
Filipa recebeu-nos em sua casa e bastou entrar na sala para percebermos que era o cenário perfeito para esta entrevista. Uma parede com prateleiras de alto a baixo carregadas de livros escritos por mulheres, sobre feminismo e sobre arte no feminino. Noutra parede, fotografias, pinturas e gravuras de artistas mulheres. No corredor, fotos e capas de revistas antigas, muitas delas encontradas em feiras de velharias e traquitanas nos vários países onde viveu e visitou. Venha daí conhecer melhor o trabalho e a vida de uma mulher inspiradora com uma imensa paixão por arte, histórias de mulheres e mulheres que ficaram na História.
A Filipa é historiadora, investigadora, e tem-se dedicado a estudar o lugar das mulheres na arte e na cultura. Como surgiu esse interesse?
Pela condição das mulheres, em casa, logo na adolescência. Pelas mulheres na arte e cultura, bastante mais tarde. A minha mãe era feminista, trabalhava na Comissão da Condição Feminina, o organismo que o estado criou após o 25 de abril para consolidar os recém-instituídos direitos das mulheres. Antes disso a discriminação em relação às mulheres era legal e banal. Por outro lado, a minha mãe era bisneta de Bessie Rayner Parkes, inglesa, escritora e ativista, muito envolvida nas campanhas pelos direitos das mulheres em meados do século XIX, em Londres. A minha mãe, Ana Vicente, era ainda neta de uma escritora e filha de uma jornalista e escritora. Por isso, eu venho de uma genealogia materna onde as mulheres trabalharam toda a vida e em profissões que não eram manuais – nessas, no campo, nas fábricas ou em casa, as mulheres trabalharam desde sempre, gratuitamente ou a receber salários sempre mais baixos do que os homens.
Assim, cresci numa casa onde as ideias de igualdade eram conversa quotidiana e onde o feminismo era algo positivo e princípio básico dos direitos humanos. Por outro lado – e estas são as contradições também do quotidiano – quando não estava na escola passava muito mais tempo com a minha mãe do que com o meu pai. Passei, em criança, muitas horas na Comissão da Condição Feminina, a atual Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, onde só trabalhavam mulheres, e já se faziam coisas extraordinárias. Tinham, por exemplo, um gabinete gratuito de aconselhamento jurídico para mulheres vítimas de violência doméstica, isto no final dos anos 70, início dos 80, e faziam campanhas a promover a partilha de tarefas domésticas entre homens e mulheres, por exemplo.
Escolheu o curso de História já a pensar que iria dedicar-se à temática feminista?
Não, e é muito curioso refletir sobre porque é que nunca pensei nisso enquanto estudante. Escrevi sobre essa contradição na introdução do livro que publiquei em 2012, ‘A Arte Sem História. Mulheres e cultura artística (séculos XVI-XX)’. Como é que eu, que achava que era feminista desde a adolescência, fiz toda uma licenciatura em História, variante História de Arte, sem nunca me aperceber que toda a minha educação era masculina? Não houve uma perspetiva de género a qualquer época histórica que eu estudasse, não ouvi falar de nenhuma mulher artista. E o problema é que nunca reparei nisso. Só em 1994, aos 22 anos, quando fui estudar para a Universidade de Londres, é que me confrontei com abordagens de género em todas as disciplinas. Ou seja, nas universidades inglesas dos anos 90, já se pensava historicamente no que significava ser mulher nos séculos XVIII ou XIX, e que era muito diferente de se ser homem. Os percursos e possibilidades de uns e outros estavam determinados à nascença, mesmo que tenha sempre havido transgressões a essas normas. Isso foi inovador para mim e fez-me pensar: ‘como é que eu, que achava que estava atenta a estas questões, não reparei que toda a minha educação, quer secundária, quer universitária, foi predominantemente masculina?’.
Foi para Londres estudar o quê?
Comecei por estudar História de Arte Contemporânea, e aí tive uma disciplina sobre História dos Museus e das Exposições no século XIX e acabei a fazer o meu doutoramento sobre o século XIX, um período extremamente rico também para os debates sobre género e raciais, quando os movimentos coletivos a favor dos direitos das mulheres ou anti-esclavagistas começam a organizar-se coletivamente. Há uma série de transformações tecnológicas que fazem com que o mundo se globalize e se aproxime ainda mais – os caminhos de ferro, os barcos a vapor, as tecnologias de reprodução… –, e também há o que em inglês se chama o ‘visual turn’, isto é, o mundo torna-se muito mais visual porque nasce a Fotografia e as tecnologias que permitem a sua multiplicação, cada vez mais simples e mais barata, ao longo da segunda metade do século XIX…multiplicam-se os jornais para quem sabe ler, como as imagens, para quem sabe ler e para quem sabe “ver”, que somos todos.
Embora eu trabalhe sobre diversas áreas, e a história da arte feminista e as mulheres artistas seja apenas uma delas, a verdade é que se cruza com muitos dos meus outros temas de investigação, como por exemplo os estudos coloniais, ou o nascimento dos movimentos feministas em meados do século XIX, quando a palavra “feminismo” ainda não existia. As discussões sobre os direitos e a emancipação das mulheres é mais antiga do que nós imaginamos. Não nasce só no século XIX. Logo a seguir à revolução francesa em finais do século XVIII, sobretudo em França e em Inglaterra, há mulheres a perguntarem-se, ‘porque é que a Revolução Francesa veio repensar o estatuto de cidadania dos homens, mas não das mulheres’? A Olympe de Gouges ou a Mary Wollstonecraft são duas delas. Tal como é a partir deste período e, mais, na segunda metade do XIX, que muitos homens negros, e algumas mulheres, sobretudos nos Estados Unidos, começam a lutar individual e coletivamente contra a violência da escravatura e pela cidadania das pessoas negras. Parece absurdo que alguns seres humanos valham menos do que outros perante a lei. Mas como sabemos, ainda é assim em muitos sítios do mundo.
Nestes quase 30 anos de estudo, o que mais a surpreendeu?
Surpreendeu-me a quantidade de mulheres artistas que existem desde o século XVI. O meu livro ‘Arte Sem História’ é também sobre isso. Foi uma grande surpresa descobrir todo este mundo de mulheres que não foram integradas nas disciplinas da História e da História da arte. Por isso é que temos sempre de ter um sentido crítico em relação ao conhecimento a que estamos expostos na escola secundária, como na universidade, porque o conhecimento que se escreve ou ensina está sempre marcado pelo momento histórico em que é produzido. E durante muito tempo foi um conhecimento produzido por homens e centrado no masculino.

“Surpreendeu-me a quantidade de mulheres artistas que existem desde o século XVI. O meu livro ‘Arte Sem História’ é também sobre isso. Foi uma grande surpresa descobrir todo este mundo de mulheres que não foram integradas nas disciplinas da História e da História da arte.”
Essas mulheres foram invisibilizadas?
Existiam, mas não eram vistas, não eram estudadas, não estavam expostas nos museus, nos livros de história de arte. E o mesmo se pode dizer em relação às escritoras. Muitas vezes, as pessoas acham que se não estudaram mulheres artistas, é porque elas não existiram. E não é verdade. A partir de 1970, sobretudo, descobrem-se muitas mulheres do passado. Mas já antes disso Virginia Woolf tinha escrito aquele ensaio extraordinário, ‘Um Quarto Só Seu’, sobre as condições necessárias para que as mulheres pudessem ser escritoras. Ela começa por ir à procura da sua genealogia, das escritoras do passado, mas conclui que era muito difícil às mulheres dedicarem-se à escrita – como a qualquer outro trabalho intelectual e criativo. O seu ensaio é uma reflexão sobre as razões que levaram a que a “irmã de Shakespeare” nunca pudesse ter existido…mesmo que fosse tão brilhante como o irmão.
Porquê só nessa altura?
Porque é na década de 1970 que há grandes transformações políticas e sociais no estatuto das mulheres em vários sítios do mundo, e porque mais mulheres começam a trabalhar em museus e em universidades. E estas mulheres, mais atentas ao seu estatuto no presente vão à procura das mulheres do passado. Todos precisamos de um passado e de um futuro. A História está sempre a ser reescrita, e mal seria se não fosse assim, porque estamos sempre a descobrir coisas do passado que nunca tinham sido encontradas por ninguém, nunca tinham sido pensadas assim, ou tinham sido vistas e tinham sido ignoradas. Como a existência de mulheres a produzirem conhecimento e criatividade. Elas estavam lá – na documentação e nos arquivos históricos do passado. Mas quem decidia o que era relevante escrever ou ensinar não as tinha considerado dignas de reflexão ou mesmo menção. Ou simplesmente não as tinha visto. Porque só vemos aquilo que estamos preparados para ver.
Não foi assim há tanto tempo que as mulheres tiveram acesso a todas as instituições de ensino.
Até finais do século XIX, uma mulher não podia entrar na Escola de Belas Artes de Paris ou Londres. Também não podia entrar nas universidades de Cambridge ou Oxford até bem avançado o século XX, por muito privilegiada que fosse em termos económicos, tinha muitas barreiras intransponíveis.
Vivemos mesmo num mundo diferente…
Sim mas eu ainda nasci num Portugal em que as mulheres valiam menos do que os homens, tinham um estatuto jurídico inferior. Agora vivemos num país com leis igualitárias, em que não há distinção legal entre géneros mas é importante lembrarmo-nos de que em muitos países a discriminação continua a ser política e lei de estados. E mesmo em Portugal, onde já temos umas décadas de uma democracia igualitária, vemos que persistem desigualdades que podem ser difíceis de contrariar, precisamente porque são naturalizadas, fazem parte do nosso quotidiano, na forma como falamos, como olhamos para os outros, como vemos o mundo. E é muito mais difícil transformar aquilo que de tão naturalizado, é inconsciente.
Tem de haver uma consolidação constante dos direitos das mulheres?
Sim. Em Portugal, entre 1910 e 1930, houve um período forte de movimentos portugueses e internacionais a favor dos direitos das mulheres e das pessoas negras. Temos vozes a escreverem em jornais sobre estes assuntos, a organizarem conferências, a manifestarem-se no espaço público. Depois houve um retrocesso com o Estado Novo. E essas vozes foram censuradas e reprimidas. É importante tomarmos consciência de que há direitos que julgamos garantidos, e depois verificamos que não é assim. Temos de estar constantemente atentos. Há vários países em que, nos anos 70 do século passado, as mulheres tinham mais direitos do que têm hoje.
Está a referir-se ao Afeganistão e ao Irão?
Sim, por exemplo. Por isso é que a preservação desses direitos fundamentais de todos os seres humanos, da igualdade ou da democracia, obriga a um trabalho contínuo. Nada é garantido.

“A preservação dos direitos fundamentais de todos os seres humanos, da igualdade ou da democracia, obriga a um trabalho contínuo. Nada é garantido.”
Como se encontra registos de mulheres que foram ‘apagados’ da História?
Essa pergunta tem sido discutida por muitas historiadoras e historiadoras da arte. Quando olharam para os séculos XVI, XVII, XVIII, XIX e mesmo XX, constataram que era muito mais difícil encontrar traços documentais da vida das mulheres. Quer em geral, quer mesmo das pintoras ou escritoras que deixaram traços no passado, provas da sua criatividade e conhecimento na esfera privada ou pública. O passado feminino estava “enterrado” mais fundo, os resquícios dessas vidas femininas estavam mais fragmentados, foram menos guardados, menos restaurados, menos preservados. E dá-se um círculo vicioso de invisibilidade.
O que quer dizer com isso?
A História é feita no presente a partir dos restos documentais do passado. Os arquivos históricos, as bibliotecas, os museus, mas também os arquivos privados, são lugares onde os historiadores vão à procura das suas fontes, de documentos. É impossível fazer uma história das mulheres equivalente àquela que foi feita para os homens. Por um lado, porque menos mulheres tiveram oportunidades de deixarem “marcas” no passado. Mas por outro, porque mesmo aquelas que as deixaram, foram menos valorizadas no seu presente e no seu futuro. Os arquivos privados e públicos preservaram menos documentação sobre mulheres, os grandes museus, como o Louvre, os Uffizi, ou o Prado, tiveram menos interesse em colecionar os trabalhos das pintoras ou então tinham-nos nas suas reservas e não estavam estudados, não estavam disponíveis, ou estavam por restaurar. Fazer um trabalho sobre mulheres é, à partida, sempre mais difícil porque as fontes são menos fáceis de encontrar. É preciso ter esse interesse específico, de colocar umas ‘lentes feministas’ e fazer uma procura ativa desse passado.
Estudou e trabalhou muitos anos fora, quando voltou a Portugal pareceu-lhe diferente?
Depois de viver muitos anos fora, regressei há 16 anos e fiquei impressionada com a ausência de mulheres no espaço público português, a escreverem nas colunas de opinião, a falarem nos debates televisivos, a ocuparem lugares de poder. Fiquei surpreendida por essa ausência de representatividade porque era contraditória com muitos outros progressos. Quando se questionava esse facto, a resposta por parte de quem fazia as escolhas era ‘não existem’, ou ‘não interessa quem escreve a coluna de opinião, se um homem ou uma mulher, porque somos igualitários e, portanto, é só uma questão de mérito’. Mas então se o que interessava era o mérito porque não havia mais mulheres? E voltamos ao círculo vicioso. Se há menos mulheres na esfera pública a falar sobre assuntos que não sejam considerados femininos, então é menos provável que eu me lembre de uma mulher, porque são menos conhecidas. Portanto, se quero convidar mulheres, tenho de pensar ativamente, ter essa consciência e vontade de que o espaço público seja representativo e democrático. E isso acontece muito mais no Portugal do presente do que acontecia há 16 anos.
A velha questão do mérito…
O M de mérito foi historicamente associado ao masculino. Há uma naturalização quase inconsciente das pessoas, também das mulheres, associarem o mérito ao masculino. E isto é assim para o passado como para o presente. Só quando a pessoa toma consciência da naturalização destas discriminações é que consegue desconstruí-las.
As mulheres têm de ser duas vezes melhores que os homens para o mesmo cargo e são muito mais escrutinadas naquilo que fazem?
Sim. E se as mulheres fazem algo negativo é muitas vezes “por serem mulheres”. As mulheres artistas quando eram consideradas más artistas pela crítica, eram-no por serem mulheres. Os “maus” artistas homens não o eram por serem homens. É interessante pensar como as cotas femininas foram criticadas e era tçao comum ouvir ‘ela só foi escolhida por ser mulher’, ou ‘só foram escolhidos por serem negros’. Lembro-me de uma mulher negra ter ganho um prémio literário, em França, e de ler um artigo em Portugal que assumia que ela teria ganho por ser ‘mulher e negra’. Há uns anos era o “politicamente correto”, agora chamam-no “woke”. Eu gostava de ouvir mais vezes ‘esta pessoa foi escolhida porque é um homem e é branco’ porque foi isso que aconteceu historicamente e todos os dados estatísticos o indicam. Predominavam as cotas masculinas. Isso é que foi o “politicamente correto” durante séculos.
Além da invisibilização, há a apropriação do trabalho de mulheres.
No meu livro ‘Arte sem História’ dedico um capítulo aos casais-artistas porque também historicamente eles tiveram mais reconhecimento em vida do que elas. Mesmo que em Portugal a exceção confirme a regra, com a Paula Rego, a Helena Almeida ou a Vieira da Silva. Há também toda uma bibliografia sobre casais de cientistas, de antropólogos, em que um olhar atento ao género descobriu muitos casos de trabalho assinado pelos homens, mas também feito por estas mulheres que não ficaram inscritas na história ‘nem numa nota de rodapé’…
Nem o mínimo reconhecimento?
Às vezes não são casais com uma relação afetiva, são mulheres que trabalhavam com homens que estavam ligados à produção científica de conhecimento, artística e escrita. Soube de vários casos de historiadores mais velhos, que tinham mulheres que trabalhavam para eles, a fazer secretariado, investigação, que é um trabalho fundamental para que alguém se possa dedicar ao trabalho que é depois exposto na esfera pública e intelectual, e nada é referido.
O efeito Mathilda?
Costuma usar-se esse conceito a propósito da ciência, mas é um fenómeno comum a todas as esferas de conhecimento, às artes e à literatura.

“A educação é importantíssima e os governos deviam investir numa cultura da igualdade que comece no ensino pré-primário. Não é só introduzir nomes de mulheres em todas as fases da educação, é questionar porque é que as mulheres foram discriminadas.”
Que mulheres deviam ser presença inequívoca nas aulas do secundário?
Tantas. A educação é importantíssima e os governos deviam investir numa cultura da igualdade que comece no ensino pré-primário. Não é só introduzir nomes de mulheres em todas as fases da educação, é questionar porque é que as mulheres foram discriminadas. Para que as novas gerações não reproduzam a desigualdade e, pelo contrário, naturalizem a igualdade.
Para alunas e alunos?
Claro. Conheci uma professora que promovia jogos para combater as discriminações naturalizadas que ela já sentia em crianças da pré-primária, em que os meninos achavam que tinham prioridade sobre as meninas. A casa e a escola têm um trabalho a fazer. Mas só a escola pode combater as desigualdades das múltiplas “casas” de onde vêm as crianças. Se uma criança vê um pai a ser violento com a mãe, ou a não partilhar com ela as tarefas domésticas ou o cuidado da própria criança, só na escola poderá ter a experiência de outros modelos, de espaços e mundos onde exista igualdade de género. Sabemos que o equilíbrio de género no cuidado e nas tarefas domésticas é um espelho da esfera pública e profissional. Para que haja igualdade fora de casa tem de existir igualdade em casa.
A partilha da domesticidade ainda está longe?
Pensemos em Portugal, há mais doutoradas do que doutorados, mais mulheres licenciadas, mas depois o que vemos? Quando as mulheres e homens saem das universidades, as diferenças de género começam a marcar as vidas e os percursos profissionais, porque há muitos jovens casais heterossexuais em que as tarefas domésticas e o cuidado dos filhos ou da família não é partilhado. Se uma criança está doente, quem fica em casa é mais provavelmente a mãe do que o pai. É mais provável que essa mulher seja prejudicada de outras formas, como também é mais provável que tenha funções em que irá à partida ter menos responsabilidades e menos reconhecimento salarial, mesmo nas profissões mais qualificadas.
E nas menos qualificadas? As desigualdades acontecem tanto nas profissões mais qualificadas como nas menos qualificadas?
Também. As diferenças são ainda maiores. Porque há uma feminização da pobreza devida a múltiplos fatores. E muitas esferas de desigualdade profissional. É comum entrarem mulheres e homens ao mesmo tempo numa fábrica, com o mesmo estatuto e grau de escolaridade, mas rapidamente aos homens são-lhes dadas tarefas que significam um aumento de salário. Também há fábricas – ou a hotelaria – que escolhem mulheres porque lhes “podem” pagar menos. E este “podem” é perverso. As mulheres aceitam por falta de alternativa e muitos homens sentem-se humilhados por receber menos, ou tanto, como uma mulher. Querem ganhar mais pelo mesmo trabalho. Ou ocupar hierarquias superiores às das mulheres. São múltiplos os fatores que explicam a desigualdade salarial. Como persiste se é ilegal? Porque são invocadas razões que não têm a ver com o género.
Vemos agora ‘influenciadoras’ a fazer a apologia do lugar da mulher em casa. Há até um movimento nas redes sociais, as #tradwives…
Resistências sempre existiram. Nestes 50 anos depois do 25 de Abril, houve transformações extraordinárias em relação ao estatuto das mulheres, mas há e sempre houve movimentos e forças contrárias. O antifeminismo persiste de muitas formas. É importante perceber que as mulheres têm direito à escolha, e pode haver mulheres que queiram não ir para a universidade, que queiram ficar em casa dedicadas aos seus filhos e ao cuidado doméstico. Mas também é importante que tenham consciência dos efeitos negativos da dependência económica e de como as potenciais ausências ou falhas afetivas – um divórcio ou a partida dos filhos – poderão ter um efeito muito mais pernicioso se uma mulher não tiver profissão e meio de subsistência… A palavra ‘escolha’ é importante. Muitas mulheres tiveram e têm menos escolhas por serem mulheres.
Continua a fazer sentido ser feminista?
Claro! Mesmo se vivêssemos num país utópico onde as discriminações de género já não existissem, temos sempre de pensar que vivemos num mundo global. Ainda que na nossa esfera pessoal a igualdade não seja um assunto, ou mesmo no meu espaço profissional, se olhar para o lado, posso dizer o mesmo? Temos sempre de nos lembrarmos que a nossa experiência individual pode não ser representativa, no país onde vivemos, ou no resto do mundo.
A palavra feminista deixou de ter uma conotação negativa.
Desde que me considero feminista, no princípio da minha adolescência, que tenho notado uma mudança significativa no estatuto da palavra. Era comum, há uns anos, ler entrevistas de mulheres conhecidas, dizerem que não eram feministas. Hoje, as pessoas informadas sabem que o feminismo lutou e luta pelos direitos iguais entre todas as pessoas, enquanto o machismo defende uma superioridade ou domínio masculino. O feminismo não é contra ninguém, é só a favor de todos. Se um pai quiser que a sua filha seja autónoma e independente, que tenha um salário que não seja mais baixo só porque é mulher, que tenha as mesmas expetativas e providencie a mesma educação a uma filha ou a um filho, então é feminista. Se um pai acha intolerável que o namorado ou ex-marido da filha lhe bata ou a insulte, se acha intolerável que um colega de trabalho seja violento para com a ex-namorada, então está a ser feminista.
Andamos há meses a falar de perceções de insegurança, mas não se fala de violência doméstica.
As pessoas que, em Portugal, vivem numa situação de maior insegurança são as mulheres. Sobretudo dentro de casa e por causa de homens que lhes são, ou lhes foram, próximos. As ciências sociais mostram-nos como temos de olhar para os números e dados estatísticos. Quando eu nasci, em 1972, um marido podia bater na mulher impunemente. Hoje, o que as estatísticas e os estudos nos dizem é que continuam a ser mortas mulheres de todas as idades e meios sociais, por maridos, ex-maridos, ex-namorados… A violência doméstica é fruto de séculos de tolerância à desigualdade. Aquelas que morrem são uma ínfima parte das que são agredidas. O estado precisa de investir mais nas várias frentes que possam contribuir para resolver este gravíssimo problema cujos efeitos persistem durante várias gerações. Mais apoios e alternativas a mulheres, e crianças, vítimas de violência doméstica. Mais investimento em educação e apoios sociais, mais espaços para jovens e crianças para além das escolas, mais investimento em espaços urbanos e habitações precárias, mais formação e investimento em assistentes sociais, polícias, professores, psicólogos, profissões que podem contribuir tanto para melhorar a vida das pessoas com vidas “inseguras” como são as mulheres a viver em situação de violência doméstica, os imigrantes, as crianças e jovens em situações afetivas e financeiras precárias, as pessoas, em geral, que vivem em situações de vulnerabilidade social.
Hoje temos mais mulheres em cargos de topo, como Ursula von der Leyen, Giorgia Meloni ou Kaja Kallas. É importante mesmo que não contribuam para uma maior igualdade de género?
A minha opinião é que, idealmente deve haver espaço para todas as mulheres mesmo que algumas delas não contribuam para a causa feminista. Como é que as raparigas podem imaginar-se em lugares de decisão, se não têm modelos à sua frente? Vermos exemplos daquilo que podemos ser, um dia, é muito importante.
Espaços de trabalho com igual número de mulheres e homens são importantes?
Penso que os lugares, como os países, onde há mais igualdade de género são melhores a todos os níveis. Há menos espaço para o assédio sexual, para a diferença salarial. No meu local de trabalho há tantas investigadoras como investigadores, há mulheres nos lugares de liderança, e é normal um pai, como uma mãe, dizer que tem de sair mais cedo de uma reunião porque vai buscar os filhos à escola. Gosto de trabalhar num lugar assim.
Mas não é assim em todo o lado.
Não, os nossos mundos podem não ser representativos de nada. Para que haja uma cultura de igualdade ela também tem de partir dos homens – num painel só de homens numa conferência ou numa comissão, um deles disser ‘desculpem, mas não me sinto confortável com isto’; um patrão não aceitar pagar menos às mulheres, mesmo que seja essa a cultura instaurada; um pai educar filhos e filhas de modo equivalente etc etc.
“A minha opinião é que, idealmente deve haver espaço para todas as mulheres mesmo que algumas delas não contribuam para a causa feminista. Como é que as raparigas podem imaginar-se em lugares de decisão, se não têm modelos à sua frente?”
Continua a haver uma normalização de espaços masculinos?
Sim, da política, ao desporto, do cinema aos grandes grupos de comunicação social…quem têm nos lugares de maior poder? Exemplos há tantos. O prestigiado Conselho de Estado, teve e tem uma ínfima quantidade de mulheres entre os seus membros. Na Igreja Católica, como nas outras principais religiões, um homem pode ocupar todos os lugares na instituição. Mas uma mulher, apenas alguns. Uma mulher portuguesa é igual perante a lei. Mas não pode ser “padre” mesmo que queira. Não existem razões teológicas que o justifique. Apenas razões humanas. As religiões dominantes são demasiado parecidas com os poderes terrenos, desiguais e patriarcais, que deveriam condenar. Numa religião que tem como figura central um Cristo igualitário, transformador, denunciador das injustiças sociais e humanas, e onde as missas ou apoios sociais católicos têm uma preponderância de mulheres como é que os lugares de maior poder podem ser apenas ocupados por homens? É a normalização de um espaço masculino…
Que livro sobre igualdade de género mais a marcou?
Muitos. Mas há dois livros que, penso, deveriam fazer parte do programa obrigatório no ensino secundário: ‘Um Quarto Que Seja Seu’, de Virginia Woolf, e ‘As Novas Cartas Portuguesas’ das três Marias. Eu nunca as estudei nem ouvi falar nelas na minha educação.
Que mulheres a inspiram?
Tantas, lembro-me de Maria Teresa Horta, a Paula Rego, a Virginia Woolf, a minha mãe, avó, bisavó e trisavó… As mulheres que vejo no Metro todos os dias, que estão a sair do seu primeiro trabalho quando eu vou para o meu. Todas as mulheres que são corajosas e capazes de transgredir os caminhos e os percursos que lhes estavam destinados. Que fizeram com que mulheres da minha geração ou as minhas filhas tenham mais escolhas.