Getty

Respirar deveria ser tão simples como… respirar. Mas entre os nossos antepassados primitivos e as gerações atuais, com uma industrialização pelo meio, perdemos esta aptidão vital. E isso está a afetar, a muitos níveis, a nossa saúde (inclusivamente mental), o nosso bem-estar e até a nossa fisionomia. Como perdemos o fôlego pelo caminho da evolução, e como podemos recuperá-lo? O jornalista e autor James Nestor passou uma década a investigar o assunto, viajando pelo mundo a falar com especialistas, a redescobrir textos antigos que se tinham perdido no tempo (mas ainda hoje fazem sentido), a estudar as várias técnicas de respiração e a praticá-las, e reuniu tudo o que descobriu em ‘Respira, A Nova Ciência de uma Arte Perdida’: um livro premiado e tão fascinante como útil que nos reensina a arte de bem respirar para viver mais e melhor.

Desde os primórdios da humanidade, evoluímos para respirar com a máxima eficiência. O que aconteceu para perdermos esta capacidade vital?

A EVOLUÇÃO NÃO AJUDOU

25 mil: é o número de vezes que o ar entra e sai dos nossos pulmões ao longo de um dia. Ao fim de 5 milhões de existência como espécie, deveríamos saber fazê-lo corretamente, mas fomos perdendo essa habilidade e hoje, como diz James Nestor, somos a espécie de mamíferos que pior respira. “40% da população atual sofre de obstrução nasal crónica e cerca de metade de nós respira habitualmente pela boca, com as mulheres e as crianças a serem mais afetadas”, explica no livro. “As causas são múltiplas: da secura do ar ao stresse, de inflamação a alergias, da poluição a fármacos. Mas muita da culpa vem de uma diminuição crescente do espaço frontal do nosso crânio.” Nos nossos antepassados esse espaço era bem mais amplo, mas ao longo da evolução o crescimento do cérebro (que precisava de mais espaço) e a invenção da comida cozinhada, que deixou de dar trabalho aos maxilares, levaram a um enfraquecimento dos músculos e ossos frontais do crânio. “O rosto encurtou e a boca ficou mais pequena, dando relevo a um nariz mais protuberante.” Acontece que quando as bocas são demasiado estreitas toda a arquitetura do palato se altera, impedindo o desenvolvimento da cavidade nasal e perturbando as estruturas do nariz, o que leva a obstruções e impede a passagem do ar. A linguagem vocal também ajudou à festa: a laringe desceu, os lábios diminuíram para ajudar a controlar a fala e a língua desceu, criando um espaço que nos tornou mais suscetíveis a engasgarmo-nos… e a ter apneia do sono. “Evolução nem sempre significa progresso e temos vindo a transmitir traços que são prejudiciais à nossa saúde.” E aos nossos níveis de energia: como bem sabem todas as pessoas que já sentiram o cansaço físico de um ataque de sinusite…

MUDANÇA DE ARES

“A pesquisa atual em pneumologia, psicologia, bioquímica e fisiologia humana mostra que fazer ajustes, mesmo pequenos, na forma como inspiramos e expiramos pode ajudar a aumentar a performance atlética, rejuvenescer os órgãos internos, parar o ressonar, alergias, asma e algumas doenças autoimunes, e até endireitar a coluna. Nada disto deveria ser possível, mas é.” Incluindo corrigir a arquitetura da boca (sobretudo nas crianças) para ajudar a respirar naturalmente melhor.

De acordo com a investigação do autor, estes são os princípios de uma respiração correta, que não só nos mantém vivos como promove a saúde e a longevidade.

RESPIRAR PELO NARIZ

Respirar constantemente pela boca faz-nos muito mal a todos os níveis. O autor submeteu-se a uma experiência medicamente controlada em que durante 10 dias teve o nariz tapado dia e noite. A sua tensão arterial disparou, os marcadores de stresse também, a temperatura do corpo e a clareza mental diminuíram, a fadiga aumentou. Passou a dormir pouco e mal, a ressonar mais e a ter episódios de apneia do sono, e tinha a garganta constantemente seca. Embora de uma forma não tão extrema, esta é a condição permanente de metade da população. “Respirar pela boca está a destruir a nossa saúde.”

É pelo nariz que devemos respirar, sempre: ele limpa, aquece e hidrata o ar que respiramos, e “pressuriza-o para que os pulmões possam extrair mais oxigénio a cada respiração. Por isso, a respiração nasal é muito mais saudável e eficiente.” Segundo um dos especialistas consultados pelo autor, respirar pela boca contribui para doença periodontal e mau hálito, e aumenta o número de cáries ainda mais do que o açúcar ou uma má higiene oral.

“Como qualquer outra parte do corpo, quando o nariz não é usado regularmente atrofia.” Respirar pela boca ocasionalmente, quando temos o nariz entupido durante um ou dois dias, ou ao rir ou falar, não afeta a saúde a longo prazo, mas a respiração bucal crónica sim. E as consequências a médio e longo prazo são de cortar a respiração no pior sentido. Mas se manter a boca fechada e respirar conscientemente pelo nariz é fácil durante o dia, como fazer enquanto dormimos? Um número crescente de especialistas recomenda o mouth taping (literalmente fechar a boca com um pouco de adesivo no centro). Parece estranho, mas a verdade é que ao fim de segundos já não se sente e dorme-se incomparavelmente melhor logo a partir da primeira noite. Não admira que haja cada vez mais médicos e recomendar esta técnica e mais pessoas a usá-la…

Se retirar apenas uma ideia deste artigo, que seja esta: feche a boca.

EXPIRAR

Raramente usamos toda a nossa capacidade pulmonar e isso faz com que o nosso corpo não funcione tão bem como poderia. E ao contrário do que se poderia pensar, isso tem mais a ver com a expiração do ar do que com a inspiração (como qualquer asmático atento lhe dirá, a sensação de falta de ar vem muitas vezes de ar a mais nos pulmões). “Raramente fazemos expirações completas”, diz James Nestor. “A maioria de nós usa apenas uma pequena parte da nossa capacidade pulmonar total com cada respiração, o que nos obriga a fazer mais com menos. Um dos primeiros passos para uma respiração saudável é prolongá-la, mover um pouco mais o diafragma para baixo e para cima e expelir totalmente o ar dos pulmões antes de inspirar de novo.”

MASTIGAR

Parece que não tem nada a ver com a respiração, mas tem. Durante a pesquisa para o livro, o autor teve oportunidade de observar e comparar crânios humanos de diversas fases da nossa evolução e as diferenças são alarmantes para a nossa função respiratória. “Quase todos os seres humanos nascidos de há 300 anos para trás tinham amplas cavidades nasais, queixos fortes e dentes direitos porque mastigavam muito. Os ossos da face humana não param de crescer por volta dos 20 anos como outros do nosso corpo. Podem expandir-se e remodelar-se para lá dos 70 anos. Isso significa que podemos influenciar o tamanho e forma da nossa boca e melhorar a nossa habilidade respiratória em qualquer idade.” Para o conseguir, Nestor recomenda que, em vez de seguirmos a dieta dos nossos avós, sigamos a dos nossos antepassados muito mais longínquos, com alimentos crus e rijos que exijam mais de uma hora de mastigação. E entretanto devemos manter os lábios fechados, os dentes a tocar-se ligeiramente e a língua no céu da boca.

RESPIRAR MAIS, OCASIONALMENTE

Respirar demais constantemente – o que muitos fazem sem dar por isso – é prejudicial para os pulmões a nível celular. Mas “respirar conscientemente mais intensamente, durante um período curto, pode ser terapêutico.” É o que fazem as técnicas ancestrais Tumo, Sudarshan Kriya e pranayamas vigorosas, usadas por monges tibetanos e yogis, por exemplo.

A fazer apenas com orientação, ao vivo, de quem sabe fazê-las.

DEVAGAR E MENOS

Respirar mais lentamente, menos quantidade de ar (só aquele que de facto precisamos) e pelo nariz é o Santo Graal da respiração, com a vantagem de que, ao contrário do cálice sagrado, está ao alcance de todos nós. “Não custa nada, necessita de pouco tempo ou esforço e podemos fazê-lo onde estivermos, sempre que precisamos. Uma tecnologia que a nossa espécie aperfeiçoou apenas com os nossos lábios, narizes e pulmões, ao longo de centenas de milhares de anos.”

‘Respira, A Nova Ciência de uma Arte Perdida’, de James Nestor

Palavras-chave

Relacionados

Mais no portal

Mais Notícias

O

O "look" de Letizia no reencontro com a filha em Marín

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Ralis de regularidade: das apps gratuitas às sondas, conheça a tecnologia que pode usar para ser competitivo

Helena Isabel trabalha com o advogado que recusou o processo de José Castelo Branco

Helena Isabel trabalha com o advogado que recusou o processo de José Castelo Branco

Rainha Letizia celebra 53.º aniversário

Rainha Letizia celebra 53.º aniversário

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

Guia de essenciais de viagem para a sua pele

O futuro da energia é agora

O futuro da energia é agora

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Stella McCartney: designer distinguida na Nat Gala

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Só ver uma pessoa doente já faz disparar o sistema imunitário

Banda Desenhada: O grande encontro na Amadora

Banda Desenhada: O grande encontro na Amadora

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

De Zeca Afonso a Adriano Correia de Oliveira. O papel da música de intervenção na revolução de 1974

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Familiares e amigos despedem-se de João Lobo Antunes

Helena Isabel em topless no México:

Helena Isabel em topless no México: "Veste qualquer coisita"

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Globos de Ouro também são feitos de diversão e descontração

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Indeed e Glassdoor vão despedir 1300 trabalhadores

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de

Conheça Cândida, a concorrente mais ousada de "Hell's Kitchen"

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1754

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1754

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

Keep the coins, I want change: um mapa para a sustentabilidade empresarial em 2025

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

A Sagração da Primavera - Quando a morte é também fonte de vida

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Do Liberation Day ao Acordo de Genebra – O que se segue?

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem

Infeções respiratórias como Covid ou a gripe podem "acordar" células cancerígenas adormecidas nos pulmões

Patrick Stewart (1940-2026): O universo ficou sem capitão

Patrick Stewart (1940-2026): O universo ficou sem capitão

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Portugália Belém reabre renovada em ano de centenário

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

Pavilhão Julião Sarmento - Quando a arte se confunde com a vida

A escola não pode ser governada pela pressão dos pais

A escola não pode ser governada pela pressão dos pais

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Sede da PIDE, o último bastião do Estado Novo

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Vendas da Tesla na Europa estão em queda

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Cosentino inaugura o Cosentino City Porto e reforça a sua presença em Portugal

Reportagem na selva mágica da Amazónia

Reportagem na selva mágica da Amazónia

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Oficinas de verão onde a criatividade não tira férias

Vozes que não se calam. Testemunhos de quem foi agredido nas manifestações dos últimos dias

Vozes que não se calam. Testemunhos de quem foi agredido nas manifestações dos últimos dias

Quis Saber Quem Sou: Será que

Quis Saber Quem Sou: Será que "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais?"

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Repórter Júnior: Entrevista a Luísa Ducla Soares

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

Adalberto Ribeiro: “Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco”

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Reino Unido junta-se a França para investir na rival europeia da Starlink

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cocktail tóxico encontrado em plástico reciclado

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

Cortes orçamentais de Trump podem levar a mais de 2000 despedimentos na NASA

25 peças para receber a primavera em casa

25 peças para receber a primavera em casa

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Antecipar o futuro: a visão da WTW sobre os riscos emergentes

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

Dia da Criança: 5 sugestões para te divertires

O que os cientistas descobriram ao

O que os cientistas descobriram ao "ressuscitar" o vírus da gripe espanhola

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

CARAS Decoração: 10 espreguiçadeiras para aproveitar o bom tempo

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

Margherita Missoni: “A moda tem de  acompanhar o ritmo das mulheres”

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

O futuro começou esta noite. Como foi preparado o 25 de Abril

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1753

A VISÃO Se7e desta semana – edição 1753

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês

Carregamentos na rede Mobi.E passam pela primeira vez os 700 mil num mês