Vozes do presente que vão ecoar no futuro. Doze mulheres inspiradoras – do mundo da Ciência ao Académico e empresarial, passando pelas Artes, Ativismo, Jornalismo e Política – deixam aqui a sua mensagem, o seu legado de força e empoderamento, para as mulheres de 2074.*

Raquel Vaz Pinto (Foto: Natacha B)

RAQUEL VAZ PINTO
Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.

“O meu desejo para 2074 é duplo. Em primeiro lugar, que todas as mulheres sejam tratadas de forma igual em termos de direitos e oportunidades e, em especial, no que toca à igualdade de remuneração. Esta é uma luta de hoje e dos anos seguintes.
Em segundo lugar, que os direitos das mulheres, tal como os direitos humanos em geral, sejam sempre entendidos como uma luta constante que nunca está finalizada.
Em 2024, infelizmente, é possível descortinar nas democracias liberais partidos e movimentos iliberais e extremistas que têm vários elementos em comum. Um deles é o entendimento da mulher como cidadãs de ‘segunda’, cujas conquistas, desde o final do século XIX, devem ser revertidas. Na prática, a ausência das mulheres do espaço público e o silenciamento das suas vozes.
Esta é uma causa de todos os democratas liberais à esquerda e à direita. É mesmo um pilar crucial do caminho que iniciámos com o derrube do salazarismo em Portugal.”

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Aline Ribeiro (Foto: DR)

ALINE RIBEIRO
Designer gráfica

“Eu tinha dois grandes sonhos: viver da profissão que amo e encontrar o meu lugar no mundo. Conquistei ambos, tenho a felicidade de ser uma designer brasileira realizada vivendo em Portugal, lugar onde me encontrei. Minha jornada transcendeu fronteiras e descobri no meu trabalho a força para desbravar o desconhecido e desafiar limites.Encorajo as mulheres do futuro a serem protagonistas de suas histórias, a terem atitude e encontrarem propósito em suas escolhas. A filósofa e intrépida exploradora da evolução humana Beatrice Bruteau dizia: ‘Nós mesmos somos o futuro. Nós somos a revolução.’Mulheres empreendedoras devem aprofundar a discussão sobre o presente e o futuro desejado, desaprender, reaprender e transformar. E assim trazer consigo uma mulher consciente, destemida, ousada e pronta para romper padrões. Que a incerteza seja abraçada como uma certeza. O futuro é plural, emergente e otimista, e cada mulher tem o poder de impactar positivamente, empoderando outras mulheres e moldando um futuro vibrante. Juntas, construímos o amanhã, superando os obstáculos e sendo as arquitetas de nossa própria revolução. Lutemos como uma mulher!”

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Ana Patrícia Silva (Foto: Simão Costa)

ANA PATRÍCIA SILVA
Jornalista de investigação

“Por volta desta hora, no ano de 2074, as ruas estarão repletas de comemoração, de luta e de reivindicação. Quero acreditar que estar em sentido de alerta deixará de ser uma necessidade constante para nós. Mas, mulheres, precisarão de estar à escuta: tudo isto não fará de vós mais ou menos livres, mas mais conscientes e progressistas na defesa do vosso corpo, do vosso lugar, da nossa existência. Quero acreditar que em 2074 os nossos jornais, as nossas casas, as nossas lutas laborais não serão becos sem saída. Quero acreditar que a discussão sobre as subjugações das mulheres numa sociedade capitalista patriarcal deixará de ser um processo de atomização social, cultural e de classe. As críticas ao feminismo essencialista, pois foi ultrapassado, deixou de ser um modelo singular para designar os feminismos.Os feminismos só serão claros quando englobarem todas as lutas, para que todas as mulheres sejam livres e combatam as raízes patriarcais e o pensamento estruturalmente machista que sempre alienou o nosso empoderamento. As contas são simples, mas, quando estamos a ser esmagadas para caber num sistema, nem damos conta. Em 2074, não sorriam nem acenem: construam uma confiança entre todas vós e revelem a importância vital para a construção da consciência de classe.”

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Paula Cardoso (Foto: DR)

PAULA CARDOSO
Fundadora da comunidade digital Afrolink, autora, mentora do HeforShe Lisboa

“Sublimes continuadoras, celebro convosco o êxito da nossa maior operação secreta: a ‘Missão Amar’. Herdámos a Democracia da Revolução de 1974, e, 50 anos depois, estivemos quase a deitar tudo a perder, às mãos de um assumido regime de ódio. Garanto-vos, por isso, que mesmo que vos pareça que não há nada para comemorar – nem sequer tempo – pelo tanto que persiste por fazer, acreditem que esta é uma história que tem de ser festejada. Recordo-a, brevemente: sem que os artífices da polarização, desinformação e violação dos Direitos Humanos se apercebessem, agarrámos na mais poderosa das armas, e tornámo-la viral.
No mesmo mundo online onde notícias falsas ajudaram a derrubar Governos e a eleger Presidentes da República, e os ataques a grupos minoritários inundaram páginas de ódio, espalhámos Amor.
Durante uma semana, invisibilizámos todos os conteúdos discriminatórios, fossem populistas, racistas, misóginos, xenófobos ou lgbtqia+fóbicos, e expusemos todas as pessoas com presença digital em Portugal exclusivamente a histórias e dados animadores, e que nos humanizam. Foi o suficiente para evitar que a extrema-direita tomasse o poder de assalto. Em 2024, começámos com Bots de Amor para salvar a Democracia. Espero que agora continuem a missão que iniciámos, celebrando, coletivamente, o Ministério do Amar.”

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Isabel Moreira (Foto: António Pedro Ferreira)

ISABEL MOREIRA
Jurista, deputada, Professora de Direito Constitucional

“Vocês sabem da nossa história universal e nacional, sabem que a democracia só é plena se for a da liberdade igual, a de todas as pessoas, e foi muita a luta ao longo de décadas depois de abril para que as mulheres fossem pessoas inteiras. Abril é e será sempre um projeto inacabado. Antes que a minha geração apague a luz, não o deixem regredir, como foi tentado na minha vida. Sem abril não há libertação das mulheres e futuro algum está livre de ser passado.”

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Joana Lobo Antunes (Foto: Luis Barra)

JOANA LOBO ANTUNES
Professora Universitária e responsável pela Comunicação do Instituto Superior Técnico

“Espero que o cancro do colo do útero seja uma raridade, provando a eficácia da vacinação generalizada contra o Vírus do Papiloma Humano. Espero que o diagnóstico de doenças seja mais acertado e as doses e tipo de medicamentos estudados para os seus casos, e não apenas consideradas corpos fisiologicamente iguais aos dos homens mas mais pequenos. Espero que seja menos provável ter mais danos graves em acidentes de carro, porque os cintos de segurança não são adequados aos seus corpos. Espero que seja tão provável encontrar instrumentistas mulheres como homens, tanto em orquestras sinfónicas como em bandas de rock. Espero que seja absurdo não dividir as tarefas domésticas com os seus cônjuges, sejam quem for. Que seja absurdo que uma mulher, apenas por isso, puxe para si a maioria das tarefas cuidadoras dos filhos.Espero que seja claro para todas as mulheres e meninas que o seu lugar é onde quiserem, e que a sua saúde e bem-estar estão garantidos pela medicina e pela justiça social.”

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Marta Pessoa (Foto: DR)

MARTA PESSOA
Realizadora e documentarista

“Acontece que em 2074 também eu terei 100 anos. Com bastante sorte ainda poderei andar por cá. Ainda com mais sorte estarei instalada num lar confortável, relativamente saudável, e ainda lúcida o suficiente para observar que à minha volta as mulheres que cuidam são bem remuneradas e felizes. Que ao escolherem aquela profissão tiveram a formação adequada, sem terem de prescindir de direitos básicos. Que têm tempo para terem tempo para si e para os outros. E, assim, conto fazer vários passeios no exterior do lar e admirar o jardim, a horta, o bosque, que ali foram plantados e cuidados. E será também ali que irei celebrar em boa companhia estes desejos para 2074 que, entretanto, já se cumpriram. Será nessa altura que deixarei nova mensagem para as mulheres, filhas e netas das de 2074: Que nunca se deixem cair no silêncio e que continuem a dizer não, quando NÃO for a palavra certa para quebrar as injustiças do passado. Nasci em 1974. As pessoas nascidas em 1974 tendem a ser optimistas!”

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Susana Peralta (Foto: Marcos Borga)

SUSANA PERALTA
Economista e Professora Universitária

“Mulher ou menina de 2074,
Aposto que pensas, com razão, que o mundo é injusto. Aposto que as mulheres de 2074 ganham menos do que os homens com o mesmo nível de qualificação. Aposto que há mais homens com cargos políticos de topo do que mulheres, mais homens a falar na televisão, nos jornais e nas conferências, mais homens a gerir grandes empresas. Aposto que as mulheres continuam a ser vítimas de violência machista. Até apostaria que já morreram algumas, este ano, na intimidade do lar que devia ser, para elas, o sítio mais seguro do mundo.
Mas olha, mulher de 2074: em 2024, quando te escrevo, as mulheres ganham 13% abaixo dos homens. Em 50 anos de democracia, ainda só tivemos uma Primeira-Ministra. E talvez não acredites, mas chamavam-lhe Primeiro-Ministro. E no último ano houve 25 mulheres assassinadas pelos parceiros. Espero que me leias e que pelo menos possas constatar que algo melhorou nestes 50 anos. Por isso, continua a lutar, mulher de 2074. Pelas mulheres e meninas de 2124 que vão herdar o país melhor que lhes conseguires deixar.”

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Carla Luís (Foto: João Lima)

CARLA LUÍS
Consultora Eleitoral e Professora Universitária

“Cara Mulher,
Espero que quando leias estas linhas tudo te pareça desatualizado.
Em Portugal, mesmo com a Lei da Paridade a prever 40% nas listas, houve apenas 37% de mulheres eleitas para o Parlamento (63% de homens). Nos parlamentos nacionais da União Europeia a média é de 33% de mulheres (67% de homens), e a média mundial é de 26% (74% de homens). Só três países têm uma maioria de mulheres no parlamento: Ruanda, Cuba e Nicarágua.
Em 2024 continua muito por fazer. Trilhámos um longo caminho desde 1974, mas a montanha surge alta. Ser mulher é uma batalha a cada dia, fora de casa e às vezes dentro dela. Esperemos que, entretanto, tenhamos conseguido avançar: com energia, com garra, mas com amor. Há muitos paradigmas para fazer as coisas, e também é muito forte a linguagem do cuidar – e mesmo essa não tem de ser exclusivamente feminina.
Nos próximos 50 anos esperemos gastar mais energia a celebrar conquistas. Alento! Como sempre, nós persistimos.”

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Leonor Caldeira (Foto: DR)

LEONOR CALDEIRA
Advogada, vencedora do Prémio Nelson Mandela

“Escrevo na esperança de estar viva em 2074 (farei 81 anos nesse ano) e, por isso, na primeira pessoa do plural. Que em 2074 possamos celebrar os 100 anos do nosso regime democrático que consagrou na lei os direitos, liberdades e garantias da mulher como cidadã de primeira. Que possamos olhar para 2024 e observar, sem reservas, o progresso das conquistas feministas e da libertação da mulher da opressão patriarcal desde então. A libertação da não divisão de tarefas domésticas e responsabilidades familiares; da violência doméstica e violência no namoro que hoje afeta e mata desproporcionalmente mulheres; da exclusão de lugares de decisão na política e nas empresas. Sobretudo, espero que em 2074 possamos, coletivamente, ser mais livres e mais felizes. Até já.”

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Sofia Tavares (Foto: João Paulo Martins)

SOFIA TAVARES
Empreendedora e fundadorado projeto de mentoria Motto

“Mulheres de 2074, celebremos conquistas enquanto preservamos valores fundamentais como: a resiliência e sabedoria da geração silenciosa; ousadia e força comunitária das baby boomers; o equilíbrio e inovação da geração X; o ativismo e autenticidade das millennials; e a consciência social e diversidade da geração Z.
Para a Geração Alpha, o novo futuro, comprometam-se em preservar o planeta. Mantenham o acesso à informação e formação para todos. Promovam a igualdade de acesso às tecnologias. Continuem a desmistificar a saúde mental, priorizando o bem-estar emocional. Que a vossa subtileza, generosidade, paixão e dedicação possam influenciar outros, acabando com caminhos obscuros como o racismo e a xenofobia. Ficaria muito contente se em 2074 as portuguesas tivessem maior poder sobre si próprias. Que as questões que atualmente são um fardo não sejam um tema de discussão em 2074 e que, a 100 anos do 25 de abril, a liberdade seja a vossa ferramenta do dia a dia, e que valores humanos não se percam no tempo. Num mundo em constante evolução, celebremos a nossa fantástica caminhada em direção a um mundo justo!”

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Sara do Ó (Foto: João Lemos)

SARA DO Ó
Fundadora e CEO do grupo Your,Prémio Mulher Empreendedora do Ano 2023

“Às mulheres de 2074 gostaria de pedir que arrisquem e que saltem para a linha da frente, que não parem de expor nas suas ideias; que lutem pelos valores em que acreditam; que despertem mentes inquietas e estudem sempre ao longo da vida, que não descurem o conhecimento e a curiosidade, e que leiam, leiam muito e falem, falem sempre o que pensam, que deem uso à sua voz; que não inibam as suas emoções e as usem como forma de se empoderarem – será sempre esta a nossa mais-valia sobre as ‘máquinas’, e bem vamos precisar dela; e que se lembrem de todas as mulheres que desbravaram caminho antes delas, que fizeram impossíveis em possíveis. Viajem, aumentem o vosso mundo para fora, mas também para dentro, conheçam-se sempre cada vez mais e melhor, treinem o vosso coração e não só o vosso corpo, porque só assim poderão inspirar e liderar num mundo cada vez mais desafiador.
E claro, nunca se esqueçam que nós somos o que queremos ser, por isso cuidem bem das vossas imagens interiores pois são elas que desenham a vida do lado de fora.”

*Artigo publicado na revista ACTIVA de março de 2024

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