo, significa que os outros merecem estar embaixo. Reconhecer a nossa posição na sociedade faz-nos mais justos e sensíveis. Acho que não tem mal viajar para as Maldivas ou para o Dubai, aliás, quando eu puder também quero fazer. Mas se um dia acontecer, é preciso dizer que não, não é fruto (só) do meu trabalho.

Palavras-chave

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

António Casalinho: ninguém o pára

António Casalinho: ninguém o pára

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

E se os refugiados do clima formos nós?

E se os refugiados do clima formos nós?

Deus, intuição e Rock and Roll

Deus, intuição e Rock and Roll

O

O "look" de Letizia no reencontro com a filha em Marín

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

O futuro da energia é agora

O futuro da energia é agora

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Samsung vai lançar smartphone dobrável tríptico até final do ano

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Da Varanda ao Jardim: Viva o Exterior com a Nova Coleção JYSK

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e

Na CARAS desta semana - Edição especial viagens: Os melhores destinos para umas férias de sonho em hotéis e "resorts" de Portugal

Os 40 atores negros mais famosos de Hollywood

Os 40 atores negros mais famosos de Hollywood

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1740

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1740

Parabéns, bicharada!

Parabéns, bicharada!

Fundação Calouste Gulbenkian: Uma sede para a história

Fundação Calouste Gulbenkian: Uma sede para a história

Ovos

Ovos "ilibados" no caso do colesterol

Pigmentarium: perfumaria de nicho inspirada na herança cultural da República Checa

Pigmentarium: perfumaria de nicho inspirada na herança cultural da República Checa

Não perca na CARAS: tudo sobre o casamento de Catarina, filha de António Costa, com João Rodrigues

Não perca na CARAS: tudo sobre o casamento de Catarina, filha de António Costa, com João Rodrigues

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1741

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1741

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Georgina Rodriguez abre álbum de fim-de-semana a dois com Cristiano Ronaldo

Georgina Rodriguez abre álbum de fim-de-semana a dois com Cristiano Ronaldo

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem "acordar" células cancerígenas adormecidas nos pulmões

Celebridades que viram os seus vídeos íntimos na Internet

Celebridades que viram os seus vídeos íntimos na Internet

“Uma mãe-chimpanzé educa os filhos tal como uma mãe humana devia educar os seus”. Os ensinamentos de Jane Goodall numa entrevista a VISÃO

“Uma mãe-chimpanzé educa os filhos tal como uma mãe humana devia educar os seus”. Os ensinamentos de Jane Goodall numa entrevista a VISÃO

Rainha Letizia celebra 53.º aniversário

Rainha Letizia celebra 53.º aniversário

“Senhora do Mar”: Rafael e Rita fazem amor sem saberem que são primos

“Senhora do Mar”: Rafael e Rita fazem amor sem saberem que são primos

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Um viva aos curiosos! David Fonseca na capa da PRIMA

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Pode a Inteligência Artificial curar o cancro?

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Nuno Diniz: A história de um chef e professor refugiado na aldeia

Nuno Diniz: A história de um chef e professor refugiado na aldeia

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Vasco Futscher - O mundo inteiro em cada forma

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

Salgueiro Maia, o herói a contragosto

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Um século de propaganda na VISÃO História

Um século de propaganda na VISÃO História

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de "Hell's Kitchen"

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz