Ana Paiva, Professora no Instituto Superior Técnico, especialista em Inteligência Artificial (Fotos: Luís Coelho)

Quando se fala em IA, o meu cérebro divaga logo para cinema… ‘Blade Runner’, ‘Exterminador Implacável’, ‘2001, Odisseia no Espaço’, ‘I Robot’, ‘A.I.’, ‘Ex-Machina’, ‘The Matrix’… Quem conhece os filmes, sabe que não são as histórias mais otimistas, as máquinas acabam por querer dominar a humanidade embora o nosso engenho nos salve, sempre no limite. Este bruaá recente em redor da IA deve-se sobretudo ao ChatGPT, um Modelo de Linguagem de Grande Escala – LLM – criado pela OpenAI –, que tem capacidade de gerar texto e informação que parecem ter sido escritos por humanos. Nada melhor que experimentar para percebermos como funciona. Foi o que fiz, desde pedidos para escrever um soneto ou comparar ‘Os Lusíadas’ de Camões com ‘A Divina Comédia’ de Dante ou mesmo a definições de si próprio, e a rapidez com que respondeu e a forma como o texto foi produzido deixou-me de queixo caído. Pode ser um grande instrumento… para o bem ou para o mal.

Há muitos pensadores que partilham o seu pessimismo cataclísmico sobre a IA, que as máquinas vão tornar-nos obsoletos, vão extinguir a raça humana, ou vamos acabar todos escravizados e a morrer à fome… Mas, felizmente, há quem ande desalinhado e contrarie este negativismo – e considere que apesar dos muitos desafios e perigos que levanta, a IA pode e deve ser usada para tornar as sociedades mais justas –, assim pensa a nossa entrevistada, Ana Paiva, professora no Instituto Superior Técnico e especialista nesta área há 30 anos, e nomeada em março, Secretária de Estado da Ciência.

A ficção científica era o futuro, mas o futuro já está aqui… como descreveriao que é a Inteligência Artificial (IA)?
É uma área de investigação, de construção de máquinas, de algoritmos e sistemas, que têm comportamentos inteligentes. Está ligada à informática e refere-se às capacidades de uma máquina, de um computador, realizar tarefas a que chamamos de inteligentes, inspiradas em aptidões humanas, que pode ser desde resolver problemas, raciocinar, aprender, compreender a nossa linguagem e responder a perguntas…

Fala em algoritmos, e ouve-se muito falar neles, explique-me o que são.. algoritmos for dummies?
Não são questões de resposta fácil (risos). Algoritmo é uma sequência de instruções bem definida para realizar uma tarefa específica. Imaginemos que eu quero que o computador calcule 5+3. Um algoritmo são as instruções que permitem o computador calcular essa soma. Tudo aquilo que usamos no computador é feito com base em algoritmos. É um input que leva a um output, entra uma pergunta e sai uma resposta.

O ChatGPT é uma forma de IA?
Sim, o ChatGPT mostra claramente que tem capacidade de produzir textos como um humano, tem inteligência artificial. É aquilo que chamamos de Large Language Models (LLM) ou Modelos de Linguagem de Grande Escala, um programa de computador que foi treinado com biliões de dados, biliões de algoritmos, que o tornam capaz de ‘compreender’ texto e gerar texto tal como os humanos. Estes LLM de que agora tanto falamos foram um salto enorme na área da inteligência artificial. É tudo estatística que está lá por trás, e o que sai é o resultado mais adequado àquela pergunta ou pedido.

Associamos à ficção científica, à literatura, mas é uma área de estudo científico há quanto tempo?
A IA começou em 1956 com um grupo de cientistas cujo objetivo era criar máquinas que permitissem fazer coisas inteligentes. O curioso é que eles pensavam que em menos de um ano atingiriam o objetivo. Bem, já lá vão quase 70 anos e ainda não conseguimos chegar lá, embora os avanços dos últimos 10 anos sejam fabulosos.

E quando é que a Ana começou a estudar IA, quando começouo interesse por esse mundo?
Ui, há muitos anos. Quando era miúda, gostava muito de ler livros sobre ficção científica e sonhava ser astronauta, mas depois, uns anos mais tarde, percebi que não conseguia ser astronauta e fui antes para o Instituto Superior Técnico tirar Engenharia Eletrotécnica. Estava a acabar o curso quando percebi que o que queria mesmo era pensar em maneiras de fazer com que os computadores fossem inteligentes e decidi fazer o mestrado nessa área com um dos pais da IA em Portugal, o professor Helder Coelho. Isto em 92, depois fui fazer o doutoramento em Inglaterra.

Ana Paiva foi nomeada Secretária de Estado da Ciência do XXIV Governo Constitucional.

O ChatGPT é um instrumento de texto fantástico, mas produz muito erro, é preciso continuar a ter espírito crítico.”

Era a única mulher nessa área?
De todo, nem mesmo a nível nacional. Temos a professora Manuela Veloso que é portuguesa e um dos grandes nomes da IA, dava aulas no Carnegie Mellon University, agora está na J.P. Morgan.

Mas era uma área de estudomuito requisitada na altura?
Nem por isso, até porque em 92 a IA estava a passar por um ‘inverno’. A IA nasceu em 1956, teve um crescimento muito grande nessa altura, só que os computadores não eram suficientemente potentes e ali pelos anos 70 o interesse diminuiu, o primeiro inverno. Em 1980, houve um novo interesse, por causa dos sistemas periciais, mas no final dessa década deu-se o segundo inverno que durou até ao início dos anos 90. Todos me diziam que era uma área sem futuro, que não servia para nada, mas eu acreditei no que estudava e aqui estamos. Nos últimos 10 anos tivemos um crescimento exponencial e acho que não vai haver outro inverno. (risos)

E porque houve esse boom?
Com a web começou a haver muitos dados, começou-se a criar algoritmos, e os dados foram usados para ensinar e treinar as máquinas. A quantidade massiva de dados dos últimos 20 anos potenciou o crescimento da IA. Nós temos IA no nosso quotidiano e quase nem damos por ela, no telemóvel com reconhecimento facial, quando se utiliza o Waze ou o Google Maps para nos orientarmos, quando se usa o Tik Tok ou o Facebook, que têm algoritmos de adaptação e recomendação.

É por isso que quando me ponho a ver vídeos de gatinhos no Instagram sou inundada por vídeos iguais?
Sim, a IA aprende com as nossas ações e dá-nos o que a pessoa quer ver. Quando fazemos ‘gosto’, há ali uma espécie de uma recompensa para o algoritmo, que vai ‘buscar’, gerar mais visualizações do mesmo tipo. É claro que o ChatGPT e os outros LLM vão a outro nível na medida em que se consegue produzir texto fabuloso, e também já se produz imagem. Já viu imagens produzidas pelo Midjourney? É uma ferramenta de IA mas para produzir imagem.

Como aquelas fotos (falsas) com o Papa com um casacão branco?
Sim, já há muitos exemplos de fotos IA. Até aquela que ganhou um prémio internacional e que depois o autor revelou ter sido gerada por IA. A máquina foi treinada com tudo o que é imagens e depois consegue produzir uma que não é verdadeira. Nem conseguimos perceber que aquilo foi feito por uma máquina.

Ana Paiva numa das salas do IST

Estamos muito longe dos robôs com consciência, preocupemo-nos mais em evitar manipulação de eleições.”

Vivemos tempos tão polarizados, não a preocupa a manipulaçãode dados e de imagens…Como é que a evitamos?
Claro que preocupa, por isso é fundamental uma IA responsável, garantir que aquilo que nós fazemos não leva, ou não permite manipulação. É difícil, porque uma pessoa pode estar a fazer um algoritmo para ser usado numa coisa boa e depois alguém pega naquilo e usa para manipular e extorquir dinheiro. Tem de se ter muito cuidado e educar os nossos jovens, as crianças, para garantir que elas estão atentas e saibam que pelo facto de alguém estar a falar connosco numa mensagem, pode não ser uma pessoa. Pode ser um bot, que são entidades fictícias que se fazem passar por pessoas e que existem também nos jogos, nas redes sociais.

Foi isso o que aconteceu no escândalo da Cambridge Analytica? A empresa que manipulou a opinião pública e vários processos eleitorais como o Brexit no Reino Unido.
A Cambridge Analytica criou utilizadores fake e usou informação sobre os amigos das pessoas no Facebook e os seus interesses para manipulação. É preocupante, daí a União Europeia ter votado no AI ACT, uma legislação para tentar impedir que determinado tipo de uso de IA aconteça na Europa; estabelece regras, impõe leis que garantam que as empresas desenvolvem os seus produtos de forma responsável e em que tudo o que seja gerado por IA tenha um aviso disso mesmo. Em paralelo há investigação para combater essa manipulação. É um processo contínuo.

Não tem medo que os cientistas percam o controlo?
Há demasiado alarmismo em relação ao que a IA pode fazer. Quando gente famosa vem dizer que a IA nos vai levar à extinção, eu acho que é um alarmismo enorme. Eu questiono-me sobre a razão de tanto alarmismo e custa-me muito ouvir isso. Obviamente que já temos problemas sociais que resultam da IA, não temos de alarmar a população e dizer que vêm uns drones que vão matar toda a gente. Preocupemo-nos com manipulação de eleições, não com drones com consciência que vão extinguir a raça humana. O objetivo do nosso trabalho é tornar a vivência mais fácil numa sociedade mais justa.

O ChatGPT também pode ser uma tentação para os miúdos (e graúdos) fazerem copy paste e zero estudo. Como se vai combater isso?
É uma pergunta fantástica e há muita gente a tentar resolver. Assim como há software que deteta plágios, com certeza vão-se criar formas de deteção desses textos. Estes sistemas podem ser um auxílio no estudo mas não são perfeitos, temos de ensinar aos mais novos a ter espírito crítico e não aceitar tudo o que a máquina produz, porque produz muita coisa errada.

Há uns anos falou-se num robô que foi usado num lar de idosos no Japão, era um projeto de IA?
Sim, já é antigo, foi o Paro, o robô terapêutico. É muito giro mas não faz muita coisa. Mexe-se, faz uns sons e responde ao toque. Quando o idoso acaricia o robô, a foca mexe-se e produz um som, como um gato que ronrona. Estudos mostraram que esse robô ajudava a relaxar pacientes com demência, diminuía o stresse.

Que outras vantagens poderá trazer a IA num futuro próximo?
A robótica e a IA têm uma aplicação muito grande no diagnóstico médico, por exemplo, na descoberta de novos fármacos para combater determinadas doenças. Há uma empresa que tem criado robôs no hospital para auxiliar as enfermeiras a levar coisas de um lado para o outro. Eu estou a fazer uma proposta para robôs que nos ajudem em situações de extremo perigo, como fogos, para ir à procura de vítimas. Há projetos que se focam em ajudar crianças com dificuldades a ler, há os carros autónomos… a IA pode ter grande impacto em muitas áreas e na qualidade de vida.

Mas uma das grandes preocupações é a perda de empregos…
É verdade, mas isso não quer dizer que haja menos emprego, terá é de ser diferente. Tal como sucedeu com o aparecimento dos computadores, há profissões que vão passar a ser feitas de forma diferente, e vão surgir outras novas. Quando se inventou o carro também se falava sobre a perda de emprego dos condutores de charretes.

Mas agora as mudanças são muito mais rápidas.
Obviamente, mas acredito que as sociedades se adaptam, até porque ainda há muita coisa para fazer.

A IA tem um potencial fabuloso na saúde, nos diagnósticos, nos robôs em hospitais e pesquisa de novos medicamentos.”

Ao contrário do que seria de esperar, as profissões criativas são muito afetadas…
É um facto, mas não vão desaparecer. Têm outras ferramentas e vão-se alterar. Eu não acredito que deixe de haver escritores ou jornalistas. Estas ferramentas passam a ser algo que as profissões podem tirar partido delas.

Como aconselharia as pessoas a tirar partido do ChatGPT?
Eu uso para traduções, peço para escrever um texto de forma diferente, reformular uma carta de recomendação por exemplo… As pessoas têm de experimentar e não se ficar na primeira tentativa, quanto mais específica é a pergunta, melhor é a resposta.


Que tipo de tarefas é mais dificilmente apreendido pela IA?
O que é mais complicado é ter máquinas que ‘vivam’ no mundo real. Temos robôs que aspiram, mas não temos muito mais robôs na nossa casa, as tarefas do dia a dia são complicadas. Já as centradas na produção de texto, de imagem, no reconhecimento de padrões, no detetar páginas, padrões, são mais fáceis. É mais fácil ter um robô a procurar uma lei qualquer que a fazer um caldo verde.

Que disciplinas aconselha os jovens a escolher para garantir um emprego no futuro? Informática?
Nem os meus filhos foram para informática. Os jovens devem estudar aquilo que os motiva. A chave está em querer aprender, ter curiosidade, não ter medo de inovar, explorar.

O que a assusta no futuro próximo?
A manipulação de eleições. Porque corremos o risco de deixar de ter democracias, isso é que é grave, não são os robôs. Há empresas que vendem bots para manipular eleições, isso é assustador. Foram jornalistas que descobriram, como vê o jornalismo de investigação é importantíssimo nos dias que correm.

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