“Os médicos acham sempre que nunca ficarão doentes. Os doentes são os outros.” Um dos maiores médicos britânicos, o neurocirurgião Henry Marsh já estava reformado quando lhe foi diagnosticado cancro em estado avançado. De médico, passa a paciente. E esta descida do pedestal traz uma catadupa de emoções, questões e mudanças que o livro relata à medida que vão acontecendo.

Isto não é um diário, é o relato de uma viagem: exterior e interior. Uma viagem pelos hospitais e salas de espera, salas de tratamento e salas de análise, mas também um percurso interior que o fantasma da morte provoca.

Não se assustem que não é um daqueles livros do tipo ‘vi a morte ao perto e tudo mudou na minha vida, ou ‘o cancro fez de mim melhor pessoa’. É simplesmente uma partilha de experiência e inquietações comuns a todos os seres humanos, sejam médicos, pacientes ou apenas, pronto, seres humanos.

O ex-médico-agora-doente leva-nos consigo pelo seu percurso de pessoa com cancro. Das primeiras análises catastróficas à biópsia, à ressonância magnética, à castração química, à terapia hormonal, à radioterapia, à braquiterapia, tudo nos é mostrado e explicado. Mas o percurso é também um pretexto para uma análise da sua vida – o seu hobby como construtor, os seus passeios de bicicleta, as suas corridas, a relação com a mulher e as netas, a importância da natureza, o passado da mãe e dos tios.

E acima de tudo, um outro olhar sobre aquilo que significa ser médico e aquilo que significa estar doente. A relação entre médico e doente é a primeira a ser analisada: “Só quando me dianosticaram cancro é que pude ver quão grande é a distância que separa os doentes dos médicos, e quão poucos médicos compreendem o que os seus doentes estão a passar.”

O problema é a autoconfiança dos médicos: que, ao mesmo tempo, também é importante para conseguirem fazer um trabalho humanamente tão duro. Até que ponto é que os médicos têm de ter empatia com os doentes? “Os pacientes raramente ousam dizer aos médicos o que pensam deles ou do seu comportamento, o que torna difícil para os médicos aprenderem a falar bem com eles”, descobre Henry. “A falta de comentários e críticas da maioria dos pacientes torna demasiado fácil para os médicos ficarem satisfeitos consigo própprios. Os pacientes elogiam e agradecem quando as coisas correm bem, mas normalmente hesitam em comentar quando falhamos.”

Descobre também a importância de coisas aparentemente tão comezinhas como uma sala de espera animadora, um enfermeiro carinhoso ou a importância da esperança: “Dizer a alguém que tem 5% de esperança é quase tão bom como dizer-lhe que tem 95% de hipóteses.”

Os hospitais onde, em vez de se falar com os doentes, os médicos e enfermeiros lhes passam folhetos para as mãos, também não saem sem críticas. “Muito do que se passa nos hospitais – a organização, os uniformes, os avisos em todo o lado – tem a ver com enfatizar o fosso entre o pessoal e os pacientes, e ajudar o pessoal a ultrapassar a sua empatia natural. Não se trata de ajudar os doentes.”

A desumanização vai mais longe: “Os hospitais lembram-me sempre as prisões (…): os pacientes fazem sempre a mesma pergunta que os prisioneiros fazem uns aos outros; ‘porque é que estás aqui?”

Todas as páginas são interessantes e diferentes, sejam sobre o cérebro, a esperança ou um empreiteiro que o enganou. Este é um livro que todos vão gostar de ler. Enquanto nos leva consigo na sua jornada, o médico convoca-nos também para questões com que todos nos debatemos: porque temos tanto medo da morte, o que é a velhice, como lidar com o tempo, o que é que verdadeiramente importa na nossa vida.

“O que é que queres?, pergunto-me irritado. Viver para sempre? Ficar velho e decrépito? E, mais uma vez, maravilho-me com a minha ridícula incapacidade de aceitar a inevitabilidade da minha morte”.

‘E por fim’ é escrito durante o Covid, e acaba com o princípio da guerra na Ucrânia. Henry Marsh não sabe se o seu cancro vai regressar, não sabe se a guerra vai acabar, mas o livro acaba numa nota de otimismo. Sabemos que a morte, de uma maneira ou de outra, é inevitável. Mas enquanto cá estamos, podemos apreciar todas as coisas boas que a vida nos traz.

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