@mariellevanoostrom

Mesmo nos países do chamado primeiro mundo, ainda há muitas coisas que um homem pode fazer e uma mulher não pode. Envelhecer é uma delas. A escritora, ensaísta e ativista americana Susan Sontag já falava sobre isso em 1972, no ensaio ‘The double standard of aging’ (A dupla bitola do envelhecimento), insurgindo-se contra a convenção social de que a idade melhora os homens mas destrói as mulheres. 50 anos depois, essa dupla bitola continua a existir: a diferença é que hoje fala-se mais abertamente disso e há cada vez mais mulheres a recusar-se a desaparecer do mundo só porque a sua aparência mostra a idade que têm.

Mas é uma luta. A circunstância de duas fantásticas atrizes como Michelle Yeoh e Jamie Lee Curtis, ambas com mais de 60 anos e longas carreiras no cinema, terem recebido um Oscar, e a frase com que Michelle terminou o seu agradecimento e que se tornou viral – “minhas senhoras, nunca deixem ninguém dizer-vos que o vosso tempo já passou” – é um bom sinal e ajuda-nos a acreditar que o fim da discriminação idadista das mulheres pode acabar. Mas o simples facto de isso ser tão falado e celebrado mostra que ainda é uma exceção.

O ESTRANHO CASO DAS MULHERES INVISÍVEIS

“Onde estão as velhas? Onde estão os seus corpos?”, perguntava a jornalista francesa Titiou Lecoq num artigo sobre a invisibilidade das mulheres de mais de 50 anos. “Tenho 41 anos. Que modelos me propõe a sociedade? Mulheres mais jovens, de menos cinco anos, dez anos, ou mulheres que têm exatamente metade da minha idade. Em todo o lado. Constantemente. Qual é o meu futuro de mulher de 40 anos? A sociedade diz-me que não existe.” Este desaparecimento não é um problema apenas das mulheres de 40, 50 ou 60 anos, mas de todas as mulheres, como explica a jornalista suíça Amanda Castillo no livro ‘Et si les femmes avaient le droit de vieillir comme les hommes?’ (E se as mulheres tivessem o direito de envelhecer como os homens?, ainda não traduzido para português). “Quando a minha amiga Coco, 56 anos, me explica que agora, na rua, tem um superpoder, a invisibilidade, eu não me sinto triunfante. Vejo o que me espera. Sempre vi.”

Amanda cita um estudo realizado na Finlândia segundo o qual a idade ideal de uma mulher para os homens (quer tenham 40, 50 ou 60 anos) é 22 anos.

Segundo um outro estudo, americano, sobre sedução online, o pico de atratividade das mulheres é aos 18 anos e o dos homens aos 50. E o mesmo se passa no mercado de trabalho, onde anúncios esquizofrénicos procuram pessoas com experiência, mas menos de 25 anos. A publicidade espelha tudo isto: com raras exceções que só confirmam a regra, as mulheres são jovens donas de casa, jovens profissionais… ou avós. E as outras? Mistério…

UMA NEGAÇÃO QUE COMEÇA CADA VEZ MAIS CEDO

A ausência de modelos reais inspiradores nos meios de comunicação, conjugada com a pressão de apresentar um rosto e um corpo ‘perfeitos’ (leia-se jovens, sem rugas nem flacidez) exercida nas redes sociais, está a gerar medo de envelhecer em raparigas cada vez mais novas: a geração Z não está ‘ok’ com a aparência natural que reflete a passagem do tempo. As jornalistas francesas Elsa Mari e Ariane Riou fizeram uma investigação sobre o assunto em vários países e revelam no seu livro ‘Génération Bisturi’ (Geração Bisturi, ainda não traduzido em português) que as mulheres entre os 18 e os 24 anos são hoje mais numerosas a recorrer à medicina e cirurgia estética do que as de 50-60 anos. “Mas não o fazem para apagar sinais de envelhecimento”, explicam as autoras. “Fazem-no por moda ou para antecipar as marcas da idade antes mesmo que elas apareçam.” O que ajuda a explicar o crescimento vertiginoso do mercado da cirurgia estética a nível mundial, que entre 2014 e 2025 terá passado dos 5,7 aos 17 mil milhões de euros.

A INDÚSTRIA DA JUVENTUDE

Para Anna Murphy, jornalista e diretora de moda do jornal britânico The Times, este culto da juventude nasceu no século XX e mudou profundamente o mundo, como defende no seu livro ‘Destination Fabulous’ (Destino Fabulosa, ainda não traduzido em português). “Foi nesse período que um corpo com as formas de um rapaz adolescente se tornou o ideal para as mulheres; quando elas começaram em massa a pintar o cabelo; quando se inventaram os teenagers, e as roupas que os caractarizavam, nomeadamente jeans e sapatos de treino, se tornaram uma nova espécie de uniforme, para todas as idades.”

Ao mesmo tempo, as hierarquias foram derrubadas. “A idade e a experiência deixaram de ser automaticamente consideradas melhores. Novo passou a ser visto, de um modo geral, melhor do que velho. Surgiram novas oportunidades na vida que não estavam ligadas à idade, experiência ou classe social, mas à juventude e ao talento.” O que é muito bom, mas, como ela diz “foi longe demais, tal como, anteriormente, os talentos dos jovens tinham sido ignorados em favor do status quo.

Pegámos numa coisa que poderia ter sido pura libertação e transformámo-la noutro tipo de colete de forças, que coloca a juventude acima da idade, em vez de ao seu lado, e que obriga toda a gente – especialmente as mulheres – a considerar a idade como um inimigo em vez de a aceitarem como um amigo”.

Esta mudança fez nascer toda uma indústria, com o objetivo de criar desejo por coisas de que não precisamos e os conceitos com elas relacionados. “Um desses conceitos foi a juventude, que é cartão de visita para produtos tão diversos como jeans ou tinta para cabelo”, diz Anna. “A mais recente revolução são os ‘tweakments’ [retoques de estética], concebidos para alisar o rosto de uma mulher adulta que viveu uma vida – e tem as rugas que o provam – transformando-o no rosto de uma adolescente que está apenas a iniciar o caminho para perceber o que é viver. Há dinheiro – muito dinheiro – a ganhar em tornar-nos receosas de ver rugas no rosto ou fios brancos no cabelo.”

O DIREITO DE ENVELHECER

Reduzir ou apagar as marcas da idade tem de ser uma escolha pessoal, não uma imposição da sociedade. E quem escolhe viver com elas não pode ser penalizada e discriminada por isso. “Eu quero ser velha!”, dizia há pouco tempo a atriz Andie MacDowell numa entrevista. “Estou cansada de tentar ser jovem. Não quero ser jovem. Já fui jovem. E ser uma pessoa mais velha a tentar ser jovem… é demasiado esforço. Já estou a trabalhar para me manter em forma, a cuidar do meu corpo, a nutrir a minha pele, a trabalhar o meu cérebro, quanto mais posso fazer? Simplesmente não consigo manter a charada.” E quando alguém lhe diz que parece mais velha desde que deixou de pintar o cabelo, ri-se. “Que idade acha que aparento? Vou fazer 65, acha que pareço 75 só porque deixei o meu cabelo ficar grisalho?”

A atriz Helena Bonham Carter também acredita que as mulheres atingem o seu auge mais tarde na vida, à medida que vão interiorizando o seu poder, e isso devia ser reconhecido e celebrado – mas ainda não é. “Em todas as revistas, no Instagram, é tudo sobre ‘não envelhecerás’”, disse recentemente num podcast na BBC. “É um palavrão, não é? Envelhecer. Acho que estamos todos obcecados com isso. É quase patológico, é quase um crime, há uma vergonha associada. Como é que eu não sucumbo à pressão? Quem diz que não o faço? (risos) Eu faço o que me deixa feliz. E, com sorte, não me faça parecer ridícula. Acho que [esta obsessão] tem a ver com o facto de ser a única coisa que não podemos controlar. Não podemos controlar a nossa aparência, mas pensamos que sim. Quando na verdade há tantas outras coisas com as quais deveríamos preocupar-nos.” A atriz diz que se sente infinitamente mais feliz agora e jamais voltaria atrás no tempo. “O meu envelope pode ser menos agradável, do ponto de vista puramente estético, mas por dentro sou muito mais interessante e dinâmica e, acho eu, atraente. Seria fantástico se pudéssemos mudar as coisas na sociedade, dizer: nós estamos no nosso melhor aos 60, temos tudo e estamos a assumir o nosso poder.”

É URGENTE MUDAR A NARRATIVA

A obsolescência programada das mulheres que a sociedade nos quer impor é só uma convenção sem qualquer validade, científica ou outra, e está mais do que na hora de acabar com ela. “Quando as pessoas dizem que eu mostro bem a minha idade, estão a falar-me delas, não estão a falar-me de mim. Estão a dizer-me como olham para a vida e como olham para si próprias”, diz a atriz, diretora e produtora Justine Bateman (que as mais velhas recordarão da série ‘Quem sai aos seus’). “Para muitas pessoas é uma regra que têm na cabeça, que os rostos mais velhos têm de ser corrigidos, consideram-se defensores dessa regra e ninguém pode quebrá-la. E eu penso: “Eu não posso quebrar a sua regra?! A sua regra não me interessa para nada.” Justine diz que o seu rosto envelhecido a ajuda a fazer o seu trabalho. “Na minha posição profissional atual tenho de comandar as filmagens, ser uma líder. Ter uma cara como esta é um atalho para “ela está numa posição de autoridade”. Se eu tiver um rosto esticado e parecer ter 23 anos, há ali uns minutos em que vão pensar: “É ela que manda?! Ela sabe o que está a fazer?!” E só depois iriam percebendo que sei o que estou a fazer. Mas esta cara é um superatalho para isso.” Para mudar a narrativa, a atriz belga de ascendência portuguesa Helena Noguerra acha que devíamos inspirar-nos nos homens. “Sim, a idade assusta. Mas a resistência a esta pressão social passa pela extravagância, como fazem os homens. Temos de ter a mesma atitude, até que a idade das mulheres deixe de ser assunto.”

Veja na fotogaleria abaixo algumas mulheres célebres que têm orgulho na idade que têm:

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