Joana Namorado: "Devemos ir ao psicólogo fazer um check-up regular à vida"
Joana Namorado: “Devemos ir ao psicólogo fazer um check-up regular à vida”

Valorizar a saúde mental é uma necessidade e Joana Namorado tem isso bem presente. Sobretudo numa sociedade onde tantas pessoas deixam de consultar um psicólogo por falta de recursos financeiros. Investida em mudar esta tendência, Joana juntou-se a João Costa e a Susana Coerver para criaram a Kindology, uma comunidade de psicólogos que pretende promover a circularidade na saúde mental através de consultas gratuitas para quem não as pode pagar. Numa conversa com a ACTIVA online, Joana explicou-nos melhor este conceito e a importância do mesmo numa altura em que os números de ansiedade, depressão e burn out crescem entre os portugueses.

Estima-se que quase um quinto da população portuguesa sofra de uma doença mental. Embora a saúde mental seja um tema cada vez mais presente, ainda há um longo caminho a percorrer para reverter estes números?

Sim, na base da pirâmide e na sua singularidade estão questões como o medo de julgamento ou a rejeição. Algumas pessoas podem ter medo de serem julgadas ou rejeitadas pelos outros ao admitirem que estão a enfrentar problemas emocionais. As pessoas sentem que precisam de manter uma máscara de naturalidade, de força, de estabilidade para serem aceites pelos outros.

A dificuldade em reverter os números também pode estar relacionada com a falta de compreensão emocional. Algumas pessoas podem não ter uma compreensão clara do que se está a passar consigo e sobre os seus próprios sentimentos e emoções. Em paralelo, a crescente limitação financeira da população em geral faz com que se adie a resolução de problemas que podem ser tidos como secundários ou que se resolvem sozinhos, o que naturalmente acaba por adensar o problema. Um problema de saúde mental precisa de ajuda profissional e, nesse sentido, o autodiagnóstico e a expectativa de que tudo pode ser resolvido de forma autónoma torna-se um problema adicional.

As pessoas sentem que precisam de manter uma máscara de naturalidade, de força, de estabilidade para serem aceites pelos outros.

O trabalho que desenvolvem na Kindology faz parte desse caminho. Como surgiu este projeto?

No Natal de 2020 criei uma página de Instagram para dar resposta a cartas ao Pai Natal de forma gratuita (enquanto psicóloga “duende”). Em poucos dias recebi mais de 900 cartas de crianças e adultos. Crianças que queriam brinquedos e muitos, muitos adultos, que ao perceberem que havia do lado de cá uma psicóloga, pediram ajuda, respostas e uma saída para a sua vida. Com a resposta, sem custos, voltaram a acreditar na magia do Natal e, sobretudo, no significado da vida.

A importância que um gesto tão simples teve na vida daquelas pessoas foi o revelar de uma necessidade latente – havia e há realmente muitas pessoas a precisar de ajuda psicológica que não têm capacidade para pagar. Rapidamente se construiu uma ideia para ajudar aquelas pessoas, particularmente através da criação de uma iniciativa que colocasse empresas e pessoas a trabalhar conjuntamente em prol do bem-estar e da saúde mental da sociedade.

Disponibilizar consultas de psicologia gratuitas a quem não as pode pagar é um passo muito importante e diferenciador. Foi fácil perceberem que a vossa missão passava precisamente por isto?

Tivemos a sorte de descobrir o nosso propósito e de compreender, com a Kindology, que tínhamos em mãos um tema tão premente e que precisa(va) urgentemente de soluções. Sabíamos que já havia muitas entidades a proporcionar consultas de psicologia gratuitas. Mas sentimos, de alguma forma, que o impacto social neste contexto precisava de ir mais longe. Precisava de ser adotada uma abordagem criativa e arrojada.

Foi a pensar nisso que decidimos estabelecer um sistema de impacto em vários eixos: no apoio direto a pessoas com problemas de saúde mental, através da oferta de consultas de psicologia, mas também no desenvolvimento de um trabalho criativo, que promovesse a saúde mental como algo absolutamente normal.

Por isso é tão importante e desafiador para nós, a título individual, apostarmos na Kindology enquanto marca e enquanto veículo de comunicação. Porque se fizermos bem o nosso trabalho conseguiremos ajudar pessoas de forma massificada, para que se sintam confortáveis em ir ao Psicólogo, para que não se escondam e para que não haja estigma ou preconceito aplicado a quem, em determinado momento, tem um problema de saúde mental. Porque calha a todos.

Cofundadores da Kindology: Joana Namorado (Dir. Técnica e Psicóloga), João Costa (CEO) e Susana Coerver (Head of Mkt)

Quais são as doenças mentais que mais afetam os portugueses?

Há vários problemas de saúde mental que afetam os portugueses, mas a depressão é o elemento central e que afeta 7% da população portuguesa. É uma condição grave que provoca uma sensação persistente de tristeza, falta de interesse e perda de prazer nas atividades do dia-a-dia. Se 7% parecer um número pequeno, que não é, digamos que este é o estágio máximo, motivo pelo qual é tão relevante o tema da saúde mental em Portugal. Porque oito em cada dez trabalhadores correm risco de burnout, o que significa que há um número muito elevado de pessoas a caminhar para lá.

A ansiedade é outro dos problemas de saúde mental e que é igualmente um estágio intermédio para o burnout. A ansiedade é caracterizada pela preocupação excessiva, pela tensão e pelo medo e constantes receios. Os transtornos de ansiedade são muito comuns em Portugal, absorvendo aproximadamente 16% da população. Conhecermos e compreendermos estes números é muito importante, particularmente no que toca a cada um de nós e à forma como nos revemos nestes sintomas. Porque independentemente das ajudas que possam existir, o processo terapêutico começa dentro de cada um de nós. Mas estamos cá, também, para ajudar a gerar esse “despertar” interno.

Embora os fatores individuais sejam únicos, há fatores gerais que potencializam essas doenças?

Sim, por exemplo, no caso da depressão, considero que existem três fatores que a estão a tornar mais comum, nomeadamente o estilo de vida moderno (corre-corre), que com as suas exigências constantes pode ser bastante stressante e desgastante para muitas pessoas. É necessário aprender-se a parar e a estabelecer um equilíbrio saudável entre o trabalho e os momentos de lazer. Caso contrário, o trabalho excessivo, a pressão social para alcançar resultados e ser-se sempre competente em tudo, a falta de tempo para descansar, enfim, são tudo fatores que impulsionam os níveis de stresse e de cansaço – os principais fatores de risco para a depressão.

A rápida modernização da sociedade para o trabalho remoto nos últimos anos veio promover uma dicotomia no que toca ao bem-estar das pessoas. Por um lado, trouxe uma série de vantagens, desde a liberdade e flexibilização do trabalho ao tempo disponível. Por outro lado, esta transição veio colocar muitas pessoas em modo de isolamento social, com poucos momentos de interação e muitas vezes exclusivamente centrados no trabalho. Ora, esta ausência de relações pessoais e sociais significativas pode aumentar o risco de depressão e de outras condições de saúde mental, que são igualmente acentuadas pelo estigma associado à saúde mental e pela falta de acesso aos serviços de psicologia. É importante lembrar que procurar ajuda profissional pode fazer uma grande diferença no tratamento e recuperação desta e de outras doenças.

É imperativo deixar de desvalorizar determinados sintomas e começar a encará-los de frente para que eles não se tornem maiores do que nós?

Às vezes as pessoas desvalorizam os problemas e não pedem ajuda por vários motivos, ora porque não estão habituadas a receber apoio emocional de outras pessoas, porque sentem que precisam de lidar com os seus problemas sozinhas ou porque consideram que pedir ajuda é um sinal de fraqueza. Só que o adensar dos problemas parte, muitas vezes, precisamente do facto de não os resolvermos de imediato quando temos oportunidade para tal. Tudo tem solução, mas realmente é muito mais fácil trabalharmos os problemas se os soubermos identificar quando ainda têm uma dimensão pequena. Mas mesmo que não saibamos identificar os problemas, se compreendermos que devemos ir ao Psicólogo fazer um check-up regular à vida, estamos automaticamente a atuar de forma preventiva. Acontece muito frequentemente alguém ir ao Médico por um motivo de rotina qualquer e, de repente, receber um diagnóstico de um problema que existia em silêncio, mesmo a tempo de o resolver. Ainda bem que lá foi, verdade? Ora é exatamente isso que se procura com o apoio psicológico. Garantir que somos acompanhados de forma regular só para termos a certeza que está tudo bem.

Nenhum problema é pequeno demais para ser desvalorizado. Se houver alguma coisa que afete o bem-estar, a felicidade ou a nossa capacidade de funcionamento habitual, está na hora de ir ao Psicólogo.

Quando é que uma pessoa deve consultar um psicólogo?

O ideal é fazer um check-up anual ou semestral, mas há muitas situações em que o acompanhamento mensal também faz sentido. Portanto não existe, na realidade, uma regularidade adequada. O que deve acontecer, isso sim, é tentar antecipar os problemas de saúde mental para que não se tornem maiores e mais difíceis de resolver.

No entanto, porque sabemos que hoje a procura de um Psicólogo acontece quando os sintomas começam a aparecer, há um conjunto de fatores que devem incentivar de imediato a ida a uma consulta, nomeadamente os momentos em que lidamos com dificuldades emocionais, em períodos de emoções intensas e difíceis de controlar, como raiva excessiva, tristeza prolongada, medos, baixa autoestima ou dificuldades em lidar com perdas, mas também problemas de relacionamento em casa e no trabalho. O apoio psicológico pode ajudar a identificar padrões negativos de comunicação e comportamento, promover uma comunicação eficaz e melhorar a dinâmica interpessoal.

A lista é longa, mas pode ser simplificada se houver uma boa compreensão sobre o que deve ser uma vida equilibrada e saudável. Se, por exemplo, houver uma sobrecarga que gere stresse relacionado com o trabalho, os estudos ou as responsabilidades familiares, é importante haver um acompanhamento psicológico que ajude a encontrar estratégias para a gestão das emoções e do dia-a-dia. Nenhum problema é pequeno demais para ser desvalorizado. Se houver alguma coisa que afete o bem-estar, a felicidade ou a nossa capacidade de funcionamento habitual, está na hora de ir ao Psicólogo.

Há hábitos ou pequenas mudanças que podemos adotar para cuidarmos melhor da nossa saúde mental?

A nossa vida está cheia de desafios, responsabilidades e pressões constantes. Vamos utilizar o exemplo da nossa agenda semanal. Normalmente colocamos na agenda as nossas reuniões, os nossos compromissos, o trabalho e a nossa relação com os outros. O exercício que devemos fazer é dar prioridade ao nosso tempo individual e reservar na nossa agenda tempo para aquilo que nos faz bem, antes de qualquer outro compromisso: ler um livro, ir praticar desporto, almoçar (é incrível a necessidade que tenho de enfatizar isto, mas tantas vezes o almoço fica suspenso porque o trabalho passou à frente), entre tantas outras coisas. Cuidarmos de nós vai, com certeza, melhorar tudo o resto – inclusivamente a nossa capacidade de cuidar dos outros.

E já que falamos em cuidar dos outros, também é importante estabelecer limites e aprender a dizer que não, sempre que possível, em todas as relações, responsabilidades e obrigações. O principal elemento da saúde mental é a nossa capacidade de nos concentrarmos em nós próprios e de nos colocarmos em primeiro lugar. Em Psicologia há um diagrama muito fácil de compreender (proposto por Maslow), e que coloca em hierarquia as necessidades humanas, desde as necessidades fisiológicas, de segurança, de afeto, estima e, por fim, as de realização pessoal. E esta hierarquia é uma excelente forma de compreendermos que se não cumprirmos com as necessidades mais elementares, não temos capacidade de nos concentrarmos nas outras.

Neste contexto, é muito importante termos uma rotina saudável, em que o sono é um fator fundamental. Quando temos um problema de saúde mental há logo um alerta gerado através do sono (passamos a perder noites ou a dormir mais). E por isso é tão importante estabelecermos uma rotina cuidada, que envolva uma boa noite de sono e um dia com espaço para tudo o que o dia deve envolver. E se o dia não for suficiente, haverá sempre um amanhã.

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