O cancro com maior incidência feminina no nosso país é o da mama, seguem-se o colorretal, o do pulmão, o da tiroide e em 5.º lugar vem o ginecológico, que ‘agrupa’ vários órgãos do aparelho reprodutor. O mais comum destes carcinomas é o do endométrio que, se detetado precocemente, tem uma taxa de sobrevivência superior a 5 anos de 95%. O do ovário, mais raro, é o mais letal: 75% dos casos são detetados num estádio avançado daí que a sobrevivência a mais de 5 anos seja de 50%. É por isso importante estarmos atentas ao nosso estado de saúde e consultar o médico de família regularmente. Falámos com duas sobreviventes de cancro ginecológico, Cláudia Fraga, professora de Educação Física e fundadora-presidente da MOG, associação Movimento Oncológico Ginecológico, e Célia Leal, advogada, que nos contaram como lidaram com o cancro. Já Joana Bordalo e Sá, médica oncologista no IPO do Porto, dá-nos a conhecer a doença de forma mais aprofundada e a que deve estar alerta.

Fala-se em cancro ginecológico mas na verdadenão é apenas um, são vários…

Exato, um cancro ginecológico é um cancro que deriva de um dos órgãos ginecológicos, por isso temos o cancro do colo do útero, do ovário, do endométrio, da vulva e da vagina. O mais frequente desses cancros é o cancro do endométrio, logo a seguir vem o cancro do colo do útero e depois o cancro do ovário, da vulva e da vagina.

Sabe-se quantas mulheres são diagnosticadaspor ano em Portugal com esses cancros?

Os últimos dados que temos são de 2020. O cancro mais prevalente nas mulheres é, sem dúvida, da mama, aqui em Portugal, como no resto do mundo, nesse anos surgiram mais 7000 novos casos. Em relação aos cancros dos órgãos reprodutivos na mulher, os dados mais recentes são da IARC (International Agency for Research Cancer), e dizem-nos que no nosso país, em 2020, houve 1238 novos casos de cancro do endométrio; 865 novos casos de cancro do colo do útero; 561 novos casos de cancro no ovário; 200 novos cancros da vulva e 49 de cancro da vagina. Ou seja, no total, temos 2916 mulheres com cancro ginecológico. Infelizmente, o único que tem rastreio oncológico preconizado é o cancro do colo do útero através do teste Papanicolau e pesquisa do HPV (Vírus do Papiloma Humano).

Este cancro é mais comum na menopausa?

Sim, são cancros que habitualmente ocorrem nas mulheres pós-menopáusicas, não quer dizer que não haja casos de mulheres mais jovens, mas é raro. Esperamos que o cancro do colo do útero reduza drasticamente nos próximos anos, graças à inclusão no Plano Nacional de Vacinação da vacina contra o HPV para raparigas e rapazes adolescentes. Mas só vamos ver o impacto desta medida daqui a uns anos.

Quando diz pós-menopáusica está a referir-sea que idade exatamente?

Depende, por norma podemos assumir que são os 60 anos, mas também há quem aponte para mais cedo, entre os 50 e os 60 anos. Para termos a certeza que uma mulher está em menopausa habitualmente precisamos de confirmação laboratorial, mesmo que já não tenha menstruação, ou então é uma mulher que já não tem período há mais de um ano e não está a fazer nenhum tipo de terapêutica, são estes os vários critérios de menopausa que existem.

Quais são as diferenças entre estes cancros?

Eles são bastante diferentes. Por exemplo, sabemos que o cancro do colo do útero é um cancro ligado a um vírus, o HPV, há um fator infeccioso que está na origem na maior parte dos casos, por isso esperamos uma redução significativa com a vacinação.

Já o cancro do endométrio, para além dos fatores genéticos, hormonais e metabólicos, tem sobretudo como fatores de risco a obesidade, a dislipidemia, a hipertensão e, é claro, a mulher ser pós-menopáusica. O cancro do endométrio apresenta-se com uma hemorragia vaginal. Não há rastreio específico para este cancro, mas até se apanha em fases relativamente precoces porque é um cancro que sangra e pode dar dor pélvica.

Quanto ao cancro do ovário, é um cancro raro e extremamente silencioso, ou seja, vai-se desenvolvendo devagarinho e só nos apercebemos que estamos perante um cancro no ovário quando ele está avançadíssimo. Normalmente apresenta-se com aumento de volume abdominal, as mulheres até pensam que estão a ficar mais obesas, a sensação de que o intestino anda mais preguiçoso, sentem enfartamento, um bocadinho de dor… Habitualmente não é um cancro que sangra, como o do endométrio ou do colo do útero, que também pode sangrar, mas o que é mais preocupante é que quando ele dá o primeiro sinal ou sintoma já está muito avançado, e 75-86% das mulheres são diagnosticadas em estados avançados, por isso é também mais letal.

Inchaço, obstipação aos 45-60 anos… nessa fase da vida das mulheres esses sintomas não são assim tão raros, muitas vezes ouve-se “é da idade”! Há forma de perceber o que é normal e o que não é?

Por isso é tão importante haver uma boa relação com o médico de família, são eles que seguem estas utentes, faz parte da educação para a saúde e isso é feito no pré-hospitalar.

Mas quando há tanta gente sem médico de família, torna-se difícil essa detecção mais precoce…

Sim, por isso é mesmo muito importante investir na medicina familiar do que andarmos atrás dos fármacos, atrás do prejuízo.

A ecografia vaginal que se costuma fazer numa consultade ginecologia dá para detetar?

Não está preconizado pela Direção-Geral de Saúde que uma mulher tem de ter um seguimento pelo seu ginecologista, o que faz parte das recomendações é que as mulheres sejam seguidas pelos médicos de família e são estes profissionais que pedem os exames em função dos sintomas ou sinais que estejam a ver. Mas é evidente que sendo um exame de imagem pode efetivamente detetar alguma alteração, em qualquer um destes três cancros: endométrio, útero ou ovário.

Os cancros da vulva e da vagina também são silenciosos?

Não é suposto serem tão silenciosos porque são em órgãos um bocadinho mais exteriores, sobretudo o da vulva. O que acontece é que são cancros que existem nas mulheres bem mais velhas, e muitas já não têm atividade sexual, ou seja, fica mais difícil de diagnosticar porque as mulheres não estão sempre a ver os seus órgãos genitais para se sentir ali um nódulo, e mesmo assim tem de ter algum tamanho, se forem coisas minúsculas dificilmente se sente.

Pode é ser detetado numa consulta de ginecologia…

Sim, mas lá está, a não ser que seja referenciada pelo médico de família para uma consulta de ginecologia, não faz parte do plano da DGS e não está errado.

A nossa incidência destes cancros é semelhanteà de países como Alemanha, França?… Pergunto isto porque sendo países mais ricos, com uma população com melhor nível de vida, têm mais acesso a consultas de ginecologia privadas.

O que vemos nos estudos de vida real é que não há grandes diferenças entre Portugal e esses países.

As mulheres que não tiveram filhos têm maior risco de ter este tipo de cancro?

Não ter tido filhos, a nuliparidade, é fator de risco, sobretudo para o cancro do ovário, e a herança genética também, sobretudo quem tem as mutações BRCA I e II, essas pessoas têm maior probabilidade de ter um cancro da mama, do ovário ou do endométrio. Quem tem síndromes hereditárias, como a síndrome de Lynch, também está mais em risco.

Todos têm a mesma probabilidade de cura?

A probabilidade de cura está diretamente relacionada com o estádio em que se diagnostica. Se nós conseguirmos diagnosticar todos estes cancros num estádio precoce I, a probabilidade de cura é elevada. Se forem diagnosticados em estádios mais avançados, a sobrevivência e a probabilidade de cura começam a reduzir. Há pouco falei na maior letalidade do cancro do ovário porque é silencioso e quando dá sintomas já está num estádio mais avançado.

Quando é detetado o tumor, é sempre para operar?

Depende, nem  sempre o tratamento curativo passa pela cirurgia. Tenta-se sempre que possível fazer a cirurgia, quando não é possível tentamos ir por outra via. Por exemplo, no cancro do colo do útero há uns estádios intermédios em que nós podemos fazer um tratamento com intenção curativa com radioterapia e quimioterapia. Há outras situações em que tem de ser cirurgia, e assim a situação fica resolvida.

No caso do cancro do endométrio e do ovário, tenta-se sempre fazer uma cirurgia mesmo que depois se tenha de fazer radio e quimioterapia. No cancro do ovário acaba-se sempre por fazer quimioterapia, antes ou depois da cirurgia.

Estes cancros recidivam muito?

Quanto mais avançado é um cancro, qualquer que ele seja, mesmo que tenha feito inicialmente um tratamento com intenção curativa, maior a probabilidade de recidiva. Depende muito, há também casos de cancros muito avançados que são tratados e nunca recidivam.

Se for detetado em mulheres jovens, fazendoo tratamento elas entram em menopausa?

Se forem operadas e tirarem os ovários, sim.

É uma menopausa normal ou é mais sintomática?

Não é por entrar numa menopausa mais precoce que vai ter mais sintomas, só quer dizer que tem os sintomas mais cedo.

Em relação aos cancros da vulva e da vagina, são cancros que limitam muito a vida sexual da mulher?

Sim, é verdade, até porque os tratamentos podem passar por tratamentos de radioterapia e ficam ali com algumas sequelas. A qualidade de vida sexual é muito afetada, não é nada fácil, podem ter muitas queixas.

O que as mulheres têm mesmode saber e estar alerta?

De uma forma genérica, recomendo que as pessoas tenham hábitos de vida saudável, isso é o mais importante. É fundamental uma dieta equilibrada, evitar ou mesmo banir álcool, tabaco, drogas, e fazer exercício físico. Isto é meio caminho andado para que as coisas corram melhor para todos os cancros, não é só para os ginecológicos. Há, no entanto, uma medida em particular para o cancro do colo do útero de extrema importância: dar a vacina contra o HPV aos adolescentes de ambos os géneros, para que a doença seja prevenível no futuro. E fazer os rastreios dos cancros de mama e colorretal.

CASOS REAIS:

Célia Leal, 52 anos, advogada

A descoberta do meu cancro no ovário e endométrio, aos 47 anos, foi um acaso, uma estrelinha da sorte. Os meus pais, como são diabéticos, andam sempre a dizer para fazer análises para controlar a glicemia e eu em 2017 fiz-lhes a vontade e fui ao Centro de Saúde. Como não tinha médica de família, fiquei com a de recurso, uma cubana fantástica. Eu contei-lhe do receio dos meus pais mas sempre a dizer que não me doía nada, que era supersaudável. É então que ela me questiona sobre a história clínica familiar e eu revelo que a minha avó materna e tia morreram de cancro. Prescreve-me análises normais e aos marcadores tumorais e estas vieram com alterações. Fiz outros exames que revelaram um grande tumor no ovário e tive de ser operada rapidamente. Só na mesa de operações é que o cirurgião se apercebe de que o tumor se estendia ao endométrio. Fiz 6 ciclos de quimioterapia e levei a vida o mais normal possível. No final de 2020 descobriram que um dos gânglios no mesentério tinha aumentado de tamanho e fui outra vez à faca, em março de 2021. Desta vez foi mais complicado, por ser uma recidiva, por não poder ser acompanhada e recear ficar com covid, mas agora tenho é de focar-me na cura e andar para a frente, energia não me falta.

Cláudia Fraga, 55 anos, professora

Aos 49 anos soube que tinha cancro no ovário. Não tive sintoma nenhum a não ser um ligeiro cansaço, mas que mulher que trabalha e com filhos não anda cansada? Sou professora de educação física, sou muito ativa e estava de férias na Ericeira quando comecei a sentir um cansaço extremo. Um dia à noite tive umas dores lancinantes do tórax às virilhas. Fui trabalhar no dia seguinte mas não me sentia bem e decidi ir ao médico. Fiz um TAC pélvico, abdominal e torácico. Como era fumadora, pensei que era dos pulmões mas afinal tinha um tumor no ovário e era para operar. O tumor revelou-se muito agressivo, tiveram de retirar os ovários, o útero, apêndice e mais 50 gânglios linfáticos, e fiz um ciclo de quimioterapia. Em 2018 comecei a sentir um inchaço localizado, diferente, na barriga. Fiz uma colonoscopia e o exame detetou recidivas no íleo e cólon, fiz 4 operações outro ciclo de químio e fui ostomizada. A recidiva custou-me mais e era um stresse andar com o saco da ostomia, com medo que rebentasse. Nessa altura, vi muitas mulheres a chorarem nos corredores e pensei ‘tenho de animar esta malta’. Fundei a MOG (mogportugal.pt) em 2019 e temos mais de 120 associadas. Aqui a mensagem é: temos de canalizar toda a nossa energia para a cura e não para a desgraça.

Artigo publicado na edição 381 da revista ACTIVA.

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