
Todas as pessoas que sejam agora pais ou tenham idade para isso se lembram: as férias existiam para não fazer nenhum mesmo, até ao enjoo do desespero que era acordar um dia e pensar ‘nunca mais começa a escola!’ (passava-nos depressa). Hoje, a angústia paterna do desempenho leva a que se queira ‘recuperar o tempo perdido’. ‘Se não andasse em cima deles, não fariam nenhum as férias todas’, defendem as mães mais preocupadas.
Mães, professoras e psicólogas dividem-se: afinal, devemos comprar-lhes aquelas fichas escolares e impedir que o cérebro deles se transforme em papa, ou deixá-los aborrecer-se até ao infinito e mais além? Mas sgundo um estudo da Universidade do Colorado, nos EUA, o melhor estudo de férias é… brincar.
O que faz um bom aluno
Quer uma criança inteligente? Então potencie a brincadeira. O estudo provou que as crianças que aprendiam melhor a matéria do ano escolar eram as que tinham passado as férias a brincar sem restrições: essas crianças tinham mais autonomia, eram mais organizadas e sabiam pensar por elas próprias, em vez de estarem dependentes dos adultos.
Quanto mais tempo passavam em atividades ‘organizadas’ pelos adultos, piores alunos se mostravam…”Tal como nós, as crianças também precisam de férias. Os estudos feitos sobre isso provam que esta pausa anual é muito mais benéfica para o cérebro do que obrigá-los a estudar”, confirma-nos Mikaela Oven, mãe de três filhos, ‘coach’ de pais e formadora da Family Lab Internacional.
Mas os estudos também não defendem o aborrecimento total: “É bom manter o cérebro ocupado para não desligar por completo”, defende Mikaela Oven. “Mas o tipo de coisa que tem resultados não é massacrá-los com repetições da matéria que já deram ou antecipações da que virá. Uma coisa que é extremamente importante é a leitura. Para mim, é o melhor estudo de verão.” A ‘hora da história’ é tão importante que este ano, pela primeira vez, a Associação Americana de Pediatria recomendou aos pais que lessem às crianças à hora de deitar. “A minha filha vai hoje de férias, e leva livros na mala”, conta Mikaela. Como é que consegue isso? “A melhor maneira de educar continua a ser pelo exemplo. Há muitos livros em casa, e eles veem os pais a ler. Ter livros, oferecê-los, ler à noite com as crianças, é o mais importante. É como os trabalhos de casa. Os pais queixam-se que os filhos não fazem os trabalhos, mas as crianças nunca veem os pais a terem os seus interesses. Como hão de fazer qualquer coisa que mais ninguém na família faz?”
Fazer ou não fazer fichas?
Então e aqueles livros de fichas escolares? “Não é uma recomendação que eu faria”, diz Mikaela. “Há tanta coisa mais interessante para aprender! Trabalhos manuais, por exemplo. Ensine-os a bordar. Não sabe? Olha que bom, podem aprender os dois!” Ou seja: ensine-lhes coisas que a escola não ensina. O que é que a sua família, em particular, tem para passar às crianças? Isso é que as vai valorizar, dar-lhes mundo, torná-las diferentes e criativas. “Pensem juntos”, sugere Mikaela. “O que é que podemos aprender todos nestas férias? Se vão a qualquer lado, o que podemos aprender sobre esse sítio? Além disso, só se aprende motivado, e acha que eles vão aprender alguma coisa com as fichas? Não é com mais do mesmo que motivamos as crianças. Portanto, continue a busca pelo conhecimento no verão, mas de outras formas. E sem esquecer a leitura.”
E se eu não tiver dinheiro para ‘alimentar’ a leitura? Os livros são tão caros. “Mas existem muitas bibliotecas por explorar, e as crianças adoram escolher livros. Os próprios pais também podem escolher um livro. Lance o desafio: sobre que é que gostavas de aprender? Queres saber mais sobre astronautas? Então vamos procurar mais livros sobre isso. Aprender não se faz só sentado à secretária a levar uma grande seca.”
O que a escola não ensina
As chamadas ‘secas’ (mesmo no verão) também são recusadas por Paula Alcobia, responsável por um centro de estudos. “Tenho a preocupação de ‘desmistificar’ o estudo e mostrar que aprender é divertido.” O centro põe as crianças, não a aprender, mas a jogar. “É impressionante observar como a palavra ‘jogo’ lhes abre a mente. E os adolescentes são os que mais aderem.” Paula Alcobia dá alguns exemplos de ‘jogos’ que os pais podem aproveitar para fazer com os filhos: ‘Zapping’ de leitura: cada um começa a ler o seu livro e é interrompido por outro, que depois continua e assim em diante, fazendo com que a leitura se torne divertida e interessante.
O jogo do telejornal: cada um inventa a sua notícia, que depois vai ter que apresentar como se estivesse na televisão.
‘Vamos às compras’: encena-se uma ida ao supermercado ou a uma loja e fazem-se compras.
Depois há descontos, dinheiro, pagamentos, trocos. Isto serve para lhes mostrar como precisamos de usar a matemática no dia a dia.
Caça ao Tesouro: um ‘peddy paper’ com perguntas e pistas.
Fazemos o nosso próprio Monopólio e Trivial Pursuit, cujas perguntas juntam matérias de todos os anos e disciplinas.
‘Troca uma música comigo’: eles mostram-nos uma música que gostam no Youtube e nós mostramos-lhes outra (vão ouvir Jacques Brel ou Edith Piaf e franzir o nariz, mas mais tarde vão agradecer-nos).
‘Hoje o professor sou eu’: cada um escolhe ser professor de uma disciplina, à vez.
Conclusão: talvez não tenham de ‘estudar’ nas férias, mas na verdade há tanta coisa para aprender!
FICARAM EM CASA? ELE PODE…
. Remodelar o quarto: pintar as paredes e os móveis de outra cor, por exemplo
. Aprender a cozinhar
. Escolher um desporto e começar a praticá-lo
. Fazer um mini-jardim com plantas em vasos
. Oferecer aquilo que sabe: quem precisa de explicações?
. Partir à aventura: apanhar camionetas e comboios e descobrir outras paragens
. Investigar e aprender com os talentos da família: Quem sabe tricotar? Desenhar? Falar outra língua?
. Juntar amigos com ‘lata’ e roupa vintage e passear vestidos como os avós
. Tirar um curso de qualquer coisa que sempre quis saber: fotografia, escrita, costura, surf.
Umas semanas antes da escola, pode retomar com ele algumas matérias e aproveitar para estudar aquilo em que tinha mais dificuldades, sem stresse.
Mas ocupar as férias todas com isso nunca funciona.