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Às vezes parece que basta um olhar para fazer soltar as faíscas da paixão. “Alguma coisa nos despertou o coração. Talvez um olhar, um sorriso, ou até uma imagem por nós idealizada”, afirma Marta Fonseca, 40 anos, professora. Mas tudo indica que por detrás do processo da paixão estará algo mais que os sentidos. “Obviamente que temos um fundo animal, somos sem dúvida animais, mas com toda a evolução do ser humano penso que as paixões, actualmente, se podem explicar melhor ao nível das emoções do que das químicas”, observa Sónia Parreira Duque, psicóloga com experiência no acompanhamento de casais. Até porque os nossos parceiros não são tão escolhidos ao acaso como à partida poderemos pensar.

As duas metades da laranja

Mas afinal o que procuramos naqueles que “escolhemos”? A tradição diz que os opostos se atraem. E parece que, em certa medida, esta equação funciona quando o resultado final que se pretende é uma história de amor. “Para que uma relação funcione os parceiros não podem ser pessoas muito semelhantes, senão entram muito mais em conflito”, afirma a psicóloga. “Na maioria dos casais os seus elementos escolhem pessoas não digo opostas, em termos de personalidade, mas muito diferentes. E, na minha opinião, é assim que as relações têm tendência a funcionar. Mas é preciso arranjar um equilíbrio na relação, cada um tem de fazer pequenas cedências”, alerta. É que, por exemplo, se um é muito carinhoso e o outro não gosta de demonstrar sentimentos, a dada altura isto também pode ser motivador de conflitos. Ambos têm de ceder para ir de encontro, minimamente, às expectativas do outro.

Porém estas diferenças parecem ser um bom alimento para as relações a longo prazo. “É difícil, só porque nos sentimos atraídos, conviver com alguém por muito tempo. Tem de haver a tal diferença, porque se as pessoas forem muito semelhantes perde-se a tal chama, o lado de paixão que é bom que se vá mantendo ao longo do tempo”, analisa Sónia Parreira Duque, que vai mais longe: “se as pessoas forem muito semelhantes, tendo em conta que a paixão dos primeiros tempos vai sendo canalizada noutros sentidos, o que é que põe faísca na relação de duas pessoas que decidem construir uma vida juntas? Se são iguais isso não traz nada de novo para a relação. Se são muito semelhantes não há a tal química. Para que a mistura resulte bem temos de juntar componentes diferentes.”

E a psicóloga dá exemplos concretos de misturas pouco convenientes. “Se forem os dois muito teimosos isto pode dar azo a conflitos brutais, porque ninguém dá o braço a torcer. Se são os dois muito melosos também se cria uma fusão tal que às tantas é demais. Ao fim de dez anos se calhar reparam que já não têm amigos, já não têm convívio com mais ninguém. Acredito que se for um a puxar mais para o exterior e outro a puxar mais para a casa é possível que se consigam ajustar e criar um equilíbrio.”

Diferenças que podem ser fatais

Mas se ao nível das personalidades parece que o ser humano se dá melhor com alguma diferença, há disparidades que podem matar as relações. É o caso das diferenças religiosas, ideológicas ou até mesmo financeiras, especialmente se for a mulher a levar mais dinheiro para casa ao fim do mês. E se algumas têm hipóteses de ser transpostas – “estas diferenças sócio-culturais podem ser um entrave, mas parece-me ultrapassável se houver cedências de parte a parte” – outras dificilmente passarão em branco.

“Na nossa sociedade ainda está muito enraizado o conceito de cabeça de casal. Logo, se a mulher ganha mais ou tem uma formação académica muito diferenciada, isso pode ser sentido”, analisa a psicóloga. “Tenho seguido um casal em que isso acontece e não é fácil. Por muito entendimento que os dois tenham da situação, causa sempre estranheza. Porque se vão a um restaurante é ela que paga. Se vão de férias é ela que paga. Isto em termos de auto-imagem do homem é desvalorizador. E para a mulher, que tradicionalmente precisa de sentir uma certa protecção, também não sente.” O mesmo tipo de sentimento pode ser desencadeado quando a diferença de nível académico ou profissional é grande. “Se a mulher é muito diferenciada e apresenta um parceiro com menos diferenciação, até para ela é estranho porque também se sente desvalorizada.”

Mas há casais que conseguem ultrapassar estas diferenças. “Conheço uma psiquiatra que é casada com um mecânico e dão-se lindamente”, conta Madalena Pereira, 31 anos, médica. “Mas esse entendimento também parte da abertura de cada um para lidar com a diferença. Discriminar alguém por diferenças políticas parece-me aberrante, até porque demonstra intolerância. Já envolver-me com um skinhead para mim seria contra natura, porque vai contra as minhas convicções sociais mais profundas. Além disso as pessoas envolvem-se com outras que frequentam o mesmo meio, ou seja, nunca me envolveria com um trolha porque dificilmente frequentamos os mesmos lugares, mas se frequentasse, seria possível”, diz a médica. Opinião um pouco diferente tem a maquetista Anabela Pereira, de 31 anos. “Tem de haver pelo menos semelhanças culturais e personalidades compatíveis”. Esta parece ser, aliás, a orientação mais comum. “A tendência das pessoas é para escolher outras do mesmo estatuto sócio-económico ou muito semelhante. Nestes pontos-chave penso que as pessoas escolhem assim, até porque habitualmente se conhecem dentro dos mesmos meios, através de amigos ou familiares. E para as relações funcionarem melhor penso que as fórmulas são estas: alguma diferença de personalidade, mas alguma semelhança nos objectivos de vida e valores”, resume Sónia Parreira Duque.

Factores de atracção

Há também quem não se julgue suficientemente atraente para chamar a si as atenções, mas a paixão é um sentimento democrático, do qual ninguém fica excluído. E aqui há teorias para todos os gostos.

Vários estudos dizem que para nos envolvermos com alguém, há uma série de alterações físicas que ocorrem desde o momento em que batemos o olhar naquela pessoa. Os nossos olhos transmitem a imagem do nosso objecto de desejo ao cérebro e aí vão ocorrer uma série de descargas físico-químicas responsáveis pelo brilhozinho nos olhos, pelas mãos suadas e pelo tal arrepio no estômago.

Ao mesmo tempo, os adeptos destas teorias consideram que certos tipos de corpo são mais atraentes que outros. Assim sendo, uma figura bem feminina, em forma de ampulheta, com uma cintura bem definida e seios proeminentes seria mais atraente para o sexo masculino. E um homem com costas em V, ou seja, ombros largos e musculatura firme, seria mais capaz de chamar a atenção do público feminino. Derivadas das teorias evolucionistas de Darwin, estas convicções atiram para o top dos mais atraentes aqueles cujos corpos pareçam mais capazes de se reproduzir e continuar a espécie. E de facto são atraentes. “Procuramos num homem o nosso conceito de estética e um tipo físico que nos transmita segurança e confiança. Provavelmente reminiscências pré-históricas da procura do homem caçador, do mais forte da tribo, capaz de assegurar a subsistência e defender a família”, opina a professora Marta Fonseca.

Mas, na realidade, nem sempre é assim. “O que eu noto, em observação clínica, é que as pessoas tendem a escolher parceiros com o mesmo grau de encanto. Geralmente um homem muito atraente não escolhe uma mulher muito feia e o oposto também é verdade. É como se tivéssemos mais ou menos ideia do que valemos e fossemos procurar alguém na mesma medida”, explica Sónia Parreira Duque. O medo da rejeição leva, também, pessoas menos atraentes a não arriscar, “porque muitas vezes não vão tentar conquistar alguém que imaginam os pode rejeitar.”

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