Foto Pexels/Tirachard Kumtanon

Também temos que fazer a nossa quota parte de empatia pela necessidade alheia de comunicar ou simplesmente de falar um bocadinho. Mas porque é que há gente que abusa?

O Melga Chefe
Uma pessoa deixa o trabalho, seja ele qual for, para nunca mais pensar naquilo até daí a duas semanas, pelo menos.
Mas não. Ainda não passaram dois dias e já está a ouvir vozes, como a Joana d’Arc, a incitá-la à batalha, só que desta vez não é o arcanjo Gabriel quem fala. “Olá Mariana, desculpe interromper as suas férias, ó Mariana, onde é que deixou aquele dossier em que estávamos a trabalhar há três meses, que eu não encontro?’ Ó céus. O chefe. Ou a secretária do chefe. Ou o arcanjo Gabriel pelo chefe. Bip, fim de mensagem de voz. Mensagem de voz nova: ‘Olá, ó Mariana, sou eu outra vez, você lembra-se do que é que ficou combinado com o Silva?’ e é isto as férias todas. Ó Mariana, onde é que está a file, ó Mariana como é que eu acedo à homepage, ó Mariana, ligou o Catarro, quer saber o que é que se diz ao cliente, Ó Mariana, qual é a sua password’…

Como resolver: Antes de sair, deixe tudo o que é realmente importante resolvido.
deixe uma lista especificando os casos em que podem ligar. E depois não atenda nem que o chefe esteja a ser atacado por terroristas ou a queira levar para ver o Papa. São só 15 dias, estamos em agosto e ninguém é imprescindível (isto a não ser que seja cirurgiã cardiovascular, caso em que devia ter escolhido outra profissão em que pudesse ter férias).

A Melga Sogra
É um lugar-comum, mas uma desvantagem dos lugares-comuns é que têm tendência a serem, pronto, comuns.
A Melga Sogra acha-se no direito de exigir, pronto, direitos: tem o direito de ir de férias com os filhos e netos para onde quer que forem, tem o direito de torcer o nariz porque a casa alugada tem escadas em caracol, tem o direito de exigir que se coma sentado ao almoço e ao jantar.
Mesmo quando não fica na mesma casa, toda a gente tem de ir almoçar com ela todos os dias, senão amua. Se se vai à praia sem ela, amua porque está ali para estar com os netos. Se se vai à praia com ela, também amua, porque queria ir mais cedo e aquilo lhe baralha a hora para fazer o jantar.

Depois é preciso levá-la ao mercado porque não confia nos supermercados da zona, aquilo é tudo químicos. Depois passa o dia a fazer limpeza. Depois manda bitaites do tipo ‘Ó Paulo Jorge, mas tu só te levantas a esta hora? Mas tu deixas que o teu filho fale assim contigo? Mas tu achas bem que um bebé esteja até estas horas sem comer? E a tua mulher, não faz nada? ‘ Está sempre a dizer que não quer incomodar, mas claro que toda a gente tem de se incomodar para ver se ela está à sombra, se ela tem sítio para ficar sentada, e quem é que a vai levar a casa, e se ela não torce um pé a descer a escada de caracol, e quando inevitavelmente ela torce um pé a descer a escada de caracol é preciso alguém para levá-la às urgências e para ficar com ela em casa a ver o programa da manhã com ela e a ouvi-la protestar que para o ano tem de arranjar uma casa com Netflix que ela não está para passar o dia a ver fantochadas.

Como resolver: Antes de irem de férias, estabelecerem logo quando é que vão almoçar com ela e como vai ser a rotina. Se ela amuar, deixe-a amuar. Depois passa-lhe. Não se pode dar muita carne aos crocodilos.
Desculpem a metáfora.


A Melga do Toldo Vizinho
A pessoa quer estar em sossego sem dar cavaco a ninguém e pensa que se livrou finalmente dessa praga tão portuguesa, i.e., os vizinhos. Mas não. Neste mundo, parece que há vizinhos em todo o lado, inclusive na praia.
Mal acabou de se instalar a Melga-Vizinha salta-lhe à espinha (enfim, figurativamente falando) (pelo menos na maioria dos casos) e pergunta-lhe o nome, a profissão, o que faz o marido e o número de filhos. Dois minutos depois já descobriu que têm uma prima em comum em Alfornelos e que há mais ou menos 13 anos se devem ter cruzado em alguma esquina.

A princípio ainda pensou que pudessem ser amigas, que giro que pessoa tão simpática, mas depois descobriu que ela não se cala, NUNCA.
É uma pessoa super-simpática, sem dúvida, mas apetece-nos assassiná-la. E à medida que o tempo passa, apetece-nos assassiná-la cada vez com mais requintes de malvadez. O Carlos Jorge diz-lhe que devia ser mais simpática para os vizinhos e que se nota logo na sua cara que lhe apetece assassiná-los e que é uma pessoa bastante anti-social. Medita por momentps divorciar-se do Carlos Jorge.

Como resolver: Se ainda for possível, mudar de toldo ou de praia. Não tenha remorsos: ela vai ficar amuada mas arranjará imediatamente outra vítima. Se não for possível, pedir ao marido ou às crianças que espalhem o boato de que a mãe é um bocado surda desde que foi operada a uma otite. Depois estender-se na areia de olhos fechados e com os óculos escuros postos. Más notícias: nada disto costuma adiantar muito.

O Melga Amigo do Filho (Mais a Mãe)

Estes são melgas 2-em-1, o que duplica o potencial de agressão. Você caiu na asneira de ceder aos pedidos do seu Tiaguinho, que é filho único, e então lá vem o Vasquinho de férias com vocês.
O Vasquinho não é um cliente fácil: passa a vida a dizer que em casa se deita às horas que quer, que a mãe o deixa ver os filmes da meia-noite, que tem telemóvel desde os 5 anos e que também pode estar no computador até querer a jogar aqueles jogos em que se ganha pontos por atropelar velhinhas e esventrar bebés. Obviamente, não come nada que tenha um tom vagamente aparentado com verde nem nada que alguma vez tenha estado perto de uma fruta.
A mãe dele liga para o seu telemóvel de meia em meia hora a queixar-se que a sua vida é uma lástima desde que se divorciou do Vasco Sénior, a perguntar se o Vasquinho tem dado trabalho (sim, mas não tanto como ela) e se ainda não foi raptado por extraterrestres (antes fosse, mas ela não diz isso, já somos nós a alucinar ou um membro da cientologia a falar por trás dela). Ainda por cima, convém atender sempre, porque senão ela começa a ligar para os hospitais, a morgue e o FBI.

Como resolver: Dizer ao Vasquinho que está numa família diferente da dele e que portanto as regras são correspondentemente diferentes (finja que não ouviu se ele disser que se vai queixar à mãe. Não vai. E se for, melhor. Não volta para o ano). Para não stressar demasiado a criança, insistir apenas nas regras que o impeçam de matar alguém (a população virtual não conta). À mãe pode dizer que está a fazer um detox digital ordenado pelo seu médico após um ameaço de burnout (não caia na asneira de tentar dizer isto com palavras portuguesas) e que só atende chamadas depois das 8 da noite. Se ela não se cala, diga-lhe que vai ali fazer origamis zen com as crianças (não lhe diga que se estão a matar e que tem de ir separá-los, senão ela entra em taquicardia e liga-lhe meio segundo depois).

O Melga Colega de Excursão
Você esperou o ano inteiro por isto, sentada no gabinete a sonhar com palmeiras e piscinas em forma de 8 com nativos a servirem daiquiris e o céu retocado a photoshop. Agora está finalmente em frente da piscina.
Pormenor: há um sujeito que não entrava nos folhetos da agência e que não se cala, e não há photoshop que o apague dali. Há sempre um insuportável em todas as excursões, deve ser uma qualquer lei estatística que exige um representante dos Insuportáveis do Planeta Unidos.
Está sempre furioso a protestar que o ar condicionado não funciona, que a almofada é mole, que o quarto tem baratas, que a comida tem minhocas, que o daiquiri está morno e que a piscina é suja. Nas pirâmides protesta que está calor, que o autocarro é velho e que há dez anos quando ele veio cá com a primeira mulher se podia subir lá acima (às pirâmides, não ao autocarro) (o que é uma pena porque se ele subisse ao autocarro num instante ficava o problema resolvido).
A segunda mulher acena, embora na altura não tivesse vindo (enfim, deduz-se). Também se queixa que o guia não sabe nada, que o restaurante é longe, a comida má e o tempo nada como lhe prometeram na agência. Inda a viagem não vai a meio e já há quem se ofereça para o atirar da janela.

Como resolver: Se não o deitou pela janela, há pouco a fazer a não ser comprar tampões para os ouvidos. Pode tentar protestar mais do que ele e reduzi-lo à sua insignificância, mas dá trabalho e não eleva o moral das tropas excursionistas. O melhor é dizer ao guia para lhe dar uma tarefa qualquer bastante chata que o impeça de protestar. Também podem convencê-lo a subir ao último andar do hotel, já que não podem subir à pirâmide. E depois deixá-lo lá.

A Melga do Turismo de Habitação
E vão vocês dizer, esta não merece estar aqui. Pois se calhar não, mas uma pessoa às vezes é mesmo uma alma de pedra. Aqui estamos perante a pessoa mais encantadora que Nosso Senhor e os Turismos de Habitação deram ao mundo. O problema é exatamente esse. O encanto dela sufoca-nos. Ela pergunta-nos sobre todos os nossos antepassados desde que Afonso Henriques bateu à muralha, ela faz-nos companhia às refeições (biológicas e temperadas com manjericão da sua horta), ela está à porta do nosso quarto assim que acordamos com toalhas lavadas (e um bombom), ela segue-nos corredor afora porque podemos precisar de alguma coisa pelo caminho, ela merece todas as cinquenta mil estrelas que lhe atribuiram no Booking e no Trivago a dizer ‘we want to thank our lovely host Lucinda for a most adorable stay!!!!!’ e até temos remorsos de fechar a porta da casa de banho à lovely Lucinda.

Como resolver: Dar o mínimo de conversa. Nem sempre funciona, porque as pessoas não reparam se os outros estão ou não a prestar atenção, só reparam na presença física. Se possível, encurtar a estada. Se não for possível, tomar as refeições o mais rapidamente possível e fechar-se no quarto com a desculpa de que está a morrer de cansaço (aqui o burnout não impressiona) ou prometeu que ligava à sua mãezinha.

A Melga… que somos nós!
No melhor pano cai a nódoa: às vezes nós próprios fazemos parte da população de melgas, mas obviamente não damos por isso e tal coisa nunca nos passa pela cabeça. Como descobrir? Então repare da próxima vez que estiver a falar com alguém: a outra pessoa fala tanto como você? Só diz ‘a-ha’, ou ‘Ah sim’? Só acena com a cabeça? Tem um ar ausente? Não comenta? Faz perguntas mesmo interessadas ou só comentários moles tipo ‘Ai que giro’ e não pergunta nada? Está meia de lado como se quisesse fugir e tivesse o jantar em casa a arrefecer em vez de estar voltada para si? Lembra-se de alguma coisa que ela tenha dito? Se respondeu que sim a tudo menos à última pergunta, parabéns! É uma melga! É frequente confundirmos atenção delicada com interesse genuíno, e enfim, há alturas em que temos mesmo mais a dizer do que os outros, mas verifique se isso acontece sempre…

Como resolver: Já toda a gente ‘melgou’ alguém, quando estamos carentes, o problema é quando a carência cristaliza, e quanto mais melgamos mais os outros fogem… Para que aconteça o menos possível, é só prestar mais atenção ao seu interlocutor. Pare de falar de repente: o outro aproveita, despede-se e vai-se embora, ou faz perguntas? A primeira hipótese é má. Por isso, recupere o prazer de conversar em vez de falar sozinha. Afinal, se os outros não nos ouvem, qual é o interesse de falar com eles?


Faixa de bónus
Kit Antimelga

Saiba o que levar para se proteger de um ataque.
. Silêncio – Se lhe caiu uma ‘melga’ na sopa, use a linguagem corporal: Não responda, não se ria das piadas, não olhe para ela. Como as melgas costumam ser admiravelmente imunes à linguagem corporal, vá-se embora assim que puder e não perca tempo, porque quanto mais tempo passar, mais enervada fica.
. Simpatia – Não entre em pânico: seja simpática, diga que está a gostar muito da conversa mas que tem de discutir um assunto com o seu marido/mandar um mail/ir ali ao mar/padaria/hipermercado antes que feche/à secção de lingerie/impedir o seu filho de matar outra criança.
. Auscultadores – Se não puder fugir, proteja-se: no dia seguinte, vá para outro lado ou apareça equipada com aqueles abafadores de ruídoque se usam nas obras.

Palavras-chave

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Um século de propaganda na VISÃO História

Um século de propaganda na VISÃO História

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Segway apresenta série de trotinetes elétricas Ninebot E3

Maria João Bastos despede-se de Albano Jerónimo em casamento

Maria João Bastos despede-se de Albano Jerónimo em casamento

António Casalinho: ninguém o pára

António Casalinho: ninguém o pára

O grande negócio dos centros de dados

O grande negócio dos centros de dados

A poesia que sai à rua em Salvador

A poesia que sai à rua em Salvador

Ensaio: A IA não é uma revolução digital, mas uma revolução energética

Ensaio: A IA não é uma revolução digital, mas uma revolução energética

Quis Saber Quem Sou: Será que

Quis Saber Quem Sou: Será que "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais?"

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Parque Marinho Luiz Saldanha: Um mar abençoado, nas palavras e imagens do multipremiado fotógrafo Luís Quinta

Bárbara Branco e José Condessa em cenas eróticas em

Bárbara Branco e José Condessa em cenas eróticas em "O Crime do Padre Amaro"

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Por dentro da Feitoria Inglesa

Por dentro da Feitoria Inglesa

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

Fotografia: Os tigres de Maria da Luz

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como

A fruta comum que têm mais de 1600 elementos e que os cientistas querem ver reconhecida como "superalimento"

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Isabela Valadeiro conhece Sara Sampaio após anos de comparações

Isabela Valadeiro conhece Sara Sampaio após anos de comparações

E se os refugiados do clima formos nós?

E se os refugiados do clima formos nós?

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Inspirados na Revolução: 30 sugestões para celebrar o 25 de Abril

Inspirados na Revolução: 30 sugestões para celebrar o 25 de Abril

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Deus, intuição e Rock and Roll

Deus, intuição e Rock and Roll

Moda:

Moda: "Look" festivaleiro

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Grafeno: o material que começa a substituir metais

Grafeno: o material que começa a substituir metais

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Novo implante do MIT evita hipoglicémias fatais nos diabéticos

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Jornalistas Nelma Serpa Pinto e João Póvoa Marinheiro casaram-se no Porto

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

A Graça que resiste

A Graça que resiste

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Pigmentarium: perfumaria de nicho inspirada na herança cultural da República Checa

Pigmentarium: perfumaria de nicho inspirada na herança cultural da República Checa

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem "acordar" células cancerígenas adormecidas nos pulmões

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Lady Kitty Spencer regressa a Roma para o desfile de alta-costura de Dolce & Gabbana

Lady Kitty Spencer regressa a Roma para o desfile de alta-costura de Dolce & Gabbana

Graça: uma feira com conversas insólitas para pensar em comunidade

Graça: uma feira com conversas insólitas para pensar em comunidade

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Vencedores e vencidos do 25 de Abril na VISÃO História

Tudo isto é cinema

Tudo isto é cinema

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos

Celebrar a Páscoa com escapadinhas para todos